Pressão por reformas deve aumentar com Ibas e Bric no Conselho de Segurança, dizem analistas

Grupos dos quais o Brasil faz parte têm integrantes que almejam cadeira permanente após uma eventual reforma.

Alessandra Corrêa, BBC

18 de outubro de 2010 | 04h42

Novos membros do conselho foram eleitos na semana passada

A presença inédita de todos os países membros dos grupos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) e Ibas (Índia, Brasil e África do Sul) no Conselho de Segurança das Nações Unidas, a partir de janeiro de 2011, deverá aumentar a pressão por reformas no órgão.

Essa pressão, porém, deverá ocorrer mais no âmbito do Ibas do que entre os países do Bric, afirmam especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

Na semana passada, após África do Sul e Índia terem sido eleitas para vagas não-permanentes, o Ibas divulgou um comunicado reiterando a "necessidade urgente de ampliação do Conselho de Segurança".

"Tanto na categoria de membros permanentes como não-permanentes, a fim de permitir maior participação dos países em desenvolvimento", diz o texto.

Entre os países do Bric, porém, a BBC Brasil apurou que não houve ainda diálogo sobre uma possível cooperação dos quatro países dentro do órgão.

Ampliação

O Brasil, que integra tanto o Ibas quanto o Bric, ocupa desde janeiro deste ano uma das dez vagas rotativas do conselho - que são válidas por dois anos - e é candidato declarado a um assento permanente em uma eventual ampliação do órgão.

China e Rússia já são membros permanentes, ao lado de Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, e têm direito a veto nas votações.

África do Sul e Índia - países eleitos na semana passada ao lado de Alemanha, Portugal e Colômbia - também têm a ambição de conquistar vagas permanentes no caso de reforma do Conselho.

Segundo especialistas, é exatamente essa diferença no status dentro do Conselho que torna mais fácil uma atuação conjunta do Ibas, grupo cujos três integrantes são países em desenvolvimento com vagas não-permanentes no órgão.

"É preciso considerar que Rússia e China são membros permanentes, o que estabelece uma certa diferença entre os quatro países do Bric. Diferença que não é pequena", diz uma fonte diplomática.

"Embora tenham posições às vezes divergentes dos outros três membros permanentes, há uma dinâmica própria desses cinco países (membros permanentes) que afeta qualquer dinâmica do Bric."

Essa dinâmica entre os cinco membros permanentes envolve concessões em determinados temas para obter apoio em outros e pode interferir em tentativas do Bric de atuar conjuntamente.

Hegemonia

Segundo especialistas, os quatro membros do Bric têm algumas diretrizes de política externa similares, o que deverá levar a consenso em determinados temas dentro do Conselho, mas apesar disso há muitas diferenças entre os países.

"O Bric não é e nunca vai ser um bloco hegemônico", diz o diretor do programa de estudos de América Latina da Universidade Johns Hopkins, Riordan Roett.

Roett cita o fato de estarem localizados em partes "muito diferentes" do mundo e diz que o Brasil, por exemplo, não teria motivos para se envolver em questões internas, como as disputas entre a Índia e o Paquistão.

Especialistas afirmam que os membros do Bric poderão obter apoio mútuo em questões pontuais, mas essa colaboração deve ocorrer caso a caso.

"Todos têm prioridades diferentes", afirma Roett. "A colaboração dentro do Conselho vai depender do tema."

Segundo Roett, a cooperação entre os países do Bric é mais fácil em fóruns como o G20 (grupo das principais economias avançadas e em desenvolvimento), em questões como comércio internacional ou pressões para reformar o FMI.

Vaga permanente

Roett afirma que, apesar da nova configuração do Conselho de Segurança poder representar maior pressão por reforma, uma ampliação deve envolver negociações "muito difíceis" por parte dos cinco membros permanentes.

Segundo Bruce Jones, especialista em ONU do Instituto Brookings, em Washington, a atuação brasileira no caso da última rodada de sanções contra o Irã (aprovada pelo Conselho apesar do voto contrário do Brasil) acabou reforçando a percepção dos "perigos" de uma reforma, pelo menos na ótica dos Estados Unidos.

"Todos sabem que se houver reforma, o Brasil é parte dessa história", diz.

"A posição do Brasil em relação ao Irã feriu gravemente as possibilidades de conquistar uma vaga permanente no Conselho de Segurança, pelo menos na perspectiva de Washington", afirma Jones.

Laboratório

Apesar de afirmarem ser difícil uma ampliação do Conselho de Segurança no curto prazo, especialistas dizem que a nova configuração do órgão, a partir de janeiro, será observada atentamente, por reunir um grupo muito importante de países.

"O Conselho de Segurança vai ser observado como um laboratório de como poderia funcionar caso fosse ampliado", diz uma fonte diplomática.

Jones diz que Brasil e Índia, como integrantes do Bric, têm de usar este ano em que estarão juntos no Conselho para mostrar que podem contribuir.

"E essa contribuição não significa a mesma coisa que votar contra os Estados Unidos", afirma.

"Devem buscar alguma grande questão para a qual possam fazer uma contribuição importante. Pode ser qualquer tema, Mianmar, Iraque, Sudão. O importante é que encontrem uma questão relevante e mostrem que estão preparados para assumir um papel de destaque."BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.