Principal fonte sobre armas de Saddam admite ter mentido

Ao ''Guardian'', desertor iraquiano conta como municiou Casa Branca com informações falsas sobre arsenal de Bagdá

, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2011 | 00h00

BERLIM

A principal fonte usada por serviços de espionagem ocidentais para justificar a invasão do Iraque, em 2003, assumiu ontem ter mentido sobre a existência de armas de destruição em massa de Saddam Hussein.

Em entrevista a The Guardian, o engenheiro químico iraquiano Rafid al-Janabi - conhecido por espiões pelo codinome "Curveball" - admitiu ter ludibriado europeus e americanos com a esperança de ver o fim da ditadura de Saddam. Janabi disse ter inventado histórias de caminhões-tanque com armas químicas e fábricas clandestinas, ainda em 2000, para dois anos depois vê-las serem usadas pela Casa Branca na ONU para "provar" a existência do arsenal iraquiano.

"Talvez eu estivesse certo, talvez não. Tive a oportunidade de inventar alguma coisa para derrubar o regime (iraquiano). Eu e meus filhos estamos orgulhosos por termos sido o motivo pelo qual o Iraque se tornou uma democracia", disse o engenheiro, que desertou em 1995.

A admissão vem à tona no nono aniversário do célebre discurso do secretário de Estado Colin Powell no Conselho de Segurança da ONU, no qual ele exibiu fotos e gravações para provar a existência do programa secreto de Saddam. Na semana passada, o secretário de Defesa dos EUA à época, Donald Rumsfeld, publicou suas memórias e voltou a defender a invasão de 2003.

Janabi desertou para a Alemanha e aceitou "revelar" o que sabia ao serviço de inteligência de Berlim, o BND, em 2000. Espiões alemães acreditavam que ele havia sido treinado pelo regime de Saddam para desenvolver armas químicas. Embora Janabi trabalhasse como engenheiro do Exército, ele nunca havia tido contato com o programa clandestino de Saddam. Em troca do relato, o desertor e sua família receberam asilo na Alemanha.

"Eles ficavam me perguntando sobre mecanismos de filtro, como fazer detergente após uma reação. Qualquer engenheiro que trabalhou na área sabe explicar ou responder questões desse tipo", disse o iraquiano.

Ele afirma ter sido desmascarado ainda em 2000, quando agentes alemães e britânicos conseguiram falar, provavelmente em Dubai, com seu antigo chefe, Bassil Latif. O supervisor da Comissão de Indústria Militar do Iraque negou todas as histórias de caminhões-tanque com armas químicas e fábricas. Ao final, Janabi teria admitido aos interrogadores a falsificação.

Ele foi contatado novamente pela inteligência alemã em 2002 e novamente submetido a vários interrogatórios.

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