EFE/Ettore Ferrari
EFE/Ettore Ferrari

Primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte renuncia ao cargo

Medida abre caminho para a formação de um novo governo no país; Liga rompeu com M5S

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2019 | 11h31
Atualizado 20 de agosto de 2019 | 21h24

ROMA  -  A coalizão entre o Movimento Cinco Estrelas (M5S) e a Liga chegou ao fim nesta terça-feira na Itália com o legado de uma economia estagnada e endividada, em meio a políticas cada vez mais duras contra imigrantes. Esse cenário levou a oposição a negociar uma aliança improvável para impedir a antecipação de uma eleição que, pelo que indicam as pesquisas, seria favorável ao ministro do Interior, Matteo Salvini.

Ao apresentar sua renúncia, o premiê Giuseppe Conte, um independente apoiado pela Liga, criticou duramente Salvini, líder da legenda de extrema direita, acusando-o de tentar driblar o processo democrático para ampliar seus poderes, comparando-o tacitamente com o ditador fascista Benito Mussolini.

Caberá ao presidente italiano, Sergio Mattarella, consultar os partidos com bancada no Parlamento para definir se alguma legenda tem condições de formar uma nova coalizão ou se as eleições serão antecipadas. O M5S negocia desde segunda-feira uma aliança com o Partido Democrático, de centro-esquerda, cujo secretário é o ex-premiê Matteo Renzi. 

 

Segundo a imprensa italiana, o Forza Italia, do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, pode se juntar à coalizão por temer que um resultado ruim em uma nova eleição coloque seu partido abaixo da cláusula de barreira. 

“O ministro do Interior prioriza seus interesses pessoais por oportunismo político”, acusou Conte, com Salvini ao seu lado na tribuna do Senado. “Ele não respeita as instituições democráticas e pretende jogar o país num abismo de instabilidade política e econômica.”

O ano de gestão da aliança entre a Liga e o M5S – que uniu a extrema direita ao nacionalismo populista – foi marcado pela estagnação econômica e o isolamento da Itália dentro da União Europeia.

O crescimento econômico foi nulo e o desemprego aumentou, especialmente entre os mais jovens. A dívida pública explodiu, chegou a 130%, num aumento que faria a Itália descumprir as regras econômicas da própria UE. Com Salvini como homem forte, o governo se concentrou em dificultar a chegada de imigrantes que atravessam o Mediterrâneo vindos da África e se aproximou da Rússia de Vladimir Putin e de outros líderes da direita populista europeia.

Salvini pede proteção da Virgem Maria 

No último ano, a popularidade de Salvini dobrou. Hoje ele é bem avaliado por 40% dos italianos. Esses números impulsionaram o ministro a romper a coalizão, em uma tentativa de antecipar as eleições e aumentar a força da Liga no Parlamento. 

O problema é que, segundo a Constituição italiana, a antecipação de uma eleição é vista apenas como um último recurso, não como um atalho para uma reconfiguração de forças políticas. 

Sentindo-se traído, o M5S aproximou-se do PD – a quem sempre criticou – para enfraquecer Salvini. 

“Fazer os cidadãos votar é a essência da democracia, mas pedir a eles que votem todos os anos é irresponsável”, disse Conte, que também chamou o político de extrema direita de oportunista. “O país precisa urgentemente de medidas para promover o crescimento econômico e o investimento.”

Ainda no cargo de ministro do Interior, Salvini respondeu com um discurso provocativo. “Temem perder as cadeiras com eleições antecipadas”, reagiu. O ministro do Interior prometeu oferecer um governo forte a seus aliados e pediu, como de costume, a proteção da Virgem Maria e de São João Paulo II”, com um terço nas mãos.

 

Reviravolta pode tirar extrema direita do poder na Itália

A disputa entre os dois antigos aliados deve ressuscitar politicamente dois personagens dados como acabados para a política italiana.

Além de Berlusconi – que conta com uma aliança entre o PD e o M5S para dar uma sobrevida ao seu partido –, o ex-premiê Matteo Renzi, ainda um articulador político importante no Parlamento, busca isolar Salvini e amenizar o antagonismo com o M5S, que venceu as eleições do ano passado com um discurso antiestablishment focado essencialmente no PD. 

Salvini, por seu lado, agora teme ter calculado mal sua estratégia. Temendo um revés caso o M5S feche a aliança com o PD, entrou em negociações para manter a coalizão, oferecendo ao líder da legenda populista, Luigi Di Maio, o posto de primeiro-ministro. / NYT, REUTERS e AFP

 

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