Pressão faz Bush mudar posição sobre Oriente Médio

Confrontado com uma explosão de sentimentos antiamericanos no mundo árabe e com a perspectiva de alastramento do conflito entre israelenses e palestinos aos países vizinhos a Israel, o presidente George W. Bush pediu nesta quinta-feira ao primeiro-ministro Ariel Sharon que cesse a ofensiva militar na Cisjordânia e retire os tanques e tropas israelenses das cidades palestinas ocupadas nos últimos sete dias. Numa clara mudança da estratégia de envolvimento mínimo dos Estados Unidos no sangrento conflito entre israelenses e palestinos, o líder americano anunciou que enviará o secretário de Estado, Colin Powell, à região, na próxima semana, para tentar negociar a suspensão das hostilidades e a reabertura dos entendimentos para a paz, interrompidos há 18 meses."As tempestades de violência não podem continuar", disseBush, num discurso nos jardins da Casa Branca, no final damanhã. Tendo Powell ao lado, Bush conclamou os líderes árabes a ajudarem na luta contra o terrorismo palestino. Mas disse também que "Israel tem escolhas difíceis a fazer". Em princípio, ainiciativa do líder americano não impede que Sharon complete aoperação militar antes de iniciar a retirada. A pressão deWashington só começará a ser realmente sentida quando Powellchegar à região, o que provavelmente não ocorrerá antes demeados da semana que vem.Ainda assim, o gesto de Bush, feito em resposta à criticascrescentes de países aliados na Europa e no mundo árabe e sob apressão dos acontecimento, foi aplaudida por Saeb Arakat, oprincipal negociador da Autoridade Palestina. "Estamos prontosa sentar com o secretário Powell", disse ele em Jericó. Poucodepois do discurso de Bush, Sharon deu permissão para que oenviado especial americano, Anthony Zinni, se encontrasse comArafat, em Ramallah.Bush apelou aos melhores instintos de todas partes em suatentativa de retomar a iniciativa diplomática, acabar com aviolência e reabrir o caminho para a busca do entendimento entreisraelenses e palestinos.Aos árabes, ele pediu que "parem de glorificar o terror naimprensa estatal (de seus países) "e "juntem-se a nós no enviode uma mensagem clara e inequívoca aos terroristas: detonarbombas suicidas não ajuda a causa palestina; pelo contrário, osataques suicidas podem destruir a melhor e única esperança queresta para (a criação de) um Estado palestino". As pessoas quelevam a cabo os ataques suicidas "não são mártires, sãoterroristas", disse Bush. Numa referência velada ao Iraque, que segundo Washington, estaria oferecendo US$ 25 mil às famíliasdos jovens palestinos que levam a cabo os ataques suicidas, opresidente lançou uma advertência "àqueles que tentarem usar aatual crise para ampliar o conflito: fiquem fora".Primeiro presidente a defender formalmente a criação de umEstado palestino, Bush foi duro com o presidente da AutoridadePalestina, Yasser Arafat, que está confinado pelas Forças deDefesa de Israel no que resta de seu antigo quartel-general, emRamallah. "Em Oslo e em outros lugares, o presidente Arafatrenunciou ao terror como instrumento de sua causa e concordou em controlá-lo; mas não o fez", disse. "Ele perdeu oportunidades,traiu as esperanças do povo que deve liderar;(...) a situação emque (Arafat) hoje se encontra foi em grande parte criada por elemesmo".O elemento novo e importante da declaração de Bush foram oslimites que ele traçou para o governo de Israel. Apresentado porassessores como uma reafirmação de posições com algumas nuanças, a declaração do presidente americano marcou, na verdade, a retomada do tratamento mais exigente que Washington vinha dispensando a Sharon antes da onda de mortíferos ataquessuicidas iniciados na quinta-feira da semana passada na cidadede Netânia. Embora Bush tenha reiterado que "Israel tem odireito de se defender" contra ataques terroristas, eleconclamou o governo do país a fazer face "aos sérios eterríveis desafios" criados pelo conflito. "De forma aassentar os alicerces para uma paz futura, peço a Israel quesuspenda as incursões nas áreas controladas pelos palestinos ecomece a retirada das cidades que ocupou recentemente", disseBush."Israel precisa reconhecer que um Estado palestino que nãoseja um santuário para terroristas (...) precisa ser política eeconomicamente viável". O presidente americano também pediu aSharon que Israel honre os termos dos dois compromissos centrais do plano de paz negociado pelo ex-senador americano George Mitchell, no ano 2000: a paralisação das atividades decolonização nos territórios ocupados e a retirada de suas forçaspara fronteiras reconhecida e seguras, consistentes com asresoluções 242 e 338 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Essas são, também, as condições do plano de paz saudita,aprovado pela Liga Árabe, na semana passada - uma iniciativa que Bush voltou a aplaudir."Israel precisa também mostrar respeito e preocupação com adignidade dos palestinos que são e serão seus vizinhos", pediuBush. "Falo como amigo de Israel, preocupado com sua segurança a longo prazo".A declaração reflete, em parte, a conclusão a que chegou aadministração americana sobre o desfecho inevitável do conflito,se ele não for contido imediatamente. Embora vejam as incursõesisraelenses como um ato de legítima defesa, assessorespresidenciais estão convencidos de que as ações militares deIsrael não darão o resultado pretendido de parar os atentadosterroristas. Com o tempo, a continuação de tais ações, com asimpatia e o apoio dos países árabes, minaria a segurança e aprópria viabilidade do Estado judaico. A esse quadro devem-sesomar as conseqüências nefastas que o agravamento e eventualalastramento do conflito teria para os Estados Unidos.Analistas disseram hoje que a alta dos preços do petróleo éum dos ingredientes dos cálculos da Casa Branca sobre os efeitosmais imediatos da crise.Confiante na capacidade de Powell de realizar a missão quaseimpossível que lhe deu de dobrar Sharon, Bush cuidou também deproteger seu flanco direito em casa, que aplaudiu a posturainicial da Casa Branca de apoio tácito a Sharon e não aprovou acorreção de curso anunciada hoje. "À medida em que Israelrecuar, líderes palestinos responsáveis e os vizinhos árabes deIsrael precisam dar um passo à frente e mostrar ao mundo queeles estão realmente do lado da paz; a escolha e o ônus sãodeles", disse o presidente. "O mundo espera um cessar-fogoimediato, a retomada da cooperação de segurança comIsrael contra o terrorismo e uma ordem imediata de repressão àsredes terroristas". Bush concluiu dizendo que espera ?umamelhor liderança e espero resultados".

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