EFE/Mikhail Palinchak/POOL
EFE/Mikhail Palinchak/POOL

Primeiro-ministro da Turquia anuncia renúncia e agrava crise política no país

Decisão de Ahmet Davutoglu é uma resposta à tentativa do presidente Erdogan de reduzir os poderes do Parlamento e mover o país para um sistema mais presidencialista do que parlamentarista

O Estado de S. Paulo

05 Maio 2016 | 11h19

ANCARA - O primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, anunciou nesta quinta-feira, 5, sua renúncia e abriu caminho para o presidente Recep Tayyip Erdogan consolidar seu poder, apesar das reclamações de opositores por suas políticas linha-dura. “Decidi renunciar ao meu cargo”, afirmou Davutoglu após uma reunião com líderes do partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), legenda islamista e conservadora, que governa o país desde 2002. 

A decisão do premiê marca mais um passo de Erdogan para reduzir os poderes do Parlamento, reforçar a autoridade presidencial e encaminhar a Turquia para a adoção de um sistema mais presidencialista que parlamentarista.

Davutoglu informou que não se apresentará como candidato para presidir o AKP e negou qualquer tipo de conflito com Erdogan. “De minha boca jamais saiu qualquer palavra negativa sobre nosso presidente e jamais vai sair”, afirmou o chefe de governo demissionário à imprensa.

Os estatutos do AKP preveem que o chefe de governo também seja o presidente do partido. Isso significa que Davutoglu pode abandonar as funções de primeiro-ministro apenas se não revalidar seu cargo à frente da legenda.

O primeiro-ministro reuniu-se, na noite de quarta-feira, durante mais de uma hora e meia com Erdogan. O encontro foi crucial para a decisão de renúncia, depois das divergências que se intensificaram entre os dois políticos nas últimas semanas.

Convenção. O governo de Erdogan tem adotado medidas duras contra oponentes políticos e processado jornalistas e artistas por “insultos ao presidente”. Segundo o jornal americano Washington Post, Davutoglu não estava de acordo com algumas das medidas tomadas.

Uma convenção do AKP para substituir Davutoglu, que se tornou primeiro-ministro em 2014, será realizado no dia 22, segundo a imprensa local. O analista Abdülkadir Selvi afirmou que Davutoglu não deve apresentar sua candidatura à presidência do AKP durante o evento.

“A convenção deve se reunir antes do fim do mês do Ramadã (que começa em 6 de junho). Em relação ao primeiro-ministro, Ahmet Davutoglu, ele não apresentará sua candidatura e, nesse sentido, perderá seu cargo”, disse Selvi à CNN.

A saída de Davutoglu mergulha o país, que é membro da Otan, na incerteza política em um momento que a Europa precisa da ajuda de Ancara para lidar com uma crise imigratória e Washington necessita de apoio para combater o Estado Islâmico na Síria e no Iraque.

Futuro. O primeiro-ministro liderou as discussões com líderes da União Europeia (UE) para fechar um acordo que estabelecesse o retorno de imigrantes “econômicos” para a Turquia em troca de ajuda financeira e da isenção de vistos para cidadãos turcos viajarem a países do bloco. 

O governo turco, em troca, também enviaria refugiados sírios que estão acampados em seu território para países da UE. “Daqui por diante, a única pauta da Turquia é o sistema presidencialista e uma eleição antecipada”, disse Mehmet Ali Kulat, dirigente do instituto de pesquisa Mak Danismanlik, que é visto como próximo de Erdogan e prevê uma votação em outubro ou novembro. 

Entre os possíveis sucessores de Davutoglu, dois ministros aparecem como favoritos: Binali Yildirim, ligado a Erdogan e atual ministro dos Transportes, e Berat Albayrak, ministro da Energia e genro do chefe de Estado. / AFP, REUTERS e WASHINGTON POST

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.