Bandar AL-JALOUD / Saudi Royal Palace
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Príncipe herdeiro saudita agora diz que assassinato de jornalista foi hediondo

Mohammed bin Salman, que no início do caso alegava que Khashoggi deixou consulado em Istambul vivo, afirma que o incidente é doloroso para 'todos os sauditas'

O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2018 | 15h33

RIAD - O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, descreveu nesta quarta-feira, 24, como "incidente hediondo" o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi. Essa foi sua primeira reação pública a este caso, que provocou um clamor internacional e prejudicou a imagem do reino saudita.

Falando em um fórum internacional de investimentos em Riad, o herdeiro do trono do maior exportador mundial de petróleo também disse que "a justiça prevalecerá" nesse caso e "não haverá ruptura de laços com a Turquia". 

Jamal Khashoggi foi morto no consulado saudita em Istambul em 2 de outubro. No início, o reino alegava que Khashoggi havia deixado o consulado vivo. Depois de negar sua morte, Riad, sob crescente pressão internacional, apresentou várias versões evocando primeiramente uma "briga" que terminou mal e depois alegando que o assassinato foi cometido durante uma operação "não autorizada", sobre a qual o príncipe herdeiro, considerado o homem forte do reino, não fora informado.

Mas as explicações sauditas não convenceram, e os ocidentais, céticos, exigiram uma investigação "crível e transparente". "O incidente é muito doloroso para todos os sauditas. É um incidente hediondo e totalmente injustificável", declarou Salman, de 33 anos, em sua primeira intervenção pública desde o assassinato do opositor, descrito como "assassinato político" pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

"Muitos estão tentando explorar o caso Khashoggi para criar um antagonismo entre Arábia Saudita e Turquia, mas eles não terão sucesso", acrescentou o príncipe herdeiro, que conversou por telefone nesta quarta-feira com Erdogan.

Fórum ofuscado

A imprensa turca publicou detalhes macabros do assassinato do jornalista saudita, que colaborava com o jornal americano Washington Post. Mas, enquanto os meios de comunicação e as autoridades turcas anônimas apontaram o envolvimento de Mohammed bin Salman no crime, Erdogan não o acusou diretamente. 

Riad anunciou prisões e demissões, incluindo dentro dos serviços de Inteligência, e garantiu que todos os envolvidos no assassinato serão responsabilizados.

Este foi o segundo dia do Future Investment Initiative (FII), fórum boicotado por líderes políticos e empresários ocidentais depois do caso Khashoggi.

Apesar dos anúncios, concertos e buffets, este fórum que termina na quinta-feira, com a intenção de projetar internacionalmente o reino como um lucrativo destino de negócios, foi totalmente ofuscado do ponto de vista econômico pelas consequências políticas da crise do assassinato do jornalista.

Os organizadores sauditas do FII esforçaram-se, contudo, para mostrar que os negócios continuam, anunciando em particular 12 "mega-projetos" no valor de mais de US$ 50 bilhões nos setores de petróleo, gás e infraestruturas.

'Não acabou'

Numa primeira medida de retaliação pelo assassinato, os Estados Unidos anunciaram que irão revogar vistos de suspeitos - 21 sauditas que já não têm o direito de solicitar um.

A Grã-Bretanha fez o mesmo, anunciando o cancelamento de qualquer possível visto para o Reino Unido, mantido pelos suspeitos do assassinato de Khashoggi.

Aliado próximo de Riad, o presidente americano Donald Trump disse na terça-feira que a operação saudita de dissimulação foi "uma das piores da história", foi um "fiasco total". 

Entrevistado pelo Wall Street Journal sobre o possível envolvimento do príncipe no assassinato de Jamal Khashoggi, ele lembrou que o príncipe herdeiro "está no comando" dos assuntos correntes na Arábia Saudita. "Então, se alguém estiver envolvido, deve ser ele".

Na Turquia, a agência de notícias estatal Anadolu afirmou que as autoridades sauditas não permitiram que investigadores turcos inspecionassem um poço no jardim do consulado da Arábia Saudita em Istambul.

Essa nova informação vazada pela imprensa local é revelada durante as operações das autoridades turcas que ainda procuram o corpo do jornalista assassinado.

Os serviços de Inteligência de Ancara também compartilharam com a diretora da CIA, Gina Haspel, elementos chamados de "evidências", de acordo com o jornal turco Sabah

Erdogan afirmou que seu país está "determinado a não deixar que este crime seja varrido para debaixo do tapete e não deixará ninguém escapar à justiça". / AFP

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