Adriana Loureiro Fernández/The New York Times
Adriana Loureiro Fernández/The New York Times

Pressão econômica afasta Caracas do socialismo

Sanções americanas forçam Maduro a flexibilizar controle sobre negócios e elevam padrão de vida de uma elite com vida dolarizada

Anatoly Kurmanaev e Isayen Herrera, The New York Times

03 de fevereiro de 2020 | 05h00

Dançando para o DJ e tomando coquetéis no terraço aberto de um bar em uma montanha, um grupo de adolescentes de escolas particulares com tênis Prada e bolsas Chanel olha para as favelas de Caracas, espalhadas vale abaixo. Nas faixas mais pobres da cidade, os moradores continuam lutando com a falta de água e de luz, com a insegurança e a desnutrição. Mas as áreas mais ricas da capital passam por um boom econômico.

Os shoppings que há seis meses pareciam abandonados estão movimentados e SUVs importados circulam pelas ruas. Novos restaurantes e bares surgem semanalmente nas partes mais ricas da cidade, com mesas cheias de empresários estrangeiros, moradores “descolados” e membros do governo.

“As pessoas estão cansadas de sobreviver”, disse Raul Anzola, gerente do Lounge & Bar 1956, local da festa. “Elas querem gastar, querem viver.”

Quase da noite para o dia, o líder do país, Nicolás Maduro, tornou isso possível para alguns. Com a economia do país saindo dos trilhos por anos de má administração e corrupção, e depois empurrada para o colapso pelas sanções americanas, Maduro foi forçado a relaxar as restrições econômicas que definiram seu governo como socialista e forneceram as bases para sua legitimidade política.

As mudanças ajudaram a transformar a Venezuela de maneira que poucos em Washington ou Caracas haviam previsto. Mas lembram como seus aliados, Cuba e Nicarágua, relaxaram as políticas comunistas e permitiram algum investimento privado quando confrontados com o colapso econômico nas décadas anteriores.

Depois de anos nacionalizando empresas, determinando a taxa de câmbio e fixando o preço de bens básicos – medidas que há muito contribuem para a escassez crônica –, Maduro parece ter feito as pazes com o setor privado. Enquanto a economia do país continua em geral se contraindo, a queda nas regulamentações incentivou m as empresas que atendem aos ricos ou ao mercado de exportação a investir novamente.

Atualmente, os dólares são aceitos em todos os lugares, apesar das frequentes denúncias de Maduro de que os EUA são a raiz de todos os problemas da Venezuela. A moeda do país, o bolívar, inútil em razão da hiperinflação, é difícil de encontrar. “Não vejo como algo ruim esse processo que eles chamam de dolarização”, disse Maduro em uma entrevista na televisão em dezembro, referindo-se à livre circulação de dólares.

Ver as prateleiras cheias novamente também ajudou a aliviar as tensões na capital, onde a raiva pela falta de itens básicos, ao longo dos anos, ajudou a alimentar protestos em massa.

Sob a nova economia, os apoiadores de Maduro entre a elite venezuelana estão vivendo generosamente à base de negócios e acúmulo de moedas fortes, que as sanções americanas os impediram de gastar no exterior. No Lounge 1956, os adolescentes e seus pais beberam champanhe e discutiram as próximas viagens de iate.

A transformação também trouxe algum alívio aos milhões de venezuelanos que têm família no exterior e agora podem receber, e gastar, suas remessas de dólaresem alimentos importados. Cerca de 40% das famílias venezuelanas recebem dinheiro do exterior – um total de US$ 3,5 bilhões por ano, o que se tornou crucial para manter a economia da Venezuela.

Mas o boom também teve um custo. A nova economia de mercado livre exclui completamente a metade dos venezuelanos sem acesso a dólares. Isso exacerbou a desigualdade e minou a promessa de Maduro de preservar o legado de maior igualdade social deixado por seu antecessor, Hugo Chávez.

Em seus discursos, Maduro continua a promover uma visão da Venezuela na qual seus recursos são compartilhados por todos, mas a diferença entre a retórica e a realidade é maior do que nunca, disse Ramiro Molino, economista da Universidade Católica Andrés Bello de Caracas. “A luta pela sobrevivência forçou o governo a se tornar pragmático”, disse Molino. “Somente a narrativa ainda é socialista.”

Até alguns membros do partido no poder consideraram as mudanças de Maduro uma traição ao movimento socialista de Chávez e sua missão declarada de ajudar os pobres. “Este é o capitalismo selvagem que apaga anos de luta”, disse Elías Jaua, ex-vice-presidente de Chávez, que ainda faz parte do conselho do Partido Socialista de Maduro.

A produção de petróleo, a maior fonte de recursos do país, está se estabilizando depois de cair para os níveis mais baixos desde a década de 1940, com Maduro relaxando o controle sobre o setor e adotando investimentos privados.

Em vez de continuar com os generosos gastos públicos que marcaram a era Chávez, houve cortes profundos nos programas sociais. Os gastos do governo da Venezuela caíram 25% no ano passado, segundo a consultoria Ecoanalítica, de Caracas.

A drástica liberalização econômica foi acompanhada de repressão política destinada a eliminar os vestígios de oposição. Este novo modelo levou alguns venezuelanos a chamar seu país de “China tropical”.

O governo reduziu a burocracia e fechou os olhos para a tributação, alimentando um boom nas exportações privadas de tudo, desde petróleo ao chocolate, enriquecendo as elites empresariais politicamente conectadas e tradicionais.

Autoridades e oficiais militares bem conectados se beneficiaram de uma infinidade de novas oportunidades de negócios e concessões governamentais em tudo, desde mineração de ouro a hotéis na praia. Ao reduzir o acesso a viagens e serviços bancários no exterior, as sanções também obrigaram essas elites a gastar em casa, aumentando o consumo doméstico de luxo.

Embora as lojas abastecidas e os restaurantes movimentados tenham melhorado o clima da capital para alguns, depois de anos de implacável declínio econômico, não mudaram as perspectivas econômicas gerais do país.

O produto interno bruto da Venezuela deve perder outros 10% este ano, depois de ter encolhido mais de dois terços desde 2013, o maior declínio da história moderna fora de uma zona de guerra, segundo o Fundo Monetário Internacional.

Em um sinal da recém-descoberta confiança do mercado, cerca de 100 empresas venezuelanas se inscreveram para emitir novos títulos em 2019, o número mais alto em uma década. O maior produtor de rum do país, Ron Santa Teresa, concluiu na semana passada a primeira nova emissão de ações do país na bolsa de valores local em 11 anos.

As importações de empresas privadas superaram as do Estado pela primeira vez na história moderna da Venezuela no ano passado, de acordo com o economista Molino.

“Há muito dinheiro circulando no momento, você só precisa saber como encontrá-lo”, disse Zairet López, um contador, recentemente em um festival de música lotado em Caracas, que cobrava uma entrada de US$ 70, ou o equivalente a 14 meses do salário mínimo.

O festival ao ar livre, com as principais bandas de emigrantes da Venezuela, hambúrgueres de US$ 12 e cerveja artesanal, foi um dos inúmeros eventos de entretenimento que floresceram nos últimos meses.

Cansadas de esperar por mudanças políticas, as classes alta e média aproveitaram a poupança externa reservada durante a bonança do petróleo da Venezuela nos anos 2000, quando o governo deu aos cidadãos bilhões de dólares a taxas de câmbio altamente subsidiadas.

Os venezuelanos mantinham depósitos no exterior no valor de US$ 136 bilhões em 2018, de acordo com o Banco Central do país. Mesmo se dividido igualmente entre os venezuelanos, esse número equivaleria a US$ 4.500 por pessoa. Mas alguns tinham muito mais do que isso.

Cerca de metade de todos os venezuelanos não têm acesso a dólares. A maioria deles vive nas províncias, com comida subsidiada. Grande parte desses alimentos é importada ou embalada pelas empresas privadas que antes foram ridicularizadas como golpistas e parasitas por Maduro.

Cerca de 80% dos venezuelanos pensam que estão em situação pior ou igual a de um ano atrás, segundo a consultoria Delphos. E enquanto as mudanças econômicas do governo diminuíram o incentivo para manifestações, pelo menos na capital, quase dois em cada três venezuelanos disseram que protestariam se as condições fossem adequadas.

Para a maioria dos venezuelanos, as reformas de Maduro trouxeram apenas um alívio marginal. Mariely Marin, 30, vende algodão doce em uma praça no centro de Caracas. Ela ganha US $2 por dia, apenas o suficiente para comprar comida e insuficiente para tratar uma doença respiratória que recentemente lhe custou um pulmão.

“Esta é uma maneira de encobrir a realidade”, disse ela sobre a multidão de pessoas tirando selfies na praça iluminada, alinhada com vendedores ambulantes vendendo pipocas e doces. “Quem conheceu outra Venezuela entende que as coisas não estão bem. É óbvio que a crise continua.”

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