Pressionado, presidente do Irã visita 'aliados' na América Latina

Mahmoud Ahmadinejad vem ao continente em um momento em que Teerã está isolado da comunidade internacional por sanções ocidentais.

Tariq Saleh, BBC

09 de janeiro de 2012 | 14h13

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, faz nesta semana um giro por quatro países latino-americanos, em meio a uma crescente pressão externa sobre o Irã e um aumento da tensão doméstica.

Segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil, o governo iraniano busca "aliviar" os efeitos das sanções econômicas ocidentais sobre o país e evitar um isolamento internacional ainda maior.

Para Mahjoob Zweiri, especialista em Oriente Médio e Irã da Universidade do Catar, a viagem de Ahmadinejad à América Latina é "essencialmente uma tentativa de mostrar aos iranianos que o país não está isolado e que possui amigos dentro da comunidade internacional".

"Ahmadinejad vem sofrendo com imensa pressão dentro da liderança iraniana e é visível o descontentamento de membros do governo com a administração dele."

Além disso, segundo Zweiri, o governo iraniano busca incrementar negócios com países mais "amigos", já que Teerã enfrenta problemas econômicos, agravados pelas sanções impostas pelos Estados Unidos e outros países ocidentais por conta do programa nuclear iraniano.

"As exportações diminuíram, a inflação aumenta e a moeda iraniana vem perdendo valor. Medidas econômicas internas se mostraram impopulares, e Ahmadinejad já é vaiado por alguns setores da população. Os iranianos sentem-se mais isolados no mundo do que nunca."

Ahmadinejad chegou no último domingo à Venezuela, onde faz sua primeira escala do seu giro pela América Latina. Ele visitará também Nicarágua, Cuba e Equador.

O Brasil não está na agenda de visitas do iraniano. A assessoria de imprensa do Itamaraty afirmou que o governo brasileiro não foi procurado por Teerã para agendar a visita, mas que as relações entre os dois países seguem normais.

Segundo a mídia estatal iraniana, o objetivo da viagem é "fortalecer os laços com os países latinos que mantêm um discurso hostil em relação aos Estados Unidos".

Negócios e amigos

De acordo com Amani Maged, analista político e colunista do semanário egípcio Al-Ahram, o Irã precisa incrementar desesperadamente seu fluxo de negócios estrangeiros e mostrar à sua população que as sanções e isolamento internacionais não afetarão a insistência do país em seu programa nuclear.

"A América Latina é um dos continentes onde o Irã ainda tem amigos e governos abertos a negócios", disse ele.

Em seu giro latino-americano, o presidente do Irã está acompanhado por uma comitiva de cerca de cem empresários, além dos ministros de Relações Exteriores, da Economia, da Indústria, Comércio e Minas e o de Energia.

"Ele (Ahmadinejad) leva seu alto escalão para combater nas duas frentes consideradas as mais cruciais no momento: diplomacia e comércio", diz Maged.

Desafio

Desde que se tornou presidente, em 2005, Ahmadinejad aumentou os laços do Irã com países latino-americanos, incluindo o Brasil.

Seu governo assinou diversos acordos de cooperação civil e militar com Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua.

"Sob o ponto de vista diplomático, o Irã busca uma legitimidade internacional nas Nações Unidas e uma frente que se torne um desafio aos Estados Unidos", diz Mahjoub Zweiri.

Para o egípcio Amani Maged, a estratégia diplomática iraniana não pode ser subestimada. "Laços com países latino-americanos também servem para seus interesses diplomáticos."

"Países latino-americanos se tornam ocasionalmente membros não-permanentes do Conselho de Segurança da ONU, onde (são votadas) muitas das sanções impostas ao Irã. Cortejar amigos na América Latina com certeza é bom para os negócios, sejam eles comerciais ou diplomáticos", diz. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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