Pressionada a frear plantio e saída de drogas, Colômbia vê crescer consumo

Presidente se reelegeu usando como trunfo um pacto que prevê a saída da guerrilha do narcotráfico e a consequente queda na produção

Denise Chrispim Marin / Enviada Especial, BOGOTÁ

21 de junho de 2014 | 17h57

BOGOTÁ - Frear a produção de drogas na Colômbia é um dos principais desafios do presidente Juan Manuel Santos, reeleito no dia 15. Mas, enquanto os cultivos ilegais têm diminuído no país, o consumo de entorpecentes entre a população aumenta. O “basuco”, um tipo de crack, é a substância mais popular entre os viciados – e a mais destrutiva.

Enquanto a produção de coca e derivados cai no país, o consumo de entorpecentes aumenta, afirma o Observatório de Drogas da Colômbia.

Segundo o mais recente levantamento da ONU, entre 2011 e 2012, a produção de coca caiu 25% no país. Em 2011, o cultivo ilegal ocupava 64 mil hectares, no ano seguinte, 48 mil – e a produção de cocaína caiu de 345 para 309 toneladas. De acordo com um estudo do Escritório de Política Nacional de Controle de Drogas dos Estados Unidos, a produção de cocaína caiu para 175 toneladas em 2013.

A disputa eleitoral de Santos com o opositor Óscar Iván Zuluaga, afilhado político do ex-presidente Álvaro Uribe, centrou-se nas negociações de paz com as guerrilhas, ligadas ao narcotráfico. As campanhas em um país pressionado pela comunidade internacional a bloquear a saída e combater a produção de drogas, porém, não tocaram no crescente consumo interno.

Dados do estudo da Universidade dos Andes, mostram que, entre 1996 e 2008, a parcela de pessoas entre 12 e 65 anos que admitem usar drogas passou de 5,1% para 8,7%.

Viciados. Ao lado de um quartel do Exército e a menos de um quilômetro do Palácio de Nariño, sede do governo da Colômbia, está a mais violenta “cracolândia” de Bogotá. Chama-se Bronx e fica na Carrera 15b, entre as Ruas 9.ª e 10.ª. Cerca de 2 mil moradores de rua viciados no basuco e membros de três gangues de tráfico de drogas e de armas se concentram no local.

A Carrera 15b forma dois ângulos de 45 graus. Os acessos são fechados com grades removíveis. Quem se aproxima logo é questionado por “seguranças” das gangues, que disputam o poder e se financiam com o tráfico de drogas, de armas e de pessoas. A cada mês, a Polícia Nacional faz uma ou duas batidas para apreender armas e drogas. Seus frequentadores espalham-se pela cidade, mas voltam. Do quartel, rapazes em serviço militar e policiais evitam sair de seu campo seguro. Mesmo armados com fuzis e pistolas, protegidos com coletes à prova de bala, temem ser atacados.

Os líderes das três gangues do Bronx estão presos desde 2013. Mas Óscar Alcantara (conhecido como “Mosco”), César González (“Homero”) e Rigoberto Árias (“Rigo”) comandam, da cadeia, o tráfico de drogas e armas.

Giovani Moreno, de 38 anos, é empregado de uma dessas gangues. Diz ser “zelador”. Qualquer aproximação de estranhos é barrada por ele, no acesso pela Rua 10.ª. Moreno vive desde os 8 anos nas ruas. Primeiro, no Cartucho, ponto de consumo de drogas que deu lugar à Praça Terceiro Milênio em 2006 e cuja destruição aumentou a concentração no Bronx. “Aqui é como um bairro qualquer”, afirmou, acrescentando que vive em um “hotel”.

O sem-teto Shirlei de Jesús, de 38 anos, parou no Bronx depois da destruição do Cartucho. Ele é morador de rua desde que fugiu de casa, aos 8 anos. Coleta papelão, como meio de obter os 2 mil pesos (R$2,40) que um papelote de basuco vale.

Segundo a psicóloga Mírian Cantor, da Secretaria de Integração Social de Bogotá, no Bronx também há gente que não se envolve com as drogas e nem com as gangues. 

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No Bronx colombiano, crime deixou de ser coibido

Especialistas dizem que corrupção policial e militar é comum no reduto de viciados de Bogotá

Denise Chrispim Marin / Enviada Especial, BOGOTÁ

21 de junho de 2014 | 18h36

BOGOTÁ - A situação do Bronx de Bogotá não é diferente do que ocorre entre as Ruas 12.ª e 13.º de Cali e outras “basucolândias” da Colômbia. A prefeitura da capital está ciente dos crimes cometidos nessa região do centro – tráfico de pessoas para a prostituição, venda de armas e de drogas e assassinatos. Também sabe da “vista grossa” de policias e militares vizinhos ao Bronx.

A corrupção das autoridades e as ameaças das gangues correm soltas, segundo especialistas. Hermán Suárez, que se recupera do vício no Centro de Acolhimento Javier Molina, em Bogotá, é testemunha de crimes contra quem não pagava ou não respeitava as regras das gangues da “basucolândia” de Cali. “Os seguranças pegavam o cara, o matavam na frente de todo mundo e o desmembravam com machados. Depois, metiam os pedaços em sacos de lixo e os jogavam fora”, afirmou, enquanto entalhava madeira. “Essa era a minha ‘Sessão da Tarde’. Não é diferente do que acontece no Bronx.”

O centro Javier Molina é um dos instrumentos de recuperação de sem-teto da Prefeitura de Bogotá. Há outros três em atividade, segundo Mírian Cantor, psicóloga da Secretaria de Integração Social. Perto do Bronx, há uma unidade do Centro de Assistência Médica aos Dependentes de Droga e um refeitório gratuito.

“Aqui, nosso objetivo é fazer com que 30% dos sem-teto deixem o vício e as ruas e os 70% restantes não causem danos”, afirmou a psicóloga Marcela Calle, colega de Mírian.

Cerca de 300 sem-teto buscam o Javier Molina durante o dia. Outros 300, de noite. Todos podem sair dali quando querem. Na chegada, eles se registram, guardam seus pertences e recebem um jogo de roupas e itens de limpeza pessoal.

Os sem-teto recebem três refeições e dois lanches por dia, têm uma biblioteca, uma quadra de esportes, uma sala de recreação e outra de televisão, uma oficina de carpintaria e dois dormitórios coletivos. Mulheres e transexuais dormem em um, homens, em outro.

No fim da tarde, a busca pela droga torna-se mais intensa. Boa parte dos viciados passa a noite nas ruas para fumar basuco – até 60 papelotes, segundo Marcela. Alguns voltam no dia seguinte ao centro de acolhimento. Alguns preferem não sair.

“Venho para cá para ficar ocupado e não pensar em basuco”, disse Alexander Siabato, de 40 anos, ex-funcionário de controle de qualidade que hoje entalha madeira na oficina do centro Javier Molina.

Adolfo López, de 45 anos, aprendeu a fazer vasos com embalagens de isopor para comida durante os 4 anos e 8 meses de prisão por tráfico de drogas. Era “mula”: levava cocaína, maconha e basuco de Santa Marta para Barranquilla. Provou drogas e gostou. Ainda fuma maconha regularmente e poderá sair em breve do centro de acolhimento.

Com uma versão simplificada da Bíblia debaixo do braço, Juan Carlos, de 51 anos, não quis dar seu sobrenome. Disse ter passado dois anos nas ruas, consumindo cocaína e aguardente. Como mencionou ter vivido no Cartucho, área que antecedeu o Bronx, destruído pela prefeitura em 2006, certamente viveu mais tempo como sem-teto. “Quando derrubaram as paredes do Cartucho, pedaços de corpos foram encontrados entre os tijolos.”

Miguel Ángel, de 41 anos, passou 25 anos nas ruas e hoje faz velas artesanais como internado no centro de acolhimento. Ele, porém, foi vítima direta do conflito entre as guerrilhas e o governo colombiano.Há sete anos, em uma tentativa de deixar o vício, mudou-se com a mulher, grávida, e o cunhado adolescente para uma chácara.

Quando um grupo paramilitar passou a pressionar o jovem para integrar suas linhas, Miguel Ángel o levou a outra cidade. Durante o trajeto, os paramilitares invadiram a chácara e mataram sua mulher. “Hoje eu só quero ter minha própria oficina.” 

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