Pressão externa não acaba com crise da Venezuela, diz Ricupero

O secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento), embaixador Rubens Ricupero, acredita que será muito difícil a comunidade internacional pressionar o governo venezuelano a resolver rapidamente a crise institucional e política que levou quase à paralisação total da indústria petrolífera do país. ?A possibilidade de influência externa é, além de relativa, difícil, porque nunca antes a Venezuela viveu tal polarização de sua sociedade?, disse o embaixador à Agência Estado, por telefone, de Genebra. De acordo com o embaixador, a divisão social, política, econômica e até racial que a Venezuela vive hoje é tão impressionante que nem mesmo o secretário geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), César Gaviria, conseguiu em mais de dois meses de negociações aproximar as diferenças que existem entre os grupos que querem derrubar o presidente Hugo Chávez e os simpatizantes deste. Por isso, disse Ricupero, "uma solução para a crise política e institucional da Venezuela terá de sair de da própria dinâmica dessas negociações e não por pressões externas". Guerra praticamente inevitávelO embaixador Rubens Ricupero acredita também que a guerra entre os EUA e o Iraque é praticamente inevitável. "Ninguém convoca reservistas para, depois, dizer que tudo não passou de em engano", disse Ricupero, ao se referir à decisão do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, de convocar reservistas para enviá-los à região do Golfo. Para o secretário geral da Unctad, esse é um sinal inconfundível de que não haverá retrocesso. "Você acha plausível que um país como os EUA, com mais de 110 mil homens no Golfo, tenha de mandar esse contingente voltar para casa, mesmo que os inspetores das Nações Unidas concluam que não existe no Iraque armas de destruição em massa?", indagou Ricupero. "Claro que não. Os sinais de guerra são claros e a idéia dos EUA é tirar Saddam Hussein por mal ou por bem do poder. De acordo com ele, o plano de uma guerra com o Iraque faz parte de uma estratégia de longo prazo para manter o domínio e o controle sobre uma região vital para a segurança energética dos EUA. Estudos do Departamento de Energia norte-americano mostram que, nos próximos 20 anos, as importações norte-americanas de oléo cru da região do Golfo devem dobrar. Apenas nos últimos 15 anos, as importações de petróleo dos EUA triplicaram, passando de 3,5 milhões de barris por dia para 11 milhões de barris por dia. Desse total, 35% vêm da América Latina e o Caribe, 15% do Canadá e 50% do Golfo.A dependência atual dos EUA de fora do hemisfério é similar à de 1973, quando o embargo de petróleo árabe provocou desabastecimento de combustíveis e quando os preços do petróleo quadruplicaram. O "Annual energy outlook", informe do Departamento de Energia dos Estados Unidos divulgado no início de dezembro, mostra que a demanda mundial de petróleo vai crescer 61% nos próximos 25 anos. Nesse período, a dependência norte-americana de cru importado vai se incrementar entre 55% e 68%. Isso significa que, de cada três barris consumidos os EUA terão de importar dois, daí a declaração do presidente George W. Bush de que a "segurança energética" é uma das prioridades de sua política externa. Ricupero acha difícil prever quais serão as conseqüências de uma nova guerra entre o Iraque e os Estados Unidos. "Guerra é o domínio da imprevisibilidade. Ninguém tem bola de cristal, daí o risco gigantesco de uma guerra", afirmou. Ele, como outros especialistas, acreditam, porém, que o barril de petróleo poderá disparar para um patamar superior a US$ 40,00.

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