Olivia Harris/Reuters
Olivia Harris/Reuters

Primeiro-ministro britânico promete investigação sobre grampos telefônicos

O tabloide britânico News of the World, que pertence ao magnata Rupert Murdoch, grampeou telefones de 3 mil políticos, celebridades, membros da realeza, famílias de vítimas dos atentados de Londres e até de uma adolescente assassinada em 2002

, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2011 | 00h00

LONDRES

O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, pediu ontem a abertura de uma investigação sobre o escândalo de escutas ilegais que envolve o grupo de mídia News Corporation (News Corp.), do empresário australiano Rupert Murdoch. O tabloide britânico News of the World grampeou telefones de famílias de vítimas dos atentados de Londres, em 2005, e de uma adolescente após o desaparecimento dela, em 2002.

"Não estamos falando mais de políticos ou celebridades que tiveram seus telefones invadidos, mas sim de vítimas de assassinato, possíveis vítimas de terrorismo", disse Cameron. "O que ocorreu é absolutamente revoltante e acredito que todos se revoltariam com o que tem aparecido na TV." Cameron defendeu que a investigação seja feita somente após o fim dos trabalhos de apuração da polícia.

As denúncias sobre escutas ilegais voltaram à tona após afirmações de que um investigador contratado pelo jornal grampeou o celular de Milly Dowler, jovem de 13 anos morta em 2002, enquanto a polícia investigava o desaparecimento dela.

Jornalistas chegaram a apagar a caixa postal do celular da jovem para receber novos recados, confundindo as investigações. A família e a polícia pensavam que a própria menina havia apagado as mensagens.

Segundo lista publicada no site do jornal The Guardian, entre os grampeados estão vítimas de estupro e soldados mortos na guerra, além de membros da família real, atores, políticos, esportistas, apresentadores de TV e outras celebridades.

Murdoch disse que as interceptações telefônicas são "deploráveis", mas que Rebekah Brooks, que era editora-chefe do News of the World na época do caso Milly Dowler, permanecerá no grupo como diretora executiva - cargo que ocupa atualmente.

Cameron sugeriu duas investigações: uma para avaliar a conduta do jornal e outra sobre o comportamento de policiais durante as investigações das escutas. O chefe da Scotland Yard, Paul Stephenson, admite que alguns policiais receberam suborno. Em 2003, a própria Rebekah - na ocasião diretora do tabloide The Sun - relatou os pagamentos em depoimento ao Parlamento.

Ontem, a Scotland Yard notificou as famílias das vítimas do atentado em Londres, em 2005. No início do ano, o ex-diretor de comunicações de Cameron, Andy Coulson, renunciou por causa de grampos realizados pelo News of the World quando ele era editor do diário. O líder da oposição trabalhista, Ed Miliband, acusou Cameron de cometer um "erro catastrófico" ao contratar Coulson e disse que a investigação deveria começar imediatamente, antes da conclusão da operação policial.

Prejuízos. Várias empresas anunciaram ontem o cancelamento dos anúncios no jornal. O tabloide dominical é o mais vendido na Grã-Bretanha, com uma circulação de quase 2,8 milhões de exemplares, e pertence ao mesmo grupo que a Dow Jones e o Wall Street Journal.

As ações do grupo caíram ontem mais de 4% na abertura da Bolsa de Nova York. O escândalo pode prejudicar a tentativa de Murdoch de comprar a rede de TV por satélite BskyB, transmissora de notícias e entretenimento. Essas negociações deveriam ser concluídas amanhã. / NYT

PARA ENTENDER

Em 2007, Clive Goodman, jornalista do News of the World, e o detetive particular Glenn Mulcaire foram presos por grampear celulares da família real britânica. O primeiro sinal das escutas ilegais foi uma reportagem afirmando que o príncipe William teria machucado o joelho - assunto particular. Dois anos e meio depois, denúncias da imprensa apontaram que repórteres do jornal estariam envolvidos na espionagem de mais de 3 mil celebridades e políticos. O escândalo, porém, chocou o público quando envolveu parentes de vítimas do atentado cometido pela Al-Qaeda em Londres, em 2005, as meninas Holly Wells e Jessica Chapman, que desapareceram em 2002, e o celular de uma adolescente morta em 2002.

PONTOS-CHAVE

Civis, políticos e a família real na mira

Milly Dowler

A adolescente de 13 anos foi sequestrada em 2002. Seu celular foi grampeado e as mensagens apagadas em busca de mais informações sobre o desaparecimento

Tony Blair

Ex-primeiro-ministro, seu vice, John Prescott, e o ex-ministro do Interior Jack Straw estão na lista de políticos vigiados pelo jornal britânico

Kate Middleton

A duquesa de Cambridge teve as conversas telefônicas grampeadas nos dias anteriores ao casamento com o príncipe William

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