Primavera Árabe reduz apoios a Israel

As cenas de intensos bombardeios na Faixa de Gaza enquanto uma chuva de foguetes cai sobre Israel podem até provocar uma sensação de déjà vu, mas quase dois anos após o início da Primavera Árabe, a paisagem política por trás dessa nova onda de violência entre forças israelenses e o Hamas guarda pouca semelhança com aquela vista na guerra de quatro anos atrás, quando Israel invadiu o território na Operação Chumbo Grosso, que deixou 1,4 mil mortos.

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h03

Desta vez, a potência regional mais próxima do grupo islâmico palestino não é o Irã, arqui-inimigo dos EUA no Oriente Médio, nem a Síria de Bashar Assad. Em seu lugar, o Egito - livre da ditadura de Hosni Mubarak e sob governo islamista - emerge como defensor maior da causa de Gaza, acompanhado de países como Catar e Turquia, todos aliados estratégicos de Washington.

Duas semanas antes da nova espiral de violência, o emir de Doha, Hamad bin Khalifa al-Thani, apareceu no território palestino com apoio político e financeiro. Nos bastidores, a Autoridade Palestina, de Mahmoud Abbas, que governa a Cisjordânia, lamentou a visita, a primeira de um chefe de Estado ao território desde a breve guerra civil entre facções palestinas, em 2006.

Na sexta-feira, o primeiro-ministro do Egito, Hesham Kandil, foi recebido com festa em Gaza, obrigando Israel a silenciar as armas por algumas horas. O chanceler da Tunísia, Rafik Abdessalem, chegou ontem ao território com ajuda humanitária.

"A situação agora é muito diferente da que vimos na guerra de quatro anos atrás, principalmente quando olhamos de perto o que está ocorrendo no Egito, em Israel e entre os palestinos", disse ao Estado Mouin Rabbani, do Institute for Palestine Studies, com base em Washington e Beirute. "O novo assalto a Gaza é um teste inédito para Morsi."

De um lado, ele terá de demonstrar à opinião pública egípcia que o novo regime no Cairo é realmente diferente de Mubarak em relação aos palestinos. Do outro, deverá dar garantias a americanos e europeus de que não ousará mexer nos acordos de paz com Israel, sob pena de perder bilhões de dólares em ajuda em um momento de séria dificuldade econômica no Egito.

Morsi, por exemplo, não acabou com o bloqueio a Gaza e pressionou pelo fechamento de túneis usados para contrabandear produtos ao território palestino.

Silvan Shalom, vice-premiê de Israel, chegou a afirmar que o novo presidente era "mais duro com o Hamas do que Mubarak".

Para vários especialistas, o motivo para a manutenção do cerco a Gaza teria menos a ver com a facção islâmica que controla o território e mais com os grupos radicais jihadistas que ameaçam cada vez mais a Península do Sinai - em setembro, 16 soldados egípcios foram mortos em uma ação armada de militantes vindos de Gaza.

Outra diferença essencial com relação à crise de 2008 é o papel do Irã no conflito. "O Hamas está cada vez mais distante do Irã e da Síria e próximo de países como Egito, Catar e Turquia", afirma Meir Javedanfar, analista israelense nascido em Teerã. "O grupo islâmico entendeu que a aliança com a república xiita significaria isolamento. E o resultado é que, agora, ao contrário de 2008, ninguém está dando bola para o que os iranianos falam sobre Gaza."

Em fevereiro, o líder máximo do Hamas, Khaled Meshaal, deixou o exílio na Síria - decisão que, para muitos, indicou o afastamento entre o grupo e o eixo Damasco-Teerã. Hoje ele vive entre Cairo e Doha.

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