EFE/Jane Rosenberg
EFE/Jane Rosenberg

'Príncipe' do Cartel de Sinaloa trai o pai ao testemunhar em julgamento de 'El Chapo'

Vicente Zambada falou à Justiça americana por mais de cinco horas sobre quase todos os aspectos do império de narcotráfico do grupo, como rotas de contrabando, esquemas de lavagem de dinheiro e subornos

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2019 | 15h21

NOVA YORK - Além dos chefes que comandavam a organização, provavelmente ninguém sabe mais sobre o Cartel de Sinaloa que Vicente Zambada Niebla. Fiho de Ismael Zambada García, um dos líderes do cartel, desde cedo Vicente foi criado para liderar o grupo. 

Na quinta-feira, em uma reviravolta espetacular, o príncipe traiu seu pai ao testemunhar por mais de cinco horas sobre quase todos os aspectos do império de narcotráfico do grupo, como rotas de contrabando, esquemas de lavagem de dinheiro, subornos, violência e acerto de contas multimilionários. Zambada sabia praticamente de tudo que envolve a empreitada criminosa. 

Seu papel como testemunha ocorreu durante o julgamento do narcotraficante Joaquín Guzmán Loera, conhecido como El Chapo. Desde o início do julgamentom, em novembro, sete outras testemunhas que trabalharam com o capo testemunharam perante o júri, mas nenhum deu tantos detalhes sobre o quartel quanto Zambada. 

Vestido com um uniforme de presidiário azul-marinho, o herdeiro do cartel entrou no Tribunal Federal do Brooklyn na manhã da quinta-feira, 3, e encarou Guzmán com um sorriso confiante. Então começou a contar as histórias de como o Chapo e seu pai enviaram toneladas de drogas para os Estados Unidos escondidas em carros, aviões e até em submarinos. 

O orçamento do cartel destinado para propinas chegava a US$ 1 milhão por mês. Só um general do Exército mexicano que estava na folha de pagamento do grupo ganhava US$ 50 mil mensais. Entre os subornados, estava um militar que serviu na guarda pessoal do ex-presidente Vicente Fox. 

O depoimento do príncipe do cartel ainda detalhou como Guzmán organizou seus negócios, além das operações de narcotráfico no México, Honduras e em Belize, bem como fornecedores, distribuidores, guarda-costas e capangas.

 O pai de Zambada ainda está na lista de criminosos mais procurados da DEA, a agência antidroga dos Estados Unidos. O filho começou a acompanhá-lo ainda adolescente nas reuniões do cartel. Tudo mudou em 2009, no entanto, quando Zambada foi preso em uma operação na Cidade do México e extraditado para os Estados Unidos. No início, cogitava-se que ele seria processado por narcotráfico. Mas antes do jugamento do Chapo veio a bomba. Zambada trabalhou por anos como agente duplo para a DEA. 

Enquanto autoridades americanas reconheceram que Zambada se reuniu com agentes federais, negaram que tenha havido qualquer acordo de redução de pena com ele. O juiz federal Brian Cogan rejeitou mencionar qualquer detalhe da cooperação no julgamento. 

Zambada declarou-se culpado de narcotráfico em um procedimento secreto em Chicago em 2013. Desde então, ele esperou o julgamento de Chapo Guzmán para contar o que sabe.

Foi o que ele fez na quinta-feira, detalhando um dos planos para libertar Guzmán da cadeia. Ele também contou como em 2007 se reuniu com diretores da estatal petrolífera mexicana Pemex para discutir o envio de 100 toneladas de cocaína em cargueiros da companhia. O foco do testemunho, no entanto, era  seu pai.

“O que seu pai faz para viver”, perguntaram-lhe os promotores. Zambada respondeu: “Ele é um dos líderes do Cartel de Sinaloa.”/ NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.