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Príncipe ou presidente?

Macron recebeu vários apelidos, mas o mais ridículo foi o que ele mesmo se deu

Gilles Lapouge, CORRESPONDENTE / PARIS*, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2017 | 05h00

O presidente Emmanuel Macron decidiu falar aos franceses. E como ele aprecia a solenidade, a liturgia, o ritual e o cerimonial, decidiu dizer a seu “povo” quem é e o que deseja, e se dirigir ao país de um dos locais mais representativos da história francesa: o Palácio de Versalhes, um dos mais belos monumentos do mundo e também um dos mais impressionantes, pois foi fundado pelo grande Rei, Louis XIV (século 17 e 18), à época em que o rei da França era também quase o rei da Terra.

Portanto, ontem, 900 parlamentares (deputados e senadores reunidos) se deslocaram para Versalhes para ouvir suas palavras. Esse discurso à nação foi bem aceito pela maioria dos parlamentares, sobretudo os do partido Republicanos em Movimento (criado por Macron). Mas alguns, sobretudo da extrema esquerda (Mélenchon e os comunistas) boicotaram a reunião, recusando-se a ir a Versalhes. E em outros partidos (a direita clássica e a esquerda socialista) foram muitos que criticaram a iniciativa.

Macron discursou durante uma hora. Só. Ninguém ousou responder. A palavra “augusta” chega ao povo. Depois dela, o silêncio. Circunstância agravante: foi a vez do primeiro-ministro de Macron, Edouard Philippe, anunciar, diante da Assembleia Nacional, (em Paris, não Versalhes), o plano de trabalho do seu governo, com um debate em seguida.

Nova salva de críticas: Macron adiantou-se ao seu primeiro ministro. Ele o desvalorizou e humilhou, reduzindo-o ao papel de simples executante do pensamento soberano que é o seu. O premiê é uma espécie de “mecânico”, um técnico de grau superior, um datilógrafo aperfeiçoado que coloca em ação as ideias do chefe.

Acho essa objeção injusta. Em primeiro lugar, há algumas semanas entendemos que o primeiro-ministro não é grande coisa e o presidente Macron é tudo. Neste sentido, esses dois dias consagrados, o primeiro “à palavra” do presidente e o segundo ao “murmúrio” do primeiro-ministro, têm lógica. O presidente estabelece a direção, o primeiro-ministro se acerta com sua tripulação e seu barco para atingir o objetivo. Lógico: o rei é o rei, o primeiro-ministro é o seu colaborador.

Os oponentes de Macron denunciam essa personalização extrema do poder, esse método de governo que, sem violar a Constituição e tampouco os princípios da democracia, dá as costas a todos os governos que se sucederam na França desde 1958, com exceção do primeiro, o do general de Gaulle. Ele também reinava e exigia que seu primeiro ministro colocasse em prática suas ideias. Nessa época, isso era considerado natural; é verdade que de Gaulle era um herói da guerra, um personagem monumental, um dos “grandes” do seu tempo. Quanto a Macron, ele é um pouco inconsistente para retomar um papel tão amplo.

Desde que, por milagre ou extrema inteligência, chegou à presidência, a imprensa procura ridicularizá-lo com apelidos os mais mirabolantes. Já foi descrito como rei, ou como príncipe, até mesmo como Czar e até um faraó. Mas o mais estrondoso foi dado por ele próprio: “Sou um presidente Jupiteriano”, afirmou. Ninguém deu muita importância. Era tão ridículo. O termo foi interpretado como “algo engraçado, divertido”.

Na realidade vemos que no espírito de Macron a comparação tinha sentido: Júpiter reinou sobre o Olimpo, sobre os homens, os mares, as nuvens. Embora tivesse alguma dificuldade para colocar ordem dentro do próprio casamento, pois gostava muito de mulheres, o que provocava grandes tumultos no Monte Olimpo, assim mesmo detinha o poder supremo sobre as civilizações.

E conhecendo um pouco de mitologia, podemos afirmar que o “pequeno Júpiter”, Macron, é bem mais moderado que o “grande Júpiter” do Olimpo. Segundo o poeta romano Ovídio em “Metamorfoses”, eis alguns detalhes sobre o governo de Júpiter:

“Os Gigantes que conquistaram os céus foram vencidos por Júpiter. Este convoca a assembleia dos deuses e anuncia sua intenção de destruir o gênero humano. Está pronto para lançar seus raios contra todos os cantos da terra, mas por temor de incendiar todo o universo escolhe um castigo diferente: é sob as águas que ele destrói a raça dos homens”.

Como não apreciar a moderação de Macron que, embora adore o poder, jamais imaginou queimar o planeta ou afogar todos os seus habitantes?/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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