Primavera Árabe põe EUA ao lado de islamistas

De 'inimigos', grupos como Irmandade passam a ser considerados 'parceiros'

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2012 | 03h02

São fortes os ventos da Primavera Árabe e, após um ciclo de eleições livres na Tunísia, Egito e Líbia, os EUA agora se veem obrigados a chamar de "parceiros" pessoas que há pouco mais de um ano e meio eram "inimigos" ou mesmo "terroristas".

O caso mais emblemático é o do Egito, peso pesado do mundo árabe que no mês passado levou à presidência o ex-preso político Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. Grupos islâmicos, incluindo os ultrarradicais salafistas, já haviam conquistado em janeiro quase 70% do Parlamento - posteriormente dissolvido pelos militares. A lembrar: por décadas, a justificativa dos EUA para bancar a ditadura de Hosni Mubarak era a "ameaça" dos irmãos muçulmanos.

Mesmo na Líbia, onde a moderada Aliança das Forças Nacionais (AFN) foi declarada na semana passada a principal vencedora das eleições parlamentares, tradicionais desafetos de americanos e europeus terão considerável influência política. O líder salafista Abdul Hakim Belhadj e seu partido, o Al-Watan (A Pátria), perderam feio nas urnas. Mas Belhadj - que lutou no Afeganistão ao lado do Taleban e foi preso pela CIA em 2004 - está fadado a ser uma das principais vozes da oposição líbia.

Tanto a Irmandade no Egito quanto o governo Barack Obama vêm enviando sinais de que querem preservar a boa relação entre Washington e Cairo. Os EUA dão anualmente US$ 1,3 bilhão em ajuda militar ao Egito. Mas ambiguidades também marcam a incipiente parceria.

Em seu terceiro discurso como presidente, Morsi prometeu lutar pela liberdade do xeque Omar Abdel-Rahman, preso na Carolina do Norte por participação no atentado de 1993 contra o World Trade Center. Antes, em seus comícios de campanha, um dos hinos mais populares dizia "Morsi vai liberar Gaza e liderar o califado árabe com sede em Jerusalém".

"Como em qualquer democracia, o limite do pragmatismo na política externa será colocado a Morsi pelo seu eleitorado e pela opinião pública egípcia", prevê ao Estado Mouin Rabbani, coeditor da revista acadêmica Middle East Report. "Existem algumas linhas - em relação a Israel, por exemplo - que ele não poderá cruzar. Mas o caso do xeque Abdel-Raham parece ter sido um descuido pouco diplomático."

Outro episódio envolvendo o Egito que causou polêmica nos EUA foi a decisão do Departamento de Estado de conceder um visto ao deputado Hani Nour Eldin. Eleito em janeiro, ele fez parte de uma delegação de parlamentares egípcios convidada a visitar Washington, com direito a bate-papos na Casa Branca e em centro de estudos. Mas Eldin é integrante da Gamaa Islamiya, organização que consta da lista dos EUA de "grupos terroristas".

Uma das vozes em Washington mais enraivecidas com a visita foi o deputado republicano Peter King, chefe da Comissão de Segurança Interna. No ano passado, ele havia proposto enquadrar o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, na categoria de "terrorista" por "colocar em risco interesses americanos".

Curiosamente, nos anos 80 e 90 King foi um dos principais defensores da mudança de posição do governo americano em relação ao Exército Republicano Irlandês (IRA). Ele pressionou a Casa Branca a conceder um visto a Gerry Adams, integrante do Sinn Fein, o comitê político do grupo separatista irlandês. Em 1994, Gerry recebeu a autorização para ir aos EUA e, por anos, era convidado à Casa Branca para comemorar o Dia de São Patrício, feriado da comunidade irlandesa nos EUA.

Na lista de "terroristas" dos EUA, já passou gente como Nelson Mandela. O líder que ajudou a enterrar o apartheid sul-africano só deixou a relação em 2008 - 15 anos depois de ganhar o Nobel da Paz -, com um pedido de desculpas do então presidente George W. Bush.

Na semana passada, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, fez uma histórica visita ao Laos, onde foi recebida pelo premiê Thongsing Thammavong. Como cinco dos nove membros da cúpula de seu governo, Thammavong integrou a guerrilha comunista Pathet Lao e lutou ao lado dos vietcongues contra soldados americanos.

"Se alguém me dissesse nos anos 70 que um secretário de Estado americano apertaria a mão de um guerrilheiro do Laos, diria que está maluco", brinca Lawrence Korb, veterano da Guerra do Vietnã e analista político do Center for American Progress, de Washington. "Mas a 'reabilitação' de antigos inimigos é uma constante na política internacional. A Primavera Árabe é mais um capítulo."

Korb cita também o exemplo do Exército de Libertação do Kosovo (ELK). No início dos anos 90, a organização foi descrita por Robert Gelbard, enviado especial do governo Bill Clinton para os Bálcãs, como "um grupo terrorista, sem dúvida nenhuma". Em 1999, porém, Clinton passou a apoiar fortemente o nacionalista albanês Ibrahim Rugova, ligado ao ELK.

Atualmente, o grupo iraniano Mujahedeen Khalq (guerreiros do povo, o "MEK") conduz um intenso lobby nos EUA para deixar a lista de grupos terroristas, ao mesmo tempo em que luta contra a República Islâmica. Democratas e republicanos foram investigados por receber dinheiro da organização - que é acusada de ter matado três cidadãos americanos nos anos 70. "Mas, em política internacional, o tempo apaga as coisas. E é bom que seja assim", explica Korb.

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