Amr Abdallah Dalsh/Reuters
Amr Abdallah Dalsh/Reuters

Pressionada, junta promete acelerar a entrega de poder aos civis no Egito

Apesar de concessões feitas por militares, manifestantes recusam-se a encerrar protestos na Praça Tahrir

Lourival Sant’Anna, enviado especial

22 de novembro de 2011 | 22h00

CAIRO - Mais de 100 mil manifestantes ocupavam nesta terça-feira, 22, a Praça Tahrir, no centro do Cairo, quando o marechal Mohamed Tantawi, chefe da junta militar que governa o país, anunciou a realização de eleição presidencial em junho e acenou com um referendo para decidir se as Forças Armadas devem deixar o poder imediatamente. Em resposta, a multidão, no quarto dia de confrontos com a polícia que deixaram mais de 30 mortos, gritou um sonoro "fora".

 

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"Desde o primeiro dia, dissemos que realizaríamos eleições e transferiríamos o poder para um governo civil", lembrou Tantawi, que durante duas décadas foi ministro da Defesa do ex-ditador Hosni Mubarak, derrubado em fevereiro após 18 dias de protestos liderados por um movimento semelhante ao que ocupa o centro do Cairo e de outras cidades egípcias desde o fim de semana.

 

"As Forças Armadas não pretendem governar, mas pôr o interesse do país acima de todas as considerações. Estão prontas para transferir imediatamente a responsabilidade e voltar para sua missão de proteger a pátria, se assim a nação quiser, mediante um referendo popular, se for necessário."

 

Até aqui, pelo calendário apresentado pelos militares, o Parlamento eleito em março (em seis turnos, a partir de segunda-feira) apontaria uma Assembleia Constituinte, que teria seis meses para redigir uma Constituição, que seria submetida a referendo. Só depois haveria eleição presidencial - ou seja, provavelmente em 2013, cerca de dois anos depois da queda de Mubarak.

 

Privilégios militares

 

Nesse meio tempo, acusam os manifestantes, os militares, instalados no poder desde a ascensão do coronel Gamal Abdel Nasser, em 1952, consolidariam suas posições no regime. Dentre as garantias pretendidas pela junta na nova Constituição, segundo um esboço publicado na imprensa, estaria a não ingerência do Executivo e do Parlamento no orçamento militar.

 

Tantawi anunciou também que o Conselho Supremo das Forças Armadas, por ele chefiado, aceitou o pedido de renúncia apresentado na segunda-feira pelo gabinete civil, sob a tutela dos militares. A demissão coletiva foi uma reação à violenta repressão aos protestos na Praça Tahrir e nas imediações do Ministério do Interior.

 

O pronunciamento foi feito após uma reunião de cinco horas da junta militar com a Irmandade Muçulmana e com outros grupos islâmicos. Os partidos seculares, chamados de "liberais", negaram-se a negociar com a junta, exigindo a saída imediata dos militares do poder. Na reunião, a junta disse ter aceitado a formação de um "gabinete de salvação nacional".

 

A onda de protestos começou na sexta-feira, com uma manifestação liderada pela Irmandade Muçulmana. O grupo islâmico, favorito nas eleições parlamentares, teme que os militares bloqueiem artigos que tornem a religião a base da nova Carta. Além de protestar contra a junta militar, os manifestantes criticam os partidos, cúmplices da situação para muitos.

 

No sábado, depois que uma dúzia de barracas da Irmandade Muçulmana foi queimada pela polícia na Praça Tahrir, milhares de jovens manifestantes seculares, que lideraram a revolução de janeiro e fevereiro contra Mubarak, ocuparam o centro do Cairo, enfrentando a polícia e o Exército, que tentaram sem sucesso dispersá-los.

 

Renúncia

 

A reivindicação passou a ser a imediata saída dos militares. A Irmandade Muçulmana retirou-se das ruas, preocupada com a possibilidade de cancelamento das eleições, das quais o grupo, o mais bem organizado do país, deve sair amplamente vitorioso. Já grupos salafistas, de islâmicos mais radicais, uniram-se aos jovens seculares. 

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