EFE/Ballesteros
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Pressionado por protestos, presidente do Chile não participará de Conferência do Clima

Ministra de Sebastián Piñera explica que mandatário decidiu não ir ao encontro - transferido de Santiago para Madri - em razão da 'urgência do trabalho no Chile', ao se referir à situação caótica em razão das manifestações

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2019 | 11h59

MADRI - O presidente do Chile, Sebastián Piñera, não participará da Conferência do Clima, a COP25, que será realizada a partir da próxima semana em Madri, embora seu país ocupe a presidência da reunião, que teve que ser transferida de Santiago para a capital da Espanha por conta dos protestos sociais no país sul-americano.

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A confirmação da ausência de Piñera foi feita nesta quarta-feira, 27, pela ministra do Meio Ambiente do Chile, Carolina Schmidt, durante café da manhã com a ministra da Transição Ecológica da Espanha, Teresa Ribera, onde deram detalhes da preparação da cúpula, que será realizada de 2 a 13 de dezembro.

"Piñera não virá para a COP, ele transmitiu a urgência do trabalho no Chile, então ele ficará lá", disse a ministra chilena.

Segundo Teresa Ribera, Sebastián Piñera havia planejado uma reunião entre presidentes e chefes de Estado durante a COP, que começa na próxima segunda-feira, um evento que a Espanha manterá na agenda, embora ainda não se saiba quais mandatários participarão.

40 dias nas ruas

As respostas políticas às profundas demandas sociais que os manifestantes chilenos exigem estão avançando lentamente, após mais de 40 dias de protestos, que tem se multiplicado em relação à violência, às greves e com o primeiro manifestante a ser cegado por tiros disparados pelas forças de segurança.

Em outro golpe às ações das forças do Estado nesta crise, a organização Human Rights Watch (HRW) apontou "violações graves" dos direitos humanos pela polícia e recomendou uma reforma da instituição.

O ONG coletou "centenas de queixas preocupantes sobre o uso excessivo da força nas ruas e abusos contra detidos, como espancamentos brutais e abuso sexual que não podem ficar impunes e devem ser rápida e rigorosamente investigados e sancionados", disse José Miguel Vivanco, diretor para as Américas da HRW.

A polícia recebeu com "humildade e responsabilidade" o relatório da HRW, disse Karina Soza, diretora de Direitos Humanos dos Carabineros, que admitiu que os agentes podem ter "cometido erros" que "são investigados".

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O governo de Piñera, que rejeitou as alegações de um relatório da Anistia Internacional na semana passada, aceitou o relatório e as recomendações da HRW.

Outro dia de violência

A violência foi repetida em todo o país na terça-feira. À noite, homens encapuzados saqueavam e incendiaram um hotel de luxo e um escritório público na cidade de La Serena, no norte, enquanto em Iquique, também no norte, assaltaram um supermercado. 

O jornal El Líder na cidade portuária de San Antonio, no centro do país, também foi queimado. Em Valparaíso, os manifestantes instalaram barricadas e causaram incêndios. Em Santiago, milhares marcharam no contexto de uma greve que terminou com tumultos e encapuzados que quebraram as portas de uma estação de metrô, além de armarem barricadas.

Enquanto isso, milhares de outras pessoas se reuniram para se manifestar na Plaza Italia, no centro da capital, onde houve tumultos. A polícia dispersou manifestações em todo o país com lançamentos de gás lacrimogêneo e água.

Desde o início dos protestos em 18 de outubro, os shopping centers fecham mais cedo devido a problemas de transporte público. Em Santiago, com cerca de 7 milhões de habitantes, o metrô ainda não voltou a operar normalmente.

Após mais de um mês de protestos, 67% da população expressou seu apoio à manutenção dessas mobilizações, de acordo com a pesquisa da Cadem.

Enquanto isso, a liderança da Associação Nacional de Futebol Profissional (ANFP) decidiu retomar o campeonato profissional no próximo final de semana, depois de um mês de suspensão. Mas os jogadores de futebol não querem jogar devido à falta de segurança nos estádios, afirmou o sindicato.

Qualquer saída política para a encruzilhada chilena parece impossível no clima de desordem pública, numa crise que já deixou 23 mortos e mais de 1.000 feridos. / AFP

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