Ebrahim Noroozi/ AP
Ebrahim Noroozi/ AP

Primeiro-ministro iraquiano teme 'guerra devastadora' em seu país

Adel Abdel Mahdi fala em agressão contra o Iraque enquanto o presidente do país, Barham Saleh, pede 'moderação'; nos EUA, democratas condenam atitude de Trump

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2020 | 11h09

O ataque dos Estados Unidos que matou o  general iraniano Qassim Suleimani nesta quinta-feira, 3, aumentou o temor citado por vários analistas há alguns meses: que o território do Iraque se transforme em um campo de batalha indireto para Irã e Estados Unidos. 

O presidente iraquiano Barham Saleh pediu "moderação" a todos, enquanto vários comandantes pró-Irã pediram aos combatentes que "estejam preparados" para responder ao ataque americano.

O primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdel Mahdi, teme que o ataque provoque uma "guerra devastadora no Iraque". "É uma agressão contra o Iraque, seu Estado, seu governo e seu povo", afirmou Abdel Mahdi em um comunicado, ao mesmo tempo que o influente líder xiita iraquiano Moqtada Sadr anunciou a reativação de sua milícia anti-EUA, o Exército de Mehdi, e ordenou que seus combatentes fiquem preparados.

O grande aiatolá Ali Sistani, figura tutelar da política iraquiana, considerou o ataque americano "injustificável", enquanto seu representante na cidade sagrada xiita de Kerbala leu o sermão que denunciou "uma violação flagrante da soberania iraquiana". Centenas de fiéis gritaram "Não aos Estados Unidos".

Há vários anos o Iraque se encontra no meio do fogo cruzado entre seus dois grandes aliados: Estados Unidos e Irã.

Em 2003, ao derrubar o regime de Saddam Hussein, Washington passou a controlar as questões iraquianas. Mas Teerã e o movimento pró-Irã se infiltraram no sistema aplicado pelos americanos. 

As forças pró-Teerã acumularam um arsenal graças ao Irã, mas também ao longo de anos de combate junto com os americanos, em particular contra o Estado Islâmico.

Washington respondeu à ação contra sua embaixada, que fica no centro da ultraprotegida Zona Verde de Bagdá, assim como a semanas de ataques com foguetes contra seus diplomatas e soldados.

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"Os serviços de inteligência americanos seguiam Qasem (Soleimani) há muitos anos, mas nunca apertaram o gatilho. Ele sabia, mas não calculou até que ponto suas ameaças de criar outra crise de reféns na embaixada (em Bagdá) mudaria as coisas", explicou à AFP Ramzy Mardini, do 'Institut of Peace', recordando o trauma provocado nos Estados Unidos pela tomada de reféns na representação diplomática americana em Teerã em 1979.

"Trump mudou as regras ao eliminá-lo", disse.

Divisão política nos EUA

As consequências do assassinato de uma das figuras mais populares do Irã provocaram preocupação nos Estados Unidos e uma nova divisão entre democratas e republicanos, que apoiaram o ataque, a menos de um ano das eleições presidenciais nos Estados Unidos.

O Congresso americano não foi informado com antecedências sobre o ataque. Este bombardeio ameaça provocar "uma perigosa escalada da violência", advertiu a presidente da Câmara de Representantes, a democrata Nancy Pelosi.

O senador Bernie Sanders, pré-candidato do partido Democrata às eleições de 2020, condenou publicamente o ataque de Donald Trump, através de sua conta oficial no Twitter. "Quando eu votei contra a guerra do Iraque em 2002, temi que isso levasse a uma maior desestabilização daquela região. Esse medo infelizmente provou-se verdadeiro. Os EUA já perderam aproximadamente 4.500 soldados, dezenas de milhares foram feridos e nós gastamos trilhões [de dólares]", escreveu.

"A escalação perigosa de Trump nos deixa mais próximos de uma guerra desastrosa no Oriente Médio, que pode nos custar incontáveis vidas e mais trilhões de dólares. Trump prometeu terminar guerras intermináveis, mas essa ação nos coloca na direção de mais uma."

Joe Biden, vice-presidente de Barack Obama e também candidato democrata às eleições de 2020, publicou uma nota oficial em suas redes sobre o ataque, afirmando que o general Suleimani "apoiava o terror e o caos" e "merecia ser entregue à Justiça", mas que a estratégia de Trump "deve ser explicada ao povo norte-americano". 

"[...] O Irã certamente irá responder. Nós podemos estar à margem de um enorme conflito no Oriente Médio. Espero que essa administração tenha pensado nas consequências de segunda e terceira ordens do caminho que ela escolheu. Mas temo que ela não tenha demonstrado em nenhuma atitude a disciplina ou a visão de longo prazo necessária - e o risco não poderia ser maior."

O tom do pronunciamento de Biden foi similar ao da senadora democrata Elizabeth Warren, que também condenou as ações do general Suleimani, mas discordou da atitude tomada pelo atual presidente norte-americano. "Nossa prioridade deve ser evitar mais uma guerra custosa", escreveu.

   

Economia responde a conflito

As principais Bolsas do mundo operavam em queda nesta sexta-feira, enquanto as cotações do petróleo registravam alta.

O petróleo iraniano está submetido a sanções americanas e a crescente influência de Teerã no Iraque, o segundo maior produtor da Opep, gera o temor entre os especialistas de um isolamento diplomático e de sanções políticas e econômicas

Na praça Tahrir de Bagdá, epicentro dos protestos contra o governo e seu aliado Irã que abalam o país há mais de três meses, dezenas de iraquianos celebraram a morte do general Soleimani. O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, compartilhou um vídeo no Twitter de pessoas "dançando pela liberdade". / AFP

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