AFP PHOTO / NORBERTO DUARTE
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Principal foragido argentino é preso no Brasil

Detido em Foz do Iguaçu após 4 anos, com digitais raspadas, Pérez Corradi é chave na apuração de elo de kirchnerismo com narcotráfico

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

19 Junho 2016 | 19h30

O narcotraficante acusado de ser o maior responsável pelo aumento na venda de drogas sintéticas na Argentina durante o kirchnerismo foi preso neste domingo, 19, em Foz do Iguaçu, após quatro anos de fuga. Segundo o governo argentino, Ibar Pérez Corradi foi detido em uma operação conjunta das polícias brasileira e paraguaia e levado para Assunção, de onde será deportado. Procurado pela Interpol, ele tinha removido suas impressões digitais. 

A principal acusação contra o homem de 38 anos é planejar um triplo homicídio há oito anos contra três empresários farmacêuticos ligados ao tráfico de efedrina, usada na produção de drogas sintéticas. Sua prisão tem impacto político porque um executor do crime, Martín Lanatta, acusou no ano passado o último de gabinete de Cristina Kirchner, Aníbal Fernández, de ser o mandante. Pérez Corradi poderia confirmar ou não essa relação.

A conexão entre Fernández, número 2 do kirchnerismo na última fase do governo de Cristina Kirchner e o chamado “crime da efedrina” foi feita durante a campanha eleitoral do ano passado. Da prisão, Lanatta afirmou em entrevista ao Canal 13 ter levado à casa de Fernández pagamentos de US$ 2 milhões e US$ 3 milhões referentes à venda da droga. Em escutas sobre tráfico feitas na época, o elo no governo era apelidado de “A Morsa”. Fernández tem um espesso bigode.

A ligação do kirchnerista com o narcotráfico nunca foi provada, mas essa suspeita foi responsável direta pela sua derrota na disputa pelo governo da Província de Buenos Aires, onde estão 37% dos eleitores do país. A região, tradicional núcleo peronista, foi conquistada pela coalizão de centro-direita de Mauricio Macri. O resultado regional foi decisivo para a chegada de Macri ao poder no segundo turno contra o kirchnerista Daniel Scioli, que não se descolou da rejeição a Fernández.

A Argentina prevê benefício de delação premiada em episódios de narcotráfico – para casos de corrupção, uma lei começará a ser debatida na quarta-feira. “O crescimento do tráfico não poderia ter ocorrido no governo anterior sem a participação de autoridades. Se ele pode apontar para cima, tomara que o faça. Depende dele e da Justiça”, disse em entrevista a ministra da Segurança, Patricia Bullrich. 

Segundo o governo argentino, o preso tem contatos com os cartéis mexicanos de Sinaloa e Juárez. Detido pela polícia brasileira, ele foi imediatamente expulso e entregue à paraguaia. Em Assunção, foi indiciado só por falsificação de documentos, para facilitar sua extradição à Argentina. Até chegar a sua localização, o Paraguai destituiu a cúpula da polícia e deteve agentes que haviam garantido a ele documentos falsos.

Pérez Corradi havia morado em um condomínio de luxo no lado paraguaio da Tríplice fronteira e passado para o Brasil depois que sua última identidade falsa foi descoberta. Ele estava em um apartamento com a mãe de seus dois últimos filhos.

Carlos Boitman, advogado do traficante, negou que ele seja o autor do crime e mostrou-se aliviado em entrevista ao canal TN, por temer que seu cliente fosse alvo de uma queima de arquivo. “Agora ele está sob custódia da Justiça e contará com mais proteção.”

Para Entender 

Se o traficante Ibar Pérez Corradi confirmar ligação com o ex-ministro kirchnerista Aníbal Fernández, o peso de Cristina Kirchner na oposição a Mauricio Macri diminuirá mais. Na semana passada, um ex-funcionário dela foi preso ao tentar esconder US$ 8,9 milhões num convento.

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