Primeiro detento solto por Obama denuncia tortura

Etíope libertado de Guantánamo acusa Londres de ter colaborado com EUA em interrogatórios violentos

AP E REUTERS, O Estadao de S.Paulo

24 de fevereiro de 2009 | 00h00

Binyam Mohamed, um etíope com permissão de residência na Grã-Bretanha, voltou ontem para Londres após passar quase sete anos sob custódia do Exército americano. Mohamed, que passou os últimos quatro anos detido na prisão de Guantánamo, acusou Washington de torturá-lo e disse que o governo britânico colaborou com os EUA durante o tempo em que ficou preso.Mohamed retornou à Grã-Bretanha em um voo fretado após o governo americano ter concordado, na semana passada, com um pedido de Londres para libertá-lo. O ex-detento foi solto e todas as acusações contra ele foram retiradas após negociações entre os dois governos. Ele é o primeiro prisioneiro de Guantánamo a ser libertado desde que o presidente dos EUA, Barack Obama, chegou ao poder e prometeu fechar a prisão da base americana.Claramente abatido e magro, Mohamed disse que não tinha capacidade física ou mental para falar com a imprensa, mas divulgou um comunicado por meio de seus advogados no qual criticava Washington pela maneira com a qual foi tratado nos últimos anos."Eu tive uma experiência que nunca pensei que teria nem em meus mais sombrios pesadelos", afirmou em nota. "Antes dessa penosa provação, ?tortura? era uma palavra abstrata para mim. Eu nunca imaginei que poderia servítima dela. É muito difícil acreditar que fui sequestrado, transportado de uma país para outro e torturado de maneira medieval - tudo orquestrado pelo governo dos Estados Unidos."Mohamed foi preso em abril de 2002 em Karachi, no Paquistão, depois de tentar usar um passaporte falso para voltar para a Grã-Bretanha. Ele afirma que por três meses foi torturado por agentes paquistaneses que o mantiveram pendurado durante uma semana com seus pulsos amarrados.Durante esse tempo, ele afirma que teria sido interrogado por pelo menos um agente do serviço secreto britânico.O ex-preso diz que foi entregue às autoridades americanas em julho de 2002 e foi então enviado para uma prisão secreta da CIA no Marrocos, onde foi torturado por 18 meses. Depois, ele teria sido enviado para o Afeganistão antes de chegar a Guantánamo em setembro de 2004. Segundo Mohamed, ele teve seus genitais cortados com um bisturi e foi vítima das técnicas de simulação de afogamento. O governo do Marrocos negou as acusações e os EUA também rejeitaram as declarações do ex-detento. No entanto, a Procuradoria-Geral da Grã-Bretanha disse que vai investigar a suposta colaboração de seus agentes de inteligência no processo de detenção do etíope.

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