Francisco Guasco/EFE
Francisco Guasco/EFE

Primeira caravana centro-americana completa um mês rumo aos EUA

Mais de 5 mil migrantes, em sua maioria hondurenhos, estão na cidade mexicana de Guadalajara

O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2018 | 16h37

GUADALAJARA - Sem ânimo para festejar, a primeira grande caravana migrante que deixou Honduras rumo aos Estados Unidos completa um mês nesta terça-feira, 13, de um caminho tortuoso e minado de ameaças da parte do presidente Donald Trump e ainda determinada a alcançar o sonho americano.

Em meio ao cansaço e às doenças que se abatem sobre seus integrantes, os mais de 5 mil migrantes - hondurenhos em sua maioria - que persistem desde 13 de outubro na marcha que saiu de San Pedro Sula, amanheceram na cidade mexicana de Guadalajara. Foram mais de 2 mil quilômetros percorridos, a maioria a pé e com paradas em alguns trechos.

"Não celebramos absolutamente nada. Como vamos festejar que estamos sem casa, sem trabalho, cansados, doentes, sem segurança para nosso futuro?", disse à agência de notícias AFP Wilson Ramírez, um hondurenho de 60 anos, enquanto fazia uma longuíssima fila em espiral para sair do albergue e embarcar nos ônibus que o levarão para a próxima escala da caravana.

Para Rosa Santos, que viaja com seus três filhos, a data sequer foi notada.

"Aqui nem nos demos conta de que completamos um mês. Apenas pensamos em sobreviver ao dia. Hoje não tomamos café da manhã e vamos para um lugar que nem sabemos qual é", comentou.

Vontade de ferro

Em sua passagem pelo México, a caravana chegou a somar 7 mil integrantes, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), mas muitos desistiram pelo caminho.

"Se Deus quiser, nada e nem ninguém vai nos deter. Vai acontecer um milagre histórico quando chegarmos à fronteira", disse Aurelio Rojas, um hondurenho de 42 anos que viaja com a mulher e duas filhas, de 13 e 16 anos. O filho mais velho foi assassinado em seu país durante um assalto. "É por elas que faço isso. Elas são meu combustível, e o amor que tenho por elas não acaba. Vamos chegar, porque sim."

Atrás dessa grande caravana, há outras duas, com cerca de 2 mil migrantes cada.

Os migrantes não reiniciaram seu trajeto a pé como nos dias anteriores. As autoridades locais dispuseram para eles dezenas de ônibus com o objetivo de levá-los até a fronteira com Nayarit, na costa do Pacífico, no noroeste do México.

"Mas esse Estado não vai recebê-los para dormir, porque não há condições. Está tudo muito destruído pelo furacão Willa, que castigou a zona recentemente", disse um representante da Defesa Civil de Jalisco, Estado onde fica a cidade de Guadalajara. "Hoje farão um trajeto muito longo até o Estado de Sinaloa."

Obstáculos de Trump

Na sexta-feira, 9, Trump decretou o fim dos pedidos de asilo para quem entrar ilegalmente nos Estados Unidos, uma medida que busca dissuadir os migrantes centro-americanos que avançam pelo México rumo à fronteira.

"Devo tomar medidas imediatas para proteger o interesse nacional e manter a efetividade do sistema de asilo para os solicitantes de asilo legítimos", disse o presidente republicano que, desde sua campanha eleitoral, critica os migrantes, chamando-os de "criminosos".

Com essa medida, o governo Trump busca fazer o governo mexicano a assumir os migrantes, estipulando que o decreto perderá sua vigência, caso se chegue a um acordo que "permita os Estados Unidos expulsarem estrangeiros para o México".

Segundo o governo americano, as patrulhas fronteiriças registraram mais de 400 mil entradas ilegais em 2018. E, nos últimos cinco anos, o número de solicitantes de asilo aumentou 2.000%, transbordando o sistema, que tem mais de 700 mil casos acumulados para processar.

Trump acusa os migrantes de protagonizarem uma "invasão" e, para contê-los, determinou o envio de milhares de soldados para a fronteira sul.

Em 5 de novembro,  4.800 soldados foram mobilizados (1.100 na Califórnia, 1.100 no Arizona e 2.600 no Texas), informou o Pentágono. / AFP

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