Primeira-ministra australiana prevê demora para coalizão

Após as eleições do sábado terminarem sem um vencedor claro, a primeira-ministra da Austrália, Julia Gillard, disse hoje que as negociações políticas para a formação de um governo de minoria devem levar tempo. Foi a primeira vez em 70 anos que a disputa parlamentar no país terminou sem nenhum dos dois partidos majoritários com maioria evidente. Diante desse contexto, o Partido Trabalhista de Julia prometeu realizar um governo "estável" à espera de uma definição.

AE, Agência Estado

23 de agosto de 2010 | 09h17

Os mercados reagiram à disputa política, com o dólar australiano abrindo em queda, mas se recuperando ao longo do dia. A moeda, porém, pode perder força se o impasse eleitoral se arrastar por algumas semanas, como previsto por alguns analistas. Em teoria, a Austrália poderia esperar até três meses antes de um resultado das eleições surgir, segundo analistas. Don Rothwell, um especialista em Direito da Universidade Nacional Australiana, afirmou que Julia "tem o tempo a seu favor" para conduzir as negociações com os partidos independentes que poderiam pender para um dos lados.

As regras eleitorais preveem que o Parlamento deve se reunir em até 30 dias após a publicação das atas eleitorais, o que deve ocorrer em 27 de outubro. Com isso, Julia poderia reunir a Câmara dos Representantes, onde o governo é formado, apenas em 26 de novembro, segundo Rothwell. "(Julia) Gillard permanecerá como a primeira-ministra interina até lá, quando ela renunciaria, ou até o momento em que o Partido Trabalhista acreditar que está em posição de formar um governo com o apoio da Câmara dos Representantes", avaliou o analista.

Se o diálogo entre os trabalhistas e os independentes fracassar, o chefe de Estado da Austrália, governador-geral Quentin Bryce, pode convocar Tony Abbott, líder do rival Partido Liberal Nacional, para formar um governo de centro-direita. Abbott teria então a chance de assumir o país, contanto que consiga apoio dos independentes.

Desafios

Um dos temas apontados como dos mais importantes nessa disputa é a proposta de imposto sobre o setor de recursos minerais, que pode causar impacto também nos mercados. O polêmico plano de cobrar um imposto sobre lucros extraordinários do setor de recursos minerais foi revelado em maio e acabou sendo fator decisivo para a queda do então premiê trabalhista Kevin Rudd. Poucos dias após assumir, Julia disse que o imposto seria reduzido para 30%, e não mais os 40% inicialmente previstos, e que ele valeria apenas para o carvão e o minério de ferro, após negociações com as grandes mineradoras do país. Mas isso gerou críticas das empresas menores e também do Partido Verde, que deseja a manutenção da taxa antiga. Já a coalizão liderada por Abbott prometeu que acabará com o imposto, caso chegue ao poder.

Analistas notam que o imposto é complicado e planejado para ser implantado em fases, de tal forma que é difícil medir o impacto negativo no setor. Grandes mineradoras, como a BHP Billiton e a Rio Tinto, que participaram das negociações com o governo de Gillard, parecem ter feito tudo o que podiam para se preparar para essa nova situação, segundo os especialistas.

Com 80% dos votos apurados, nenhum dos dois partidos tinha as 76 cadeiras para formar uma maioria na Câmara dos Representantes, que tem 150 vagas. O Partido Trabalhista tem uma leve vantagem de 73 cadeiras, ante 72 dos rivais do Partido Liberal Nacional.

Há a possibilidade ainda de se formar um governo de coalizão em poucos dias. Um exemplo recente no mundo foi o Reino Unido, quando dias após as eleições de maio, sem um vencedor claro, o líder conservador David Cameron e o liberal democrata Nick Clegg formaram uma nova administração. Diferentemente do caso britânico, porém, não há uma terceira força clara no Parlamento australiano. Com isso, os grandes partidos buscam o apoio de várias parlamentares independentes, cujas visões em temas como impostos, mudanças climáticas e assuntos regionais variam bastante.

Nesta segunda-feira, Julia reiterou sem comprometimento com o acordo fechado pelo Partido Trabalhista com as grandes mineradoras, mantendo o planejado imposto para o setor em 30%. Abbott sustenta a posição de esquecer essa cobrança, caso consiga o poder. As informações são da Dow Jones.

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