TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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No primeiro dia de venda, uruguaios esgotam maconha em Montevidéu

Nem mesmo o frio de 10°C impediu as filas nas quatro farmácias credenciadas da capital; Uruguai é o primeiro país do mundo a legalizar a produção e a comercialização da droga com o objetivo de enfrentar o narcotráfico e a violência

Murillo Ferrari Enviado Especial / Montevidéu, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2017 | 15h04

MONTEVIDÉU - Os uruguaios enfrentaram nesta quarta-feira, 19, longas filas, um frio de 10ºC e algumas falhas na leitura das impressões digitais para comprar pela primeira vez maconha em 16 farmácias do país. No fim da tarde, o estoque da erva tinha acabado em todos os quatro pontos credenciados de Montevidéu.

No interior, apenas um dos estabelecimentos vendeu toda sua cota. Fontes ligadas às farmácia ouvidas pelo jornal El País disseram que esperam receber o novo lote do produto entre amanhã e segunda-feira. O governo uruguaio não se posicionou sobre o assunto. 

Não é possível afirmar se a droga produzida por duas empresas escolhidas em licitação terá ampla adoção, uma vez que o nível de THC – principal componente psicoativo da droga –, é inferior ao da erva vendida no mercado negro.

Alguns compradores ouvidos pelo Estado descreveram a maconha uruguaia como “muito boa”. Outros, como o jovem Martín Pavarela, de 20 anos, disse que era “fraca”. “Fumei a variação beta (o Estado fornece também o tipo alfa), que tem mais efeito. Normalmente, se consumo a mesma quantidade de outras origens, ficaria mais louco, mas agora estou bem”, disse Pavarela.

“Vou consumir a oferecida nas farmácias, mas ainda não vou descartar a que compro ilegalmente”, completou, ressaltando que o preço e a garantia de origem são fatores que ajudam a optar pela maconha legal.

Em Montevidéu, onde estão 60% dos quase 5 mil usuários registrados para comprar a droga, apenas 4 estabelecimentos oferecem o serviço. Em alguns desses estabelecimentos, os compradores enfrentaram até uma hora de espera para serem atendidos, mas cada vez que uma pessoa que deixava a farmácia com seus 5 ou 10 gramas – o máximo permitido semanalmente – todos na fila se alegravam e se cumprimentavam. Até mesmo alguns carros que passavam pela rua buzinavam.

"O Uruguai é um exemplo para os países que ainda não legalizaram este tipo de mercado, que não permitem ou não regularizam o consumo e a venda da maconha”, afirmou o enfermeiro Pablo Díaz, de 38 anos, após comprar um pacote de maconha no centro da cidade. “Agora, podemos vir e comprar com segurança, não temos o risco do narcotráfico. É isso que eu quero para todo o planeta, porque não faz sentido uma pessoa morrer por consumir maconha.”

A estudante Camila Berro, de 24 anos, é uma das defensoras da venda legal como  forma de combater o tráfico. “Temos algumas formas diferentes de maconha, que dependem de como elas foram cultivadas. A que o governo está vendendo é mais uma variedade, com o diferencial de que por ser legalizada sabemos exatamente o que estamos consumindo”, disse.

Nesta quarta-feira, a reportagem questionou se a Junta Nacional de Drogas (JND), órgão vinculado à presidência do Uruguai, tinha uma avaliação do primeiro dia de comercialização de maconha legalizada. A JND informou que não tinha nada a declarar, mas informou que “monitorou o funcionamento do sistema” e garantiu que o Instituto de Regulação e Controle da Cannabis (Ircca) fará uma “avaliação contínua”.

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