AFP PHOTO / NICHOLAS KAMM
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Primeiro ato protecionista de Trump exclui EUA da Parceria Transpacífico

Presidente decreta saída de acordo comercial negociado durante oito anos por Barack Obama para aumentar influência na Ásia e conter a da China; novo líder associa pacto que uniria 40% do PIB mundial à perda de empregos entre americanos

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2017 | 05h00

O presidente Donald Trump começou ontem a implementar sua agenda protecionista e oficializou a saída dos Estados Unidos da Parceria Transpacífico (TPP). O acordo comercial foi negociado durante oito anos por Barack Obama e fazia parte de sua estratégia para aumentar a influência americana na Ásia, conter a da China e fortalecer os laços com a região que cresce mais rapidamente no mundo.

Criticado por Trump e o democrata Bernie Sanders durante a campanha, o TPP transformou-se no símbolo do principal tema para os americanos na disputa presidencial: a perda de empregos industriais para outros países, em especial a China, e a frustração em relação a práticas comerciais vistas como desleais. 

“Nós estamos falando disso há muito tempo”, disse o novo presidente na cerimônia de assinatura do decreto que formalizou a retirada dos EUA do que seria o maior acordo comercial da história, com participação de 40% do PIB do planeta. “É uma grande coisa para o trabalhador americano.”

O protecionismo de Trump contraria posições tradicionais de seu partido, um histórico defensor da redução de barreiras ao comércio. Nesse terreno, o presidente está mais próximo dos sindicatos e da esquerda americana, para os quais esses acordos beneficiam as grandes corporações e prejudicam os trabalhadores do país.

Crítico contundente do novo presidente, Sanders elogiou sua decisão de retirar os EUA do TPP. “Agora é o momento de desenvolver uma nova política de comércio que beneficie as famílias de trabalhadores, não apenas as corporações multinacionais”, disse o democrata em nota. “Se o presidente Trump estiver falando sério sobre buscar uma nova política para ajudar os trabalhadores americanos, terei prazer em trabalhar com ele.”

A decisão foi vista por analistas como o primeiro passo no esperado processo de retração dos EUA do seu papel de liderança em questões econômicas globais. Em seu discurso de posse, na sexta-feira, Trump evidenciou mais uma vez sua suspeição em relação à integração comercial e sua preferência pelo isolacionismo. 

“Nós temos de proteger nossas fronteiras da pilhagem de outros países que fazem nossos produtos, roubam nossas empresas e destroem nossos empregos”, declarou. “Proteção vai levar à prosperidade e força”, ressaltou Trump.

“Claro que a China tem vantagens com a saída dos Estados Unidos de um acordo que os Estados Unidos liderou e negociou desde o começo”, disse Jeffrey Schott, do Peterson Institute for International Economics. “Os chineses estão se aproveitando de maneira discreta, mas muito proativa, para fortalecer seus laços econômicos e sua influência sobre a integração comercial na região.” 

No mais recente Fórum Econômico Mundial de Davos, o presidente chinês, Xi Jinping, fez um discurso em defesa da globalização e se apresentou como o improvável líder do livre-comércio mundial. “Parecia um discurso de Barack Obama”, ironizou Schott.

Cumprindo outra promessa, Trump anunciou que começará negociações para a revisão do Nafta, o tratado de livre comércio que une Estados Unidos, Canadá e México. Em uma semana, ele se reunirá na Casa Branca com o presidente mexicano Enrique Peña Nieto, com o qual deverá discutir comércio, imigração e outra de suas principais promessas de campanha – a construção de um muro na fronteira, a ser pago pelo país vizinho.

Em encontro com empresários na Casa Branca, Trump reiterou sua promessa de imposição de elevadas tarifas de importação sobre produtos de empresas que transferiram linhas de montagem dos EUA para outros países. “Se você quer vender alguma coisa para a China, é muito, muito difícil. Em alguns casos, impossível”, afirmou o presidente. “Então, nós não podemos chamar isso de livre-comércio, o que nós queremos é livre-comércio, livre-comércio e nós vamos tratar outros países de maneira justa, mas eles também têm de nos tratar de maneira justa.”

PARA ENTENDER. A Parceria Transpacífico foi fechada em 2015 pelos EUA e 11 países: Austrália, Cingapura, Brunei, Nova Zelândia, Canadá, Chile, Peru, México Vietnã, Malásia, EUA e Japão. O acordo, que prevê facilidades alfandegárias entre seus membros e faz parte da estratégia do ex-presidente Barack Obama de “pivô para a Ásia” – termo geopolítico para priorizar os esforços comerciais e estratégicos na bacia do Pacífico, em uma tentativa de conter a expansão da China. Na campanha presidencial, Hillary Clinton também tentou se distanciar do acordo, impopular entre o eleitorado.

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