Pressionando o botão 'reiniciar'

Ao perceber que a política de confronto com Israel não daria resultados, Obama decidiu inverter sua estratégia

Frida Ghitis, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2010 | 00h00

MCCLATCHY NEWSPAPERS

Ao observar as manifestações públicas de amizade entre o primeiro-ministro israelense, Binyamin "Bibi" Netanyahu, e o presidente Barack Obama, um jornalista perguntou ao chefe da Casa Branca se ele chegara à conclusão que a política anterior ? manter distância de Israel e tratar com desprezo Bibi ? tinha sido um erro. Obama imediatamente respondeu que não havia nada entre os dois homens e os dois países a não ser laços estreitos e excelentes relações. Netanyahu concordou com o presidente. Qualquer ideia de que os dois não se apreciam, ambos insistiram, é absurda.

Os dois líderes estão certos, em parte, mas eles realmente querem que esqueçamos os desagradáveis deslizes do ano passado.

Obama decidiu mudar o rumo de sua relação com Israel. Mas a questão é se esse reinício é uma medida calculada politicamente para garantir votos na eleição de novembro, ou se é um reconhecimento do quão desastrosa foi a política adotada até agora. Caso tenha sido uma decisão eleitoral, tudo pode mudar após as eleições de meio de mandato. Mas se foi resultado de uma análise ponderada, significaria um grande avanço nas chances de paz. Afinal, o enfoque de confronto público provou ser totalmente contraproducente. Netanyahu, também, tem muito a perder se os eleitores israelenses acharem que ele deixou escapar o apoio dos EUA.

Aqueles que gostariam de ver Estados Unidos e Israel separados contribuíram muito para as tensões entre os dois aliados. Alguns jornalistas, por exemplo, repetiram com entusiasmo citações incorretas do embaixador de Israel nos EUA, Michael Oren, que supostamente teria se referido a uma ruptura histórica entre os aliados. Oren jamais falou de ruptura, mas as palavras que usou, que foram distorcidas, viajaram pelo mundo na velocidade da internet, enquanto as negações sumiram nos filtros de spam. Israel e Estados Unidos continuaram mantendo uma colaboração estreita e intensa em diversas frentes, mesmo quando manchetes insistiam reiteradamente em suas divergências.

Mas não se pode negar ? apesar dos desmentidos de Obama e Netanyahu ? que a abordagem adotada pelo presidente com relação a Israel divergia nitidamente das adotadas nos governos Bill Clinton e George W. Bush. E é inegável que a frieza e as recriminações públicas nada produziram de útil.

Obama elogiou Bibi, agradecendo a "maravilhosa declaração" em homenagem ao 4 de Julho. E repetiu que o "elo" entre os dois é "inquebrantável" e o compromisso dos EUA com a segurança de Israel é "inabalável".

Ao acolher abertamente esse elo entre os dois países, Obama alinha-se com a opinião pública americana. Uma recente pesquisa do Instituto Gallup mostrou que o sentimento americano pró-Israel atingiu alta recorde, com mais de 63% simpáticos aos israelenses e somente 15% defendendo os palestinos.

Apenas 2% de americanos são judeus, de modo que o apoio a Israel, na maior parte, é de não judeus. Com tantos eleitores defendendo Israel, a percepção de que Obama não favorece os israelenses, que surgiu a partir das suas desavenças públicas com Netanyahu, pode prejudicar os democratas nas eleições de meio de mandato. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA E ESCREVE SOBRE TEMAS GLOBAIS NO JORNAL "THE MIAMI HERALD"

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