Pressão sobre o Iraque preocupa aliados dos EUA

Enquanto aumentam nos Estados Unidos rumores sobre um ataque contra o Iraque, cresce a preocupação, mesmo entre aliados americanos, em relação às implicações de uma segunda guerra contra Saddam Hussein. O presidente dos EUA, George W. Bush, tentou na quarta-feira conter especulações sobre um confronto militar, mas ele irá provavelmente encontrar resistência firme de amigos estrangeiros, se decidir combater o homem que ele descreve como uma ?ameaça à paz mundial?. Hoje, o vice-ministro do Exterior russo, Vyacheslav Trubnikov, considerou "inaceitável" a idéia de um ataque ao Iraque, alegando que seu país não concorda com a idéia de que Saddam deve ser afastado. O Ministério do Exterior russo confirmou na segunda-feira que o país está discutindo com o Iraque sobre um acordo comercial de 10 anos, envolvendo ampla cooperação. Mesmo aliados determinados estão expressando perturbação com a retórica de Bush, afirmando não estarem convencidos de que o líder iraquiano apresenta um perigo iminente. O chanceler alemão, Gerhard Schroeder, tem advertido contra uma invasão e adianta que não enviará tropas para o que chama de uma "aventura" no Iraque. O ministro da Defesa canadense, John McCallum, afirmou que é "muito improvável" que o Canadá participe, a menos que Bush apresente fortes evidências de que Saddam é uma ameaça. Tanto a Alemanha quanto o Canadá enviaram soldados para lutar no Afeganistão. Outros aliados europeus não têm assumido compromissos, enquanto Estados do Oriente Médio, que deram ajuda crucial na Guerra do Golfo, têm se oposto ou manifestado sérias dúvidas quando a uma guerra, agora, contra Saddam. Críticos temem que um ataque preventivo poderia fazer evaporar o apoio mundial dado à luta antiterrorismo liderada pelos EUA e desestabilizar ainda mais o Oriente Médio. Alguns argumentam que seria uma temeridade começar uma nova guerra na região, enquanto persiste o conflito israelense-palestino. Mesmo na Grã-Bretanha, cujo provável apoio seria chave para qualquer plano dos EUA, uma recente pesquisa mostrou que metade dos entrevistados não querem que suas Forças Armadas participem de uma ofensiva contra o Iraque. O primeiro-ministro Tony Blair tem falado freqüentemente sobre a ameaça Saddam e, apesar de insistir que nenhuma decisão foi ainda tomada, é visto como o maior aliado de Bush em qualquer tentativa de derrubar o líder iraquiano. O presidente americano reiterou na quarta-feira que a queda de Saddam é do interesse do mundo, mas disse ser "um homem paciente", sem pressa para tomar uma decisão final. Bush acusa o Iraque de desenvolver armas de destruição em massa e afirma que Saddam não hesitará em usá-las. Sua administração tem intensificado advertências sobre a questão. A conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, disse à BBC de Londres que existe "uma poderosa razão moral para uma mudança de regime", e o vice-presidente Dick Cheney declarou: "Temos de levar a batalha para o campo do inimigo". O secretário do Exterior britânico, Jack Straw, reiterou hoje que uma ação militar ainda é uma opção, mas que a política britânica é de pressionar pelo retorno dos inspetores de armas ao Iraque. Blair, que diz ser prematuro decidir se enviará tropas num eventual ataque dos EUA, enfrenta resistências públicas e uma forte oposição dentro de seu próprio Partido Trabalhista quanto a um envolvimento. Em outras partes da Europa, o apoio é ainda mais morno. A Itália permitiria o uso de seu espaço aéreo mas só se comprometeria com tropas se obtiver provas de que Saddam está produzindo armas nucleares, adiantou o ministro da Defesa italiano, Antonio Martino. A ministra do Exterior espanhol, Ana Palacio, negou-se a responder a uma pergunta sobre o Iraque no mês passado, mas afirmou que qualquer ação tem de ter o apoio das Nações Unidas. O presidente francês, Jacques Chirac, disse que um ataque só seria justificado se respaldado pelo Conselho de Segurança da ONU, e advertiu ao Iraque que deveria receber inspetores de armas. Uma oposição à invasão é forte no Oriente Médio, onde o apoio dos países árabes foi fundamental na Guerra do Golfo de 1991. O senador americano Mike DeWine relatou, após um giro pela região, que os líderes do Egito, Síria e Líbano "têm se expressado com firmeza contra uma ação nossa no Iraque". A Jordânia, apesar de ser um aliado próximo dos americanos, tem fortes laços comerciais com o Iraque e se opõe a uma guerra. O rei Abdullah II tem defendido um diálogo entre as Nações Unidas e Bagdá. O ministro do Exterior da Arábia Saudita, príncipe Saud al-Faisal, afirmou que seu país não será usado como base para um ataque e exortou uma solução diplomática. Na Turquia, um membro da Otan, líderes têm se oposto publicamente à guerra, mas o país precisa desesperadamente de empréstimos para se recuperar de uma profunda crise financeira e provavelmente não teria escolha senão apoiar aos EUA. Israel tem expressado apoio a um ataque contra o Iraque, e um assessor do primeiro-ministro Ariel Sharon garantiu que existem evidências de que Saddam está acelerando esforços para produzir armas químicas e biológicas. O Estado judeu, que foi atingido por 39 mísseis Scud iraquianos durante a Guerra do Golfo, está se preparando para ser alvejado novamente caso haja uma guerra, e afirma que responderá a contento, insinuando que poderia usar até armas nucleares. Na Malásia, o primeiro-ministro Mahatir Mohammad, cada vez mais considerado uma voz de moderação islâmica, advertiu que uma guerra dos EUA contra o Iraque iria alimentar o extremismo. "Iria apenas provocar um grande ódio", avisou ele. "Certamente, seria mais difícil para nós mostrar a face moderada do Islã".

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