Guilherme Conte/ESTADÃO
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Pressão por lei mais dura causa incerteza entre refugiados

O casal Nevin e Mohamed tem permissão para ficar na Alemanha apenas por um ano e agora teme a expulsão

Guilherme Conte, especial para O Estado / Berlim, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2016 | 05h00

BERLIM - “Quando a guerra chegou na porta da minha casa na Síria, fugi com meu filho para a Jordânia”, afirma Nevin Azak. Ela lembra que Auday, hoje com 5 anos, sofreu muito com a ausência do pai, que havia ficado na Síria, até que, após ser sequestrado e ameaçado por homens armados, foi atrás dela e do filho.

Os três anos que passaram na Jordânia, entre 2012 e 2015, foram marcados por dificuldades financeiras e de adaptação. A situação na Síria, em franca deterioração, impediu a volta ao país. A família resistiu até que, em agosto de 2015, o governo alemão anunciou a abertura de fronteiras para refugiados sírios. Poucas semanas depois, no início de outubro, eles enfrentaram em um barco a perigosa travessia do Mediterrâneo, entre a Turquia e a Grécia. Seguiram pela rota dos Bálcãs – Macedônia, Sérvia, Croácia, Eslovênia, Áustria – até que, em 26 de outubro de 2015, chegaram ao solo alemão. 

Começava ali a vida como refugiados na sociedade alemã. “O começo foi muito difícil”, conta Nevin. “As condições que nos deram eram muito ruins.” Ela relata problemas como abrigos sujos, instalações inadequadas, recusa de atendimento médico, além do desprezo e descaso de funcionários designados para lidar com os refugiados. “Existe muita gente ruim trabalhando nessas áreas. Somos tratados muitas vezes como prisioneiros”, afirma. “É uma minoria, mas isso nos traz muitos problemas. E nós ficamos com medo de reclamar, ninguém quer correr o risco de ficar marcado.”

A hostilidade a refugiados não se restringe aos que trabalham com eles, mas também está presente em uma parcela da sociedade. Ela tende sempre a se agravar quando ocorre um ataque terrorista por um fundamentalista islâmico. “É lógico que a gente sente uma diferença no modo como somos tratados no dia a dia”, afirma. 

“Esses ataques deixam as pessoas com medo e eu entendo isso. Mas elas precisam entender que o Islã não é sobre isso, que a maioria de nós não é assim.” Por outro lado, ela destaca também as reações positivas, como a de um berlinense que, por meio de um site, cedeu por um mês seu apartamento a eles. “Ele empresta a casa para refugiados quando viaja. Nós nem chegamos a nos conhecer.”

Avanço. A situação da família melhorou desde que se mudaram para o abrigo onde estão, no bairro de Marzahn. Mas a apreensão domina o cotidiano, já que eles receberam permissão de permanecer por apenas um ano na Alemanha. A família pediu uma revisão do processo de asilo e aguarda o resultado. “É difícil viver sem saber o que vai acontecer, como vai ser amanhã, se as regras vão mudar”, diz Nevin. 

“Essa é uma das coisas mais difíceis para nós, refugiados, muitos se sentem assim.” Essa incerteza sobre o futuro fica ainda mais forte em momentos de ânimos exaltados na sociedade, como após o ataque de segunda-feira. “Mas, mesmo com todos os problemas, agradeço muito à Alemanha por abrir a porta e me receber. Nada se compara a viver no meio de uma guerra.”

Mohamed Atmed faz coro à mulher e espera que a situação dos refugiados que querem se integrar à vida alemã fique mais estável. “Não queremos depender da ajuda de ninguém”, afirma. “Eu só quero trabalhar, poder pagar por minhas coisas e viver minha vida em liberdade.”

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