'Pressão interna motivou decisão turca'

ENTREVISTA

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2011 | 00h00

George Harris, ex-chefe do escritório de inteligência e análise do Departamento de Estado dos EUA

Sem um pedido de desculpas de Israel pela tragédia da flotilha de Gaza, o governo turco - em sintonia com sua opinião pública - decidiu expulsar o embaixador israelense. "A crise tem a ver com o orgulho nacional: turcos foram mortos e alguma coisa tinha de ser feita", diz George Harris, ex-diretor do escritório de inteligência e análise do Departamento de Estado dos EUA, especialista em Turquia. A seguir, trechos da entrevista ao Estado.

Como o sr. vê a decisão da Turquia de expulsar o embaixador de Israel?

Diante da situação doméstica na Turquia, o governo do premiê Recep Tayyip Erdogan teve de ir até o fim com a exigência de desculpas formais de Israel pela morte dos nove turcos. A razão da expulsão do embaixador israelense deve ser vista, sobretudo, do ponto de vista doméstico: a opinião pública e o governo na Turquia não tolerariam a imagem de um país "fraco".

Muitos analistas estão vendo nessa decisão um novo sinal de uma mudança de orientação diplomática de Ancara, mais em direção ao Oriente e menos ao Ocidente. O sr. concorda?

A maioria dos turcos não se preocupa realmente com isso. A crise com Israel tem a ver com o orgulho nacional da Turquia. Turcos foram mortos e alguma coisa tinha de ser feita a respeito disso. Se os israelenses tivessem pedido desculpas, o governo de Ancara não teria problemas em manter as coisas no nível em que estavam.

A relação entre Israel e Turquia tem sido um eixo estratégico no Oriente Médio há décadas. O crescente distanciamento mudará o jogo de poder na região?

Penso que não. Turcos e israelenses já viveram outras crises por causa de divergências sobre a questão palestina e isso não mudou o panorama estratégico do Oriente Médio. Não vejo por que, desta vez, será diferente. As relações foram rebaixadas ao nível de segundo-secretário e a parceria militar será afetada. Mas não há razões para prever uma mudança no equilíbrio estratégico.

Vimos Erdogan adotar um tom duro com o presidente Bashar Assad e sabemos que a violência na Síria também preocupa muito Israel. Como os problemas de Damasco entram nessa equação regional?

A Turquia está irritada com Assad porque a violência na Síria criou um fluxo de refugiados rumo ao território turco. Ancara vinha adotando uma política de "problema zero" com seus vizinhos, mas a entrada de civis em massa complica as coisas. Os turcos sentem-se também pressionados a criticar Bashar Assad, como vêm fazendo outros países, embora Erdogan não tenha pedido a saída do presidente.

Erdogan é uma figura cada vez mais popular no mundo islâmico. Isso significa que Ancara terá um papel crescente de liderança do bloco muçulmano?

Sempre acreditei que a Turquia não tem grande capacidade de liderança no mundo árabe. Os árabes têm sua própria agenda. Gostam do apoio turco, mas não que a Turquia se imponha como líder.

O Egito seria um dos países que mais resistem ao protagonismo turco?

Sobretudo o Egito. Eles não querem respostas da Turquia para seus problemas e muito menos o tipo de relação com o Ocidente que a Turquia tem.

No mesmo dia em que a Turquia expulsou o embaixador de Israel, ela anunciou que deve aceitar um novo radar da Otan em seu território para proteger a Europa do Irã. O sr. vê uma relação entre as duas decisões?

Ainda é cedo para estabelecer uma relação direta entre as duas medidas anunciadas ontem e não escutei nada nesse sentido das autoridades turcas. Mas pode ser que sim.

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