Imagem Issa Goraieb
Colunista
Issa Goraieb
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Pressões sobre o Líbano

Limitado a oeste pelo Mar Mediterrâneo, o Líbano só precisa se preocupar com duas fronteiras terrestres - mas como são imprecisas, porosas e turbulentas essas fronteiras! A leste, a Síria nunca se resignou verdadeiramente à existência de um Líbano independente e soberano, afirmando que o País do Cedro sempre fez parte de seu espaço geográfico e histórico, a Grande Síria.

Issa Goraieb, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h04

Foi somente há pouco mais de seis anos que o regime de Damasco aceitou uma troca de embaixadores com seu pequeno vizinho. E continua se recusando a qualquer delimitação da fronteira comum, através da qual, ao longo das últimas décadas, ele jamais deixou de infiltrar combatentes, equipamentos e outros agentes desestabilizadores. Mas não menos explosiva é a fronteira meridional, que testemunhou, desde o surgimento do Estado de Israel, em 1948, inúmeros incidentes graves e mais de uma guerra devastadora.

Juntem-se a estas armadilhas da geografia e da história as linhas divisórias profundas que dilaceram o povo libanês, que se divide em 17 comunidades religiosas, e teremos um exagero de fronteiras quentes para administrar. Desde o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, em 2005, os clássicos tiroteios entre cristãos e muçulmanos deram lugar ao ódio inextinguível entre muçulmanos sunitas e xiitas: o mesmo, aliás, que hoje inflama uma parte considerável do mundo árabe muçulmano.

A guerra civil da Síria apenas envenenou as coisas. Assim, os sunitas apoiaram em massa os rebeldes e os xiitas tomaram partido do presidente Bashar Assad, membro da seita alauita egressa do xiismo; o Hezbollah, armado e financiado pelo Irã, chegou a participar ativamente dos combates ao lado do regime sírio, enquanto o governo do qual faz parte tem por política oficial manter o país apartado desse conflito.

Mas é sobretudo a recente e sangrenta entrada no Líbano dos grupos radicais islâmicos provenientes da Síria que trouxe o debate a seu ponto de ebulição. O Hezbollah é acusado de ter, com o seu aventureirismo, cutucado a fera e a convidado objetivamente a atacar o Líbano. A isso os aliados do Irã respondem afirmando que eles apenas fizeram uma guerra preventiva contra um inimigo já decidido a estender suas malfeitorias em todas as direções.

Algumas semanas atrás, homens do Estado Islâmico (EI) e da Frente al-Nusra atacaram a localidade fronteiriça de Ersal, conseguido tomar como reféns mais de 30 militares, 3 dos quais já foram assassinados. Na segunda-feira, foi contra as posições do Hezbollah que protegiam o povoado xiita de Brital que se lançaram, matando uma dezena de pessoas nas fileiras da milícia até serem rechaçados.

Algumas horas apenas mais tarde, a milícia causou espanto ao lançar um ataque com explosivos contra uma patrulha israelense no setor das Fazendas de Sheba, uma região montanhosa libanesa que o Estado judeu ocupa desde 1967. Esta operação é a primeira que o Hezbollah reivindica publicamente desde a devastadora guerra de 2006. Com certeza, o Hezbollah (Partido de Deus) tinha um duplo objetivo: restabelecer um prestígio provisoriamente manchado pelo humilhante episódio da véspera; e calar seus detratores que lhe acusam de ter esquecido a luta contra Israel para consagrar sua energia a combater outros árabes e muçulmanos.

Mas a empreitada tem riscos, pois todo o norte de Israel está em estado reforçado de alerta pelo temor de circunstâncias que poderiam levar a uma conflagração.

Não é somente no plano militar e de segurança que os libaneses se encontram entre dois fogos. É na estrutura multirreligiosa que seu país é, de fato, mais gravemente afetado por um abalo regional que, com a ajuda de massacres e êxodos, já se traduziu numa espetacular erosão da presença cristã nessa parte do mundo.

Este Estado Islâmico que assombra o planeta é, com certeza, a antítese gritante do Líbano. A exemplo do sanguinário presidente Assad, o Hezbollah posa de protetor das minorias religiosas diante da barbárie dos fanáticos.

Mas como esquecer que esse mesmo Hezbollah é a emanação direta (para não dizer o instrumento) de uma teocracia iraniana medieval, que se empenhou ao longo dos últimos anos em obstruir uma após outra as instituições, arrogando-se a decisão de paz ou de guerra no lugar do Estado, erguendo-se em um Estado dentro do Estado? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA DO 'L'ORIENT-LE JOUR',

DE BEIRUTE, E COLUNISTA DO 'ESTADO'

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.