Primavera sangrenta

A "primavera dos povos árabes" começou relativamente calma na Tunísia, depois no Egito, mas se torna sangrenta à medida que chega a Estados mais tirânicos. Na Líbia, onde há mais de 40 anos reina o sinistro coronel Muamar Kadafi, os mortos são contados às centenas. Saif al-Islam, filho do coronel, confirmou: o regime de Kadafi sobreviverá, mesmo que para isso "rios de sangue precisem correr".

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2011 | 00h00

E a Europa, nessa esperança, nessa tragédia? Como não percebeu a chegada desses eventos, ela prossegue tentando dissimular honrosamente. E mais ou menos consegue, com exceção da França, onde a diplomacia de Michèle Alliot-Marie chega às raias da imbecilidade. No caso da Líbia, onde o assassino Kadafi está no comando, o que a União Europeia pode fazer? A UE declarou que matar é ruim. Era o que faltava! A chefe da diplomacia europeia, a estranha Catherine Ashton, insistiu num "diálogo significativo". Boa ideia!

Essa timidez europeia pode ser explicada de duas maneiras. Em primeiro lugar, ela confirma que a Europa não entende nada de árabes e, paralisada pela presença, nos corredores, de um Exército de "terroristas islâmicos", sobre os quais pouco se sabe, ela tem medo.

A segunda razão é que Kadafi tem várias cartas na manga. E procura exibi-las. A primeira carta é econômica. Por exemplo, ele pode "estatizar" as empresas europeias que são numerosas nesses país onde os lucros são suculentos. Kadafi dispõe também da arma do petróleo. É certo que a Líbia responde apenas por 2,2% da produção mundial. Mas o país é um dos maiores produtores de petróleo na África, antes da Argélia, e talvez da Nigéria.

O corte do petróleo líbio, portanto, provocaria problemas de abastecimento e semearia a desordem nesse mercado nervoso (a alta do petróleo que se verifica há dois dias é prova disso). Além do que, os ativos das empresas petrolíferas ocidentais são grandes. É o caso da British Petroleum.

Kadafi tem uma outra arma de dissuasão: a imigração. A Líbia, com seus 2 mil quilômetros de costa e 4 mil de fronteiras que tem com seis países africanos, é um ponto de passagem obrigatório para os "imigrantes" que vêm de toda a Europa. Kadafi controla habitualmente esse fluxo, tendo firmado acordos de cooperação com a Europa. Mas se a UE lhe causar problemas, ele denunciará todos os acordos e abrirá as comportas da imigração.

Neste caso, multidões de esfomeados africanos se precipitariam para as margens do "paraíso terrestre". Mas se Kadafi suspender os obstáculos que coloca para o embarque de candidatos a imigrantes, não serão apenas 10 mil pobres coitados que se precipitarão para a Itália, mas 50 mil. E a partir dali, eles tentarão chegar a outros países europeus.

A situação da Líbia evolui de hora em hora. Segundo raras informações que chegam do país, a cidade de Benghazi, a segunda mais importante, estaria praticamente incontrolável. Um governo autônomo teria sido proclamado. E mais grave: no deserto, as tribos se agitam. Uma pequena tribo do leste ameaçou cortar as exportações de petróleo. Uma outra, mais importante, a de Al-Warfalla, proclamou sua hostilidade ao regime. No sul, os tuaregues teriam entrado em dissidência. Se esses movimentos se desenvolverem, a Líbia perderia o controle das suas comunicações com o Sul e a cidade de Sebha ficará isolada. Sebha é uma área militar importante, com seu aeroporto e seus quartéis. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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