Primeiro-ministro japonês renuncia

Shinzo Abe deixa cargo desgastado por derrota eleitoral, escândalos de corrupção e rumores de sonegação fiscal

REUTERS, AP, AFP E NYT, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2013 | 00h00

Tóquio - O primeiro-ministro do Japão, o conservador Shinzo Abe, renunciou ontem, um ano após chegar ao poder, deixando a segunda maior potência econômica do mundo envolvida numa grave crise política. Abe, de 52 anos, foi o primeiro-ministro mais jovem do Japão desde o final da 2ª Guerra. Ele também deixou a chefia do Partido Liberal Democrático (PLD). O partido de direita se reunirá na quarta-feira para designar um substituto, que será nomeado primeiro-ministro pelo Parlamento. Abe permanecerá no cargo até que o sucessor seja escolhido.Funcionários de alto escalão do governo disseram que problemas de saúde pesaram na decisão de Abe. Mas a repentina renúncia levou à especulação de que algo mais sinistro estaria por trás dela. Os assessores do premiê não quiseram comentar os rumores de que um tablóide publicará em breve uma denúncia de que Abe teria sonegado impostos. Apesar dos poucos detalhes sobre essa suspeita, alguns analistas estimam que o surgimento dela foi a principal causa da renúncia.Abe citou como razões da demissão a derrota eleitoral de julho - quando seu partido perdeu a maioria no Senado - e a recusa do líder da oposição, Ichiro Ozawa, em reunir-se com ele para discutir a ampliação da missão naval do Japão no Oceano Índico. A oposição havia planejado bloquear a lei que dava sinal verde à missão. Desde novembro de 2001 - sob uma lei especial antiterror -, a Marinha do Japão fornece combustível aos navios das forças de coalizão lideradas pelos EUA no Afeganistão.O conservador assumiu o cargo em setembro - prometendo mudar a Constituição pacifista do Japão - com índice de aprovação próximo de 70%, mas foi perdendo apoio popular por causa de uma série de escândalos e pelo fato de o governo ter perdido anos de registros da previdência social, prejudicando cerca de 50 milhões de pensionistas.Abe perdeu seu ministro da Reforma, acusado de fraude financeira. O ministro da Agricultura enforcou-se por estar ligado a um escândalo de financiamento de campanha eleitoral. O da Saúde causou constrangimento ao descrever as mulheres como "máquinas de fazer filhos". O da Defesa renunciou após sugerir que os ataques atômicos dos EUA contra o Japão em 1945 foram justificáveis. A da Agricultura demitiu-se após ser acusada de irregularidades financeiras e seu substituto deixou o cargo uma semana depois. Por fim, o chanceler japonês teve de desculpar-se por dizer que "até mesmo alguém com mal de Alzheimer saberia diferenciar o arroz japonês do chinês". O Alzheimer atinge geralmente os idosos. No Japão, 20% dos habitantes têm mais de 65 anos.Abe reorganizou o gabinete no mês passado, na esperança de reconquistar apoio popular. Mas uma pesquisa divulgada na terça-feira indicou que ele tinha apenas 30% de aprovação, uma queda de 14 pontos porcentuais em relação a agosto.O anúncio da demissão, no entanto, surpreendeu membros de seu partido e do gabinete. "Compreendi que uma decisão rápida era necessária e um adiamento causaria confusão política", disse Abe num pronunciamento pela TV. "Encontro-me incapaz de manter minhas promessas. Tornei-me um obstáculo à concretização dessas promessas." O atual secretário-geral do PLD, o ex-chanceler Taro Aso, de 66 anos, é o favorito para suceder a Abe. Representante da ala mais conservadora do PLD, ele defende um Japão mais poderoso militar e politicamente, e é conhecido por suas gafes. Aso é neto de Shigeru Yoshida, que foi premiê do Japão de 1946 a 1954 e negociou o acordo de paz que encerrou a 2ª Guerra.

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