Jorge Saenz / AP
Mãe e filho passam por muro coberto por cartazes de Evo em El Alto, onde as condições de vida melhoraram no governo do presidente boliviano Jorge Saenz / AP

Evo Morales tenta 4º mandato na Bolívia

Há quase 14 anos no poder, presidente boliviano desafia Constituição e a decisão de um referendo para disputar mais uma eleição

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2019 | 06h00
Atualizado 20 de outubro de 2019 | 15h32

A Bolívia realiza neste domingo, 20, eleições gerais para presidente e vice. As urnas foram abertas por volta das 8h (9h em Brasília) e a votação deve ser finalizada por volta das 16h. Até o momento, não houve registro de incidentes, segundo as autoridades.

Evo Morales tenta pela quarta vez eleger-se presidente em um cenário mais desfavorável que em suas vitórias anteriores, em 2005, 2009 e 2014. O boom das commodities do início do século 21 chegou ao fim no começo de seu atual mandato e o cenário geopolítico sul-americano é diferente dos anos em que governos de esquerda eram maioria no continente.

A oposição acusa Evo de usar a máquina do Estado a seu favor e encurtar a campanha para dificultar as chances de rivais de seu partido, o Movimento ao Socialismo, na Assembleia Nacional. “Evo tem ido contra as próprias promessas e usado os recursos que pode para tentar superar a oposição”, disse ao Estado o cientista política Roberto Laserna. 

A seu favor, Evo tem os bons números da economia e os indicadores sociais. O país cresceu 5,1%, no ano passado, e a projeção do Fundo Monetário Internacional é de uma expansão da economia de 3,9% este ano. A pobreza caiu de 33% para 15% da população desde que ele assumiu, em 2006. 

Para Entender

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O problema é que o motor desse crescimento, a exportação de gás natural, passará por mudanças. A partir do ano que vem, o contrato entre Bolívia e Brasil terá de ser renegociado e a Petrobrás deu sinais de que pretende importar menos combustível do país vizinho. “Na última eleição, estávamos no auge da bonança econômica. Mas agora o contrato de gás com o Brasil está chegando ao fim e precisamos buscar outras soluções para obter recursos”, afirmou Laserna. Em 2006, Evo mandou tropas invadirem uma instalação da Petrobrás para anunciar a chamada nacionalização da exploração do gás e do petróleo no país. 

Em paralelo, o governo do presidente Jair Bolsonaro já deu indicações de que pretende acabar com o monopólio da Petrobrás na distribuição de gás no Brasil, o que, em tese, abriria o mercado para outras empresas. Com o objetivo de manter boas relações com um vizinho que ocupa o outro lado do espectro ideológico, Evo esteve na posse de Bolsonaro, em janeiro, ao contrário do colega bolivariano Nicolás Maduro. 

Na ocasião, o boliviano destacou que as relações bilaterais estão acima de divergências políticas. Duas semanas depois, ele autorizou a extradição do italiano Cesare Battisti para a Itália, num movimento que agradou ao governo brasileiro. O italiano havia fugido do Brasil.

“Evo contava com o apoio automático de aliados como Lula, Chávez e os Kirchners. Agora, Evo se relaciona com pessoas que lhe pedem algo em troca ou o pressionam de alguma maneira”, acrescentou o cientista político. “Então, é um contexto desfavorável para ele e seu grupo.”

Neste domingo, depois de votar em Chapare (departamento de Cochabamba), Evo expressou confiança e otimismo. "Acabo de votar, como me corresponde, e aproveito esta oportunidade para convocar o povo boliviano a participar nesta festa democrática", disse.

Problemas internos

No cenário doméstico, Evo enfrenta um momento ruim. Os incêndios na Amazônia boliviana, em agosto, provocaram críticas de ambientalistas na Bolívia, de lideranças indígenas e de líderes da oposição. 

O presidente se apressou em tomar a frente do combate aos incêndios, aceitando ajuda internacional e envolvendo-se pessoalmente na operação para apagar as chamas. Ambientalistas, no entanto, lembraram que, um mês antes, o presidente ampliou de 5 para 20 hectares o limite máximo para um agricultor limpar suas terras com queimadas – uma prática conhecida como “chaqueo”. 

“O governo reagiu tarde e mal, levou quase duas semanas e não tinha um plano estratégico. Evo Morales colocou sua campanha em primeiro lugar, em vez de governar a Bolívia”, queixou-se Carlos Mesa, maior rival de Morales na corrida presidencial de hoje.

Para Entender

Carlos Mesa, um velho conhecido da política boliviana

Historiador e jornalista de 66 anos era um ‘outsider’ no cenário político, mas se viu no olho do furacão em momentos determinantes da história do país

Jornalista e ex-negociador do impasse marítimo entre Chile e Bolívia, Mesa tem a difícil missão de unificar a oposição boliviana e romper a tradicional divisão entre a elite da “meia-lua” – províncias orientais que fazem fronteira com o Brasil e controlam a economia – e os Andes, onde vive a população indígena, base de apoio do presidente. 

Ao votar neste domingo, Mesa reiterou seus temores. "Não confio na transparência do processo, o Tribunal Supremo Eleitoral demonstrou que é um braço operacional do governo, nossa desconfiança é muito alta", afirmou à imprensa depois depositar seu voto em um bairro da zona sul de La Paz.

Eleição difícil

Evo venceu com facilidade as duas últimas eleições, em 2009 e 2014. As pesquisas sugerem que, desta vez, será mais difícil. Segundo o último levantamento sobre a intenção dos eleitores, Evo teria 32% dos votos. O ex-presidente Mesa teria 27%, o que levaria a um segundo turno inédito desde que o presidente chegou ao poder. O levantamento é da Universidade Nacional San Andrés e da Fundação Jubileo. A maioria das pesquisas, entretanto, ainda considera provável uma vitória em primeiro turno. 

Se Evo não garantir 50% dos votos válidos, ou 40% dos votos com uma vantagem de 10 pontos porcentuais sobre o segundo colocado, terá de encarar um segundo turno em 15 de dezembro. Neste cenário, os partidos de oposição estariam unidos contra ele. Em relação aos meios de comunicação, Evo adotou leis que pressionaram a imprensa financeiramente, com ameaça de multas de aplicação subjetiva, em vez de adotar uma censura explícita.

Economia

Evo adotou uma abordagem diferente da estratégia de seu aliado Hugo Chávez no manejo da economia. A Bolívia evitou a ocupação de terras em larga escala e nacionalizou apenas 33 empresas – a maioria das quais já havia pertencido ao Estado antes de ser vendida por governos anteriores. Bilhões de dólares foram investidos em projetos de infraestrutura que permitiram erguer novas escolas, transporte de massa e mais de 5 mil quilômetros de novas estradas. 

O progresso é talvez mais visível em La Paz e El Alto, cidades com uma população conjunta de 2,3 milhões. É ali que o avanço econômico deu novas perspectivas à maioria indígena da Bolívia. Em El Alto, localizada a mais de 4 mil metros de altitude, bairros inteiros foram construídos por uma classe ascendente de empreendedores indígenas ou de origem mista. Segundo eles, Evo quebrou as barreiras para os não brancos, com parcerias que lhes permitiram criar as próprias empresas.

A oposição, no entanto, vê um Evo aferrado ao poder, depois de recorrer à Justiça, em 2017, para disputar um novo mandato, mesmo após ter perdido esse direito em um referendo, em 2016. Ele rejeita as críticas. “Já me chamaram de ditador”, disse. “Mas o que meus opositores não conseguem aceitar é que um indígena seja presidente.”

O que está em jogo

O voto é obrigatório na Bolívia e mais de 7,3 milhões de bolivianos foram convocados para votar nas eleições de hoje em algum dos nove partidos que disputam um mandato de cinco anos. 

Segundo a lei eleitoral da Bolívia, será considerado ganhador em primeiro turno o candidato que obtiver 50% dos votos ou 40% com 10 pontos porcentuais de vantagem. Se nenhum dos candidatos alcançar esses números, será realizado um segundo turno em um prazo de 60 dias, isto é, em 15 de dezembro.

Além de presidente e vice-presidente, serão eleitos 130 deputados, 36 senadores e 9 representantes “supraestatais” – um para cada região do país – que integrarão a Assembleia Legislativa, atualmente controlada em dois terços pelo Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Evo Morales. / COM WASHINGTON POST e AFP

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    Reeleição de Evo depende da geração que cresceu sob seu governo

    Um terço do eleitorado tem 30 anos ou menos e parte indica que não pretende votar no atual mandatário

    Redação, O Estado de S.Paulo

    20 de outubro de 2019 | 06h00

    LA PAZ - Reynaldo Kantuta, um desenvolvedor de software de 27 anos, representa em muitos aspectos os avanços da Bolívia em mobilidade social sob o comando de Evo Morales, desde que o líder de esquerda se tornou o primeiro presidente indígena do país, em 2006.

    O pai de Kantuta, um índio aimará, migrou de uma vila andina atingida pela seca aos 15 anos, uma jornada que o forçou a comer cascas de banana para sobreviver. Terminou em La Paz, onde muitas vezes enfrentou discriminação e humilhação.

    Graças, em parte, a bolsas de estudos do governo para universitários e melhores perspectivas para a população não branca, Kantuta tem um emprego formal, fala inglês, toca violão e planeja iniciar seu próprio negócio. Mas Kantuta não votará em Evo, há quase 14 anos no poder. “Evo não trouxe mudança suficiente ao país”, disse o jovem. A mãe de Kantuta morreu de câncer depois de não conseguir tratamento em hospitais públicos. Ele diz que em várias ocasiões lhe pediram propina quando tentou obter um emprego no setor público.

    E, agora que entende um pouco mais sobre economia, ele teme que a Bolívia possa estar indo para o tipo de crise que tomou conta da Venezuela e da Argentina. “O que ele quer é poder, não o bem-estar do país”, disse Kantuta sobre o presidente. “Evo Morales só tende a ajudar quem o apoia.”

    Entre outras queixas, Kantuta reclama que sempre que sai de casa vê o rosto ou o nome de Evo nos espaços públicos, como praças e transportes públicos. “Ele está em todos os lugares.”

    Esperança nos jovens

    As esperanças de Evo para garantir um quarto mandato dependem, em parte, de eleitores como Kantuta, um dos mais de 2,5 milhões de bolivianos com 30 anos ou menos - mais de um terço do eleitorado -, adolescentes e adultos que viveram sob um único líder.

    Essa “geração Evo” é um lembrete de quanto tempo o político está no poder. Ele já é o presidente há mais tempo no cargo na América Latina e, se vencer, estenderá seu governo a quase duas décadas.

    O fato de estar concorrendo também é motivo de controvérsias. Evo foi autorizado por uma decisão judicial a fazer campanha novamente, apesar dos limites de mandato impostos pela Constituição e de um referendo que o proibiu de concorrer mais uma vez.

    Visões diferentes

    Para outros jovens bolivianos, é difícil imaginar a vida sem seu líder. Essa geração cresceu em um raro período de estabilidade econômica e política, ajudada por uma demanda sem precedentes por recursos naturais. Por isso, muitos veem Evo como a força por trás da garantia de que os benefícios serão amplamente distribuídos.

    “A Bolívia agora é totalmente soberana e há uma estabilidade econômica que você realmente pode ver”, disse Yubinca Villena, estudante de linguística e professora de balé de 24 anos, acrescentando que, se Evo for derrotado, muito desse progresso pode ser perdido.

    Milenka Siles, estudante de enfermagem de 19 anos, disse que Evo merece reconhecimento. Segundo ela, sua primeira memória dele é de um político que ninguém dizia que seria presidente porque é índio. “Ele mostrou que estavam todos errados”, disse Siles, que pretende depositar o primeiro voto de sua vida em Evo Morales. / REUTERS

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      Índios aimará da Bolívia se dividem sobre apego de Evo ao poder

      Enquanto parte dos membros da tribo do presidente consideram que, mesmo com problemas, os últimos 13 anos de governo foram benéficos para os mais humildes, outros alegam que o nepotismo e projetos vultosos distanciaram líder do povo

      Redação, O Estado de S.Paulo

      18 de outubro de 2019 | 12h03

      LA PAZ - O presidente boliviano, Evo Morales, chegou ao poder em 2006 com a promessa de defender grupos indígenas marginalizados, incluindo sua importante tribo andina aimará, que o ajudaram a conquistar a presidência.

      Popularmente chamado apenas de Evo, ele ajudou a tirar muitos da pobreza desde que tomou posse, e até mudou o nome do país para Estado Plurinacional da Bolívia para homenagear seus diversos grupos étnicos, tratados durante muito tempo como cidadãos de segunda classe.

      Mas o ex-plantador de coca de esquerda enfrenta uma onda crescente de insatisfação até mesmo entre os grupos indígenas que sempre o apoiaram de forma mais visível agora que busca um quarto mandato inédito e polêmico nas eleições de domingo.

      A maioria das pesquisas mostra seu principal rival, Carlos Mesa, se aproximando de Evo, o que faz deste o maior desafio eleitoral ao líder latino-americano há mais tempo no cargo.

      Evo conta com o apoio dos mais de 4 milhões de indígenas da Bolívia em sua tentativa de prorrogar seu governo para possíveis 19 anos - uma afronta aos limites de mandato e a um referendo local de 2016 em que a maioria se opôs a que ele concorresse.

      Mas muitos aimarás estão divididos a respeito de Evo. Alegações de nepotismo e projetos vultosos - incluindo um palácio presidencial de 28 andares ao preço de US$ 34 milhões em La Paz - criaram a sensação desconfortável de que ele se alienou do povo trabalhador.

      “As ideologias indígenas não foram realmente traduzidas na política”, opinou Yolanda Mamani, locutora de rádio aimará de 34 anos que apresenta o popular programa “Chola Bocuda”, uma referência às mulheres indígenas que se vestem com frequência com vestidos brancos e chapéus coco emblemáticos que ganharam mais destaque no governo de Evo.

      Mamani, que nasceu na região ao redor das altas altitudes do Lago Titicaca e emigrou para a cidade de El Alto, próxima da capital La Paz, quando tinha 9 anos, disse sentir que a imagem do presidente é mais uma atuação do que algo palpável. “É como um desfile de moda de folclore, como se os indígenas fossem só roupas”, disse.

      Sonia Quispe, produtora de mídia de 27 anos que fala e escreve no dialeto aimará, disse pensar diferente.

      “Nestes 13 anos de governo Evo Morales, acredito que as pessoas mais humildes foram beneficiadas, os agricultores que vivem da terra”, afirmou, acrescentando que, embora Evo não seja perfeito, só ele pode continuar conduzindo o processo de mudança no país.

      "Há muitos problemas e coisas que precisam ser corrigidas, mas eu acredito nele", completou.

      Uma questão recente que atingiu a popularidade de Evo foram os incêndios florestais que assolaram a região de Santa Cruz. O presidente encerrou sua campanha eleitoral na terça-feira e foram registrados confrontos violentos entre manifestantes e polícia.

      Em seu escritório em La Paz, a deputada Mercedes Marquez falou muito bem de Evo, apesar dos ventos contrários que ele enfrentou nos últimos anos. Ela disse que ele defende os direitos dos povos indígenas após anos de repressão e humilhação.

      Essa congressista de 60 anos, que trabalhou como costureira e comerciante antes de entrar na política, destacou o crescimento econômico estável do país nos governos de Evo, um dos mais confiáveis em uma região volátil, ajudado por um boom de recursos naturais.

      “Temos gás em nossas casas, unidades educacionais modernas, ruas pavimentadas, campos de futebol, ajuda para as crianças, adultos e mães, um novo sistema de saúde, analfabetismo zero, luta contra a pobreza, teleféricos e mercados modernos”, disse ela. “Apoio a reeleição de Evo Morales e (e do vice-presidente) Álvaro García Linera. Se não apoiar eles, vou apoiar quem?"

      Em seu colorido salão de eventos, local conhecido como "cholet", Jhonny Segales, disse que o sucesso da maioria dos aimaras se deve ao trabalho árduo e não à ajuda que recebeu de Evo.

      "As pessoas aqui são assim, sempre trabalhando, se reunindo, economizando, esse é o espírito que temos", disse Segales, vestindo uma jaqueta marrom bem justa entre uma ligação e outra para resolver questões comerciais.

      "Este governo atinge nosso crescimento com políticas tributárias muito desiguais", disse Segales, que apesar de ter se desiludido, opina que começou Evo fez boas coisas quando chegou ao poder.

      “Como eles podem dizer que governam para os pobres, mas gastam milhões em luxo? Quando chegaram ao poder nas primeiras eleições, fizeram coisas boas, mas agora vejo que era apenas para obter nossa simpatia ”, afirmou.

      "Este governo não é para todas as pessoas ou para os pobres, como eles dizem, mas apenas para as pessoas que o apoiam." / REUTERS

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      Perfil: Evo Morales, uma raposa política com dificuldades para se manter no poder

      Presidente latino-americano há mais tempo no cargo busca quarto mandato em uma eleição difícil

      Redação, O Estado de S.Paulo

      18 de outubro de 2019 | 11h41

      LA PAZ - Evo Morales é o presidente latino-americano há mais tempo no poder e quer continuar assim. Há 13 anos mostra sua astúcia política, empatia com os pobres e bom gerenciamento dos lucros da exportação de matérias-primas para China.

      Em suas reuniões, continua acompanhado de xamãs, que realizam cerimônias andinas enquanto ele inicia os trabalhos. No entanto, a poucos dias das eleições gerais, realizadas no domingo, sua sorte parece estar se esgotando.

      Evo, de 59 anos, assumiu em janeiro de 2006 como o primeiro mandatário indígena da Bolívia, em meio a uma onda de vitórias da esquerda, que atravessou a região com a mudança de milênio. 

      Seus companheiros de ideologia foram ficando pelo caminho, no Brasil, Argentina e Equador. A Venezuela, com quem Evo mantém um vínculo estreito, está mergulhada na pior crise política e econômica de sua história recente.

      "Mas a Bolívia é diferente, estamos bem", diz Evo e assim repetem seus partidários nas ruas. "Pedimos mais cinco anos para aproveitar nossa experiência (...). Não me abandonem", é seu mantra nos últimos dias da campanha para uma eleição difícil.

      O governante de origem aymara e leal aliado político de Cuba e da Venezuela busca no domingo seu quarto mandato, um verdadeiro recorde na Bolívia desde a independência do país em 1825. 

      Seu principal adversário é o ex-presidente, jornalista e ex-porta-voz da disputa marítima com o Chile, Carlos Mesa.

      Raposa política

      Os opositores veem em Evo um caráter teimoso, o que o impede de reconhecer seus erros, e o acusam de incorporar um governo antidemocrático que está empurrando o país para ser uma "segunda Venezuela" na região. 

      Já os seus partidários o atribuem quase o dom da infalibilidade. É uma raposa política, que conseguiu aproveitar principalmente a prosperidade econômica do país, após decretar a nacionalização dos hidrocarbonetos, poucos meses depois de assumir o poder.

      O vice-presidente, Álvaro García, que acompanha Evo desde 2006, garantiu, no fim de 2013, que "o presidente Evo é a unidade do corpo de Túpac Katari (líder aymara desmembrado em 1781) e "a ressurreição do povo indígena". Foi Katari quem disse a famosa frase, antes de ser esquartejado: "Só vão me matar, mas amanhã voltarei e seremos milhões".

      Em 2018, Evo abriu a "Casa Grande del Pueblo", um arranha-céu de 29 andares com heliponto que chama atenção no centro histórico de La Paz, substituindo o Palácio Quemado, centro do poder político desde o século 19, como a nova sede presidencial. O local é conhecido na Bolívia como "Palácio de Evo".

      De criador de lhamas a presidente

      Evo conheceu a pobreza desde que nasceu, no dia 26 de outubro de 1959, no povoado de Isallavi, na região andina de Oruro. Criador de lhamas quando criança e depois vendedor de sorvete, fabricante de tijolos e trompetista de um grupo de música local, chegou a Chapare, coração cocaleiro da Bolívia, para se dedicar ao cultivo.

      Acabou se envolvendo no meio sindical, onde começou sua carreira política em 1995, como deputado nacional. Em 2002 lançou pela primeira vez sua candidatura à presidência, alcançando o segundo lugar.

      Quatro anos depois, em 2006, derrotou nas urnas o candidato da direita, Jorge Quiroga, com 54% dos votos, e chegou à presidência. 

      Em 2008, durante uma entrevista para a imprensa estrangeira, Evo disse que quando era criança, aos 11 ou 12 anos, sonhou que voava por sua terra natal. Ao contar o sonho a seu pai, ele disse: "Evito, você vai ficar bem, respeite os maiores e menores, você vai bem em teu futuro".

      Evo não chegou à universidade e têm grandes problemas para ler um discurso em público. Prefere improvisar e repetir frases sobre o sucesso econômico de seu governo, a estabilidade política e os inimigos internos (a direita) ou externos (os Estados Unidos) que "o perseguem". Pairam sobre ele, após quase 14 anos no poder, denúncias de corrupção no governo. / AFP

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      Perfil: Carlos Mesa, um velho conhecido da política boliviana

      Historiador e jornalista de 66 anos era um ‘outsider’ no cenário político, mas se viu no olho do furacão em momentos determinantes da história do país

      Redação, O Estado de S.Paulo

      18 de outubro de 2019 | 11h11

      LA PAZ - Depois de 14 anos, o ex-presidente boliviano Carlos Mesa está novamente na disputa pelo poder, após uma série de circunstâncias que o transformaram na única opção que pode derrotar o atual mandatário, Evo Morales, nas eleições de domingo.

      "Por que entrei na política?", questiona-se o historiador e jornalista de 66 anos. Ele mesmo responde, de maneira simples e direta: "Pela ideia de estar no centro das coisas e trabalhar para mover e mudá-las". 

      Carlos Diego de Mesa Gisbert nasceu em 1953 em La Paz, descendente de uma família de Alcalá la Real, na Espanha. Era um "outsider" na política, mas se viu no olho do furacão em momentos determinantes da história boliviana.

      Renúncias

      Eleito vice-presidente em 2002, renunciou um ano depois quando o então presidente liberal Gonzalo Sánchez de Lozada reprimiu uma rebelião popular que deixou mais de 60 mortos. 

      "Os mortos vão te enterrar", repreendeu então o governante, segundo descreve em seu livro Presidência Sitiada, no qual relata episódios dessa época.

      Acusado de ser covarde, Mesa sucedeu Sánchez de Lozada na presidência. Renunciou duas vezes - a  primeira negada pelo Congresso - e finalmente deixou o poder em 2005.

      Seu amigo Alfonso Gumucio, com quem divide a paixão pela crítica cinematográfica, afirma que Mesa é "um homem que reflete, um homem que quiçá sonha".

      Metódico e sistemático

      Em um artigo escrito em 2008 para o lançamento de Presidência Sitiada, Gumucio revela alguns detalhes da personalidade do ex-presidente: "É um homem incrivelmente metódico e sistemático, não somente em seu trabalho, mas em sua vida cotidiana, capaz de registrar todos os acontecimentos com Bolívar e os detalhes de como pilotar um DC-3".

      "Se há algo que se pode reprovar em Carlos é seu fundamentalismo em não beber uma gota de álcool. O mais próximo que chega é cheirar um copo de vinho. É capaz até de indicar uma variedade ou uma adega de sua predileção", diz.

      Quem o conheceu na juventude lembra do Mesa diante das câmeras do canal estatal, o único da época, no programa "Prêmio do Saber". Anos depois, ganhou o prêmio Rei de Espanha, em 1994, e depois o Prêmio Nacional de Jornalismo de 2012.

      Presidente sem apoio

      Mesa foi presidente da Bolívia sem partido de apoio, situação que complicou sua gestão e o levou à renúncia. 

      Oprimido pela pressão social e a instabilidade política incontroláveis, deixou na cadeira presidencial o advogado Eduardo Rodríguez Veltzé, que convocou eleições em 2005, vencidas por Evo Morales.

      Sem aprender sua lição, voltou a se candidatar, sem partido próprio, com uma sigla emprestada da Frente Revolucionária de Esquerda (FRI), formação minoritária do ex-líder maoísta Oscar Zamora, que terminou por se aliar com a direita na década de 1990.

      A candidatura atual de Mesa é apoiada pela Comunidade Cidadã (CC), coletivo de partidos pequenos, plataformas cidadãs e líderes regionais.

      Disputa marítima

      Apesar das grandes diferenças que tem com Evo, Mesa aceitou ser o porta-voz da disputa marítima que a Bolívia apresentou em 2013 na Corte Internacional de Justiça de Haia, visitando vários países em busca de apoio para a causa.

      No dia 1.º de outubro de 2018, a Corte determinou finalmente que o Chile não tinha obrigação de negociar um acesso para o mar para a Bolívia.

      Dias depois desse fracasso nacional, Mesa anunciou sua candidatura para disputar a presidência com Evo e interromper sua hegemonia de 13 anos. / AFP

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