Primeiros solavancos

Hoje é feriado nacional na França, o aniversário da jornada de 14 de julho de 1789, na qual a população parisiense tomou a prisão da Bastilha, o símbolo do absolutismo, e deu início ao "baile magnífico e sangrento" da Revolução Francesa, que só se encerraria dez anos mais tarde, graças a Napoleão Bonaparte.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2012 | 03h04

Neste dia, tradicionalmente os presidentes concediam uma grande entrevista à TV. Nicolas Sarkozy, o presidente anterior, suprimiu o costume e com razão: ele, que falava o tempo todo, sobre tudo, finalmente nos deixou um pouco em paz nesta data. Seu sucessor, François Hollande, que não é dado a discursos, restabeleceu a tradição.

Hoje, por volta do meio-dia, ele falará à televisão.

Esta será uma entrevista importante. Hollande ainda não é muito conhecido. Está na presidência há apenas algumas semanas, mas negras tempestades já se aproximam. Aliás, a França já enfrenta uma grande tempestade.

Ontem, ouvimos o estrondo do primeiro trovão, a notícia repentina de que a montadora Peugeot fechará as portas de algumas de suas fábricas e cortará 8 mil postos de trabalho (com os empregos dos setores a elas relacionados, o total chegará a cerca de 20 mil). Mais "planos sociais" drásticos, foram anunciados em toda a indústria francesa.

É certo que o novo poder socialista nada tem a ver com essas demissões catastróficas. Trata-se de uma herança do período anterior. Nem sequer podemos dizer que a culpa é de Sarkozy. Infelizmente, a doença é mais antiga, mais grave: a França (assim como uma parte da Europa, com exceção da Alemanha), outrora uma grande nação industrial, não suporta mais a concorrência feroz do restante do mundo.

E, diante do desastre, os socialistas são obrigados a admitir sua impotência. Embora falassem incessantemente de sua "política voluntarista", de sua recusa a ceder às frias leis do mercado, agora nada podem. Estão de mãos atadas, impotentes. Não dispõem do menor instrumento, da menor alavanca para dobrar a Peugeot e conjurar a eliminação desses 8 mil empregos.

A França é um sistema liberal. Felizmente, ela não se tornará de repente, como por um passe de mágica, uma economia marxista, ou simplesmente intervencionista, a fim de fazer com que os "cruéis" capitalistas da Peugeot voltem atrás em sua decisão.

O poder socialista se limitará, portanto, a assistir ao desmantelamento do seu parque industrial (já bem massacrado), a deplorar e doará alguma ajuda às populações e às regiões maltratadas.

É a primeira dura prova para François Hollande. Até agora, ele vinha se saindo bem: nas negociações a respeito da zona do euro agiu com agudeza e clareza, e obteve de madame Merkel propostas inteligentes sobre vários pontos. Sua calma, seus silêncios e sua simplicidade agradaram muito aos franceses que estavam cansados da excitação ininterrupta de Sarkozy.

A única desafinação de Hollande foi obra de sua companheira, Valérie Trierweiler, a nova primeira-dama da França, que atacou com um tuíte inacreditável a mulher que a precedeu no coração de Hollande, a ex-dele, Ségolène Royal, grande personagem do Partido Socialista, que foi candidata à presidência em 2007.

A grotesca "guerra de damas" colocou Hollande numa posição desagradável. Ele não reagiu, consciente de que encontrar o ponto de equilíbrio seria um exercício acrobático de enorme perigo.

Mas não poderá se esconder eternamente no silêncio. Daqui a pouco, na entrevista que dará por ocasião do 14 de julho, ele será obrigado a "descer do muro". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA  É CORRESPONDENTE EM PARIS

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