Alexei Druzhinin, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP
Alexei Druzhinin, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP

Pressionado por mobilização opositora, Putin aposta em voto online na Rússia

Experimento russo com votação online é o novo ponto de fricção entre o Kremlin e ativistas pró-democracia; somente a Estônia coloca em prática esse tipo de sistema em larga escala no mundo

Robyn Dixon, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2021 | 05h00

MOSCOU — Críticos qualificam o sistema de votação online da Rússia como uma “caixa preta”, um “mal absoluto”. O presidente Vladimir Putin afirma que o sistema é o futuro e, assim como o progresso, “não pode parar”. As únicas críticas sobre o sistema nas eleições parlamentares do mês passado, afirma ele, ocorreram “porque alguém não gostou do resultado” — segundo o qual o partido de Putin manteve o controle do Parlamento. 

Mas o experimento russo com votação online (somente a Estônia coloca em prática esse tipo de votação ligado à internet em larga escala; no Brasil e em outros países, as urnas eletrônicas funcionam offline) é o novo ponto de fricção entre o Kremlin e ativistas pró-democracia, que acusam Putin de conduzir o país a um caminho mais autoritário.   

Depois das eleições parlamentares realizadas entre 17 e 19 de setembro — em que o partido Rússia Unida, de Putin, manteve sua maioria absoluta de assentos — uma rede informal de analistas de tecnologia da informação, observadores da oposição e estatísticos independentes levantaram múltiplas dúvidas a respeito do sistema. As dúvidas incluem o que causou picos incomuns de votação e por que os resultados da votação online foram tão diferentes da votação com cédulas de papel. 

Eles compartilharam suas conclusões online e em entrevistas a meios de comunicação independentes da Rússia. Mas Putin afirmou em 25 de setembro que a votação online “é conveniente para as pessoas, e tudo será feito para que seja transparente e justa ao máximo”. 

Ella Pamfilova, diretora da Comissão Central Eleitoral, ameaçou processar na Justiça os críticos do sistema, acusando-os de “desinformação”. A mudança para a votação online, afirmam analistas, reforça ainda mais a influência do Kremlin e não abre opções reais de supervisão.  

O sistema foi usado no mês passado, juntamente com cédulas de papel, em Moscou e outras seis regiões e parece pronto para ser ampliado a tempo para as eleições de 2024, quando Putin deverá tentar a reeleição. Se escolher participar da disputa, ele poderá se manter no poder até 2036, segundo uma emenda constitucional.  

Fraudes simplificadas

Cole J. Harvey, especialista em manipulação eleitoral em Estados autoritários da Universidade Estadual de Oklahoma, afirmou que a votação online é um “divisor de águas” para o regime de Putin. 

“Quando a votação eletrônica se expandir para todo o país, o regime será capaz de trocar as custosas compras de votos e pressões sobre eleitores por baratas e eficientes falsificações”, afirmou Harvey.

Até o verniz da legitimidade eleitoral agora fica em segundo plano, perdendo o lugar para o controle político absoluto, de acordo com Tatiana Stanovaya, da consultoria política R. Politik, acrescentando que avançar com a votação online foi uma “decisão estratégica” do Kremlin.  

"A legitimidade das eleições não é mais um problema para esse regime”, afirmou ela. “Para Putin, sua legitimidade decorre de suas conquistas. Para ele, as pessoas devem demonstrar sua gratidão ao votar nele.” 

Mobilização opositora preocupa Putin

Uma razão para a inclinação mais autoritária do Kremlin é a preocupação a respeito do líder opositor preso Alexei Navalni. Sua plataforma de Votação Inteligente, as revelações sobre casos de corrupção e os protestos de rua abalaram o regime de Putin, o que tornou cada vez mais difícil fraudar resultados eleitorais. (A Votação Inteligente orienta os votos anti-Kremlin aos candidatos de oposição que têm mais chance de derrotar candidatos do governo a qualquer função.) 

Em Moscou, a votação online virou o jogo eleitoral, revertendo a liderança que figuras da oposição conquistaram na votação com cédulas de papel, o que desencadeou indignação na política. Partidos de oposição rejeitaram os resultados. 

O editor-chefe da rádio Eco de Moscou, Alexei Venediktov, que foi vice-presidente de um comitê público de monitoramento sobre a votação online em Moscou, argumentou que isso ocorreu porque eleitores favoráveis ao governo usaram o sistema online, e eleitores de oposição, não. 

Mas analistas levantaram alertas. Eles eles: o comparecimento online extremamente elevado de eleitores que votaram pelo Rússia Unida, de Putin, na cidade com maior mentalidade de oposição da Rússia. 

Também houve dois picos de votação online nas manhãs da sexta-feira e do domingo das eleições, com um padrão igualmente difícil de explicar em cada assento de Moscou. Depois da votação, não foi possível conferir a apuração, nem se os votos eram genuínos, afirmaram observadores da oposição. 

“O caso da votação online em Moscou que reverteu os resultados completamente não enganou ninguém que estivesse atento”, afirmou Tatiana Mikhailova, historiadora da economia e especialista em dados anteriormente ligada à prestigiada Academia Presidencial Russa de Economia Nacional e Administração Pública. 

Ela é uma dos muitos proeminentes analistas, estatísticos e especialistas independentes que examinaram quais dados da votação online disponíveis e compararam anotações nas redes sociais.   

Ela disse que houve “anomalias" não encontradas em padrões normais de votação, mas as autoridades bloquearam o acesso a dados que permitiriam aos observadores verificar o que aconteceu. 

O funcionário de Moscou encarregado do sistema, Artem Kostyrko, afirmou em declarações à rádio Eco de Moscou que os dados sobre a maneira como os votos online foram registrados “em certo ponto não são nem mesmo rastreáveis”. Uma cédula criptografada de um eleitor "não existe em lugar nenhum”. 

“Isso significa que ninguém é capaz de verificar se a votação foi manipulada e, em última instância, provar alguma manipulação, porque a prova foi destruída”, afirmou Mikhailova.

Brechas no sistema

O sistema também permitiu às pessoas alterar votos — um mecanismo que especialistas temem poder abrir brechas para abusos, de acordo com Mikhailova. De 1,9 milhão de eleitores que votaram online em Moscou, aproximadamente 300 mil mudaram seus votos — equivalente a quase 15%, um índice muito mais alto do que o esperado por desenvolvedores de sistemas. Mas os observadores não tiveram acesso a dados a respeito da maneira que as pessoas alteraram seus votos. 

“Isso também cria um nível adicional de flexibilidade para o partido que governa fabricar resultados que lhe agradem”, afirmou Harvey. “Enquanto observadores, não conseguimos ver realmente o que acontece debaixo do capuz. Sabemos apenas que alguns votos foram alterados.” 

O proeminente analista eleitoral independente Sergei Shpilkin, que analisa suspeitas de manipulação eleitoral na Rússia há anos, qualificou a votação online como uma “caixa preta”, um “mal absoluto”. 

Em vez de informar os resultados de maneira fragmentada entre seções eleitorais, o sistema informa apenas resultados totalizados para a disputa de cada cargo e o comparecimento dos eleitores. 

“É impossível investigar um milhão de votos amontoados em uma mesma pilha”, disse ele ao meio de comunicação independente Meduza. “Simplesmente não há detalhes suficientes para análise.” 

Nos últimos dois anos, especialistas em tecnologia da informação e observadores eleitorais reuniram-se semanalmente, a princípio, e depois mensalmente, em um grupo de trabalho técnico organizado juntamente com os desenvolvedores do sistema de votação online do governo de Moscou.   

Alexander Isavnin, da Internet Protection Society, afirmou que os observadores nunca conseguiam obter documentos técnicos que explicassem o sistema durante as reuniões. As operações na blockchain do sistema eram fechadas para observadores externos, tornando impossível verificar votos, afirmou ele.

“A ideia desse processo foi recriar a transparência do desenvolvimento, porque nossas dúvidas não eram respondidas e os documentos estavam incompletos.” 

O participante do grupo de trabalho técnico Victor Tolstoguzov — engenheiro de computação da Universidade Estadual Técnica Bauman de Moscou, onde ele desenvolve plataformas de votação eletrônica — afirmou que o sistema priva observadores, candidatos e membros de comitês eleitorais do direito de verificar a contagem dos votos e mina a confiança nas eleições. Eles tinham de aceitar o sistema com base na confiança, afirmou ele. “Um eleitor não consegue ver se seu voto foi enviado apropriadamente”, disse. 

Votação online é raridade no mundo

O único país no mundo que utiliza nacionalmente um sistema de votação online é a Estônia. Em 2019, aproximadamente 43% dos eleitores do país votaram online, de acordo com a Comissão Eleitoral da Estônia. Após críticas sobre segurança e vulnerabilidade a interferência estrangeira, uma força-tarefa recomendou 25 medidas para melhorar a segurança do sistema de votação da Estônia em 2019.

Harvey afirmou que as autoridades russas se sentiram ameaçadas pela Votação Inteligente de Navalni porque o a plataforma começou a construir bases opositoras em parlamentos municipais e regionais capazes de crescer com o tempo. 

“Acho que o partido governista está preocupado com isso. Estão preocupados com o perfil de Navalni e seu foco na corrupção, o que considero um genuíno ponto fraco do partido governista.” 

Navalni, que conseguiu mobilizar apoios e protestos, quase foi assassinado por envenenamento em agosto de 2020 — por agentes de Estado, de acordo com autoridades americanas. Ele foi preso em fevereiro e agora enfrenta acusações de extremismo que podem condená-lo a 10 anos de cadeia.

“Essa ferramenta de votação eletrônica lhes dá uma maneira de conter o risco da Votação Inteligente”, afirmou Harvey. “Vimos isso em Moscou. … Isso apenas mostra que é possível fazer números aparecerem em uma base de dados.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

 

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