(Photo by Tolga Akmen / AFP)
Mulher tira uma foto de um aviso oficial anunciando a morte do príncipe Philip fixada nas grades do Palácio de Buckingham, no centro de Londres, em 9 de abril de 2021. (Photo by Tolga Akmen / AFP)

Mulher tira uma foto de um aviso oficial anunciando a morte do príncipe Philip fixada nas grades do Palácio de Buckingham, no centro de Londres, em 9 de abril de 2021. (Photo by Tolga Akmen / AFP)

Príncipe Philip ajudou a modernizar a monarquia britânica

Duque de Edimburgo, que ficou 74 anos casado com Elizabeth II, morreu aos 99 anos no Castelo de Windsor, nos arredores de Londres

Redação , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Mulher tira uma foto de um aviso oficial anunciando a morte do príncipe Philip fixada nas grades do Palácio de Buckingham, no centro de Londres, em 9 de abril de 2021. (Photo by Tolga Akmen / AFP)

LONDRES - O anúncio da morte do príncipe Philip - marido da rainha Elizabeth II e um militar que ajudou a modernizar a monarquia britânica - foi o retrato de um personagem histórico com um pé em cada século. Pela manhã, enquanto uma folha de papel com o comunicado oficial era afixada nos portões do Palácio de Buckingham, como manda a tradição, a mesma mensagem era publicada no Twitter. 

“É com profunda tristeza que Sua Majestade a rainha anuncia a morte de seu amado marido, Sua Alteza Real o príncipe Philip, duque de Edimburgo”, dizia o aviso colocado por duas funcionárias do palácio, vestidas de preto e com o rosto coberto por máscaras. “Philip morreu em paz esta manhã no Castelo de Windsor.”

Philip havia sido internado em fevereiro e se recuperava de uma infecção e de uma cirurgia cardíaca, no início de março. Nascido na ilha de Corfu, na Grécia, desempenhou papel fundamental em conduzir ao século 21 uma monarquia cheia de vícios do século 19.

Embora nunca tenha recebido oficialmente o título de “príncipe consorte”, Philip viveu uma vida dedicada aos deveres reais. Após o casamento, renunciou a sua promissora carreira naval e aceitou o papel de coadjuvante, que exigia dele andar sempre dois passos atrás de Elizabeth.

Biógrafos o descreveram como um homem dedicado à rainha, com quem permaneceu casado por 74 anos, mas que nunca se livrou de sua personalidade de macho alfa. Nos bastidores do palácio, expressava frustração por ter de desistir de sua carreira depois que Elizabeth foi coroada.

Quando se conheceram, Elizabeth tinha 13 anos. Philip, 18. Na época, ele era visto como um jovem carismático, uma lufada de ar fresco para a monarquia. Com o tempo, passou a ser o conselheiro que dava respostas honestas, diretas e fazia Elizabeth rir das formalidades palacianas.

Seu desempenho na linha de frente da coroa britânica, no entanto, foi cercado de gafes. Alguns comentários eram pouco polidos, como em uma visita à Tailândia, em 1991. “Seu país é um dos centros mais notórios do tráfico de espécies ameaçadas”, disse o príncipe, após aceitar um prêmio ambiental. Ou quando esteve nas Ilhas Cayman, em 1994. “Vocês não são todos descendentes de piratas?” Na Austrália, em 2002, ele deixou um líder aborígine chocado. “Vocês ainda jogam lanças uns nos outros?”

A rainha, publicamente uma esfinge, nunca deu pistas de como reagia aos comentários do marido em privado. Funcionários do palácio e biógrafos da realeza, porém, garantem que Elizabeth era fã do humor de Philip. “A tolerância pode não ser tão importante quando as coisas vão bem”, disse o príncipe, em discurso, em 1997. “Mas ela é vital quando as coisas vão mal. E você pode acreditar, a rainha tem tolerância em abundância.” 

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'Os holofotes se voltarão para William', diz pesquisadora especializada em monarquias

Para Elena Woodacre, historiadora na Universidade de Winchester, príncipe pode ser chamado a preencher um vazio se a rainha decidir participar de menos eventos por conta do luto

Entrevista com

Elena Woodacre, historiadora na Universidade de Winchester especializada em monarquias

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2021 | 05h00

O príncipe Philip teve atuação fundamental na condução das crises da família real, ao lado da rainha Elizabeth, mas tecnicamente sua morte não muda os papéis a serem exercidos daqui para frente. É o que diz Elena Woodacre, historiadora na Universidade de Winchester, especializada em monarquias. 

Por que Philip foi importante?

Philip foi o marido consorte mais longevo neste país. E essa longevidade dedicada aos serviços reais foi o que o tornou tão importante. Ele não tinha obrigação constitucional como marido da rainha, mas dedicou a vida à caridade e ao apoio à rainha. 

Qual é o impacto da morte dele para a família real?

Claro, a grande perda pessoal de um marido, pai, avô e bisavô. Mas, como ele já havia se afastado dos deveres reais nos últimos anos, o impacto será menor. No entanto, sua morte deixa cerca de 700 organizações das quais ele era patrono sem alguém importante.

A forma de a família real lidar com crises deve mudar?

Deve haver um impacto em como a família real lidará com as próximas crises, uma vez que Philip sempre se envolvia ao lado da rainha e tinha um papel importante nas dificuldades. Não ter suas opiniões, pode ter um impacto na família no futuro. 

A morte afeta o papel de Charles?

A morte do príncipe não afeta de forma direta o título do príncipe Charles, claro, mas o torna o homem mais velho da família real e isso lhe trará mais responsabilidades. Ele também pode ter de assumir o papel de patrono de algumas associações de caridade. Mas acredito que ele e outros membros da família já começaram a fazer isso quando Philip se afastou dos deveres reais.

O que muda para a rainha?

Tecnicamente, nada em termos de seu papel e posição. A rainha Vitória passou a maior parte de seu reinado sendo viúva, embora tenha se afastado por muito tempo do público após a morte do príncipe Albert. Ainda é incerto se a rainha vai se afastar dos deveres públicos.

Qual a importância do príncipe William agora? 

A morte de Philip não faz diferença para os papéis e títulos do restante da família. É a morte da rainha que fará isso. Mas William pode ser chamado a preencher um vazio se a rainha decidir participar de menos eventos por conta do luto. Os mais jovens da família assumiram mais protagonismo desde que Philip se aposentou e em razão da pandemia, já que a rainha não pode mais participar de tantos compromissos. Agora, os holofotes se voltarão mais para Charles e William.

 

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Britânicos enfrentam frio e lockdown para prestar última homenagem ao príncipe Philip

Em razão da pandemia de coronavírus, o comparecimento foi discreto; hotéis de Londres estão fechados e ninguém pode passar uma noite fora de casa sem um bom motivo

Mariana Hallal / Enviada Especial a Londres, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2021 | 05h00
Atualizado 12 de abril de 2021 | 09h30

LONDRES - Horas depois do anúncio da morte do príncipe Philip, alguns britânicos enfrentaram o frio e depositaram flores diante do Palácio de Buckingham. Em razão da pandemia de coronavírus, porém, o comparecimento foi discreto. Os hotéis de Londres estão fechados e ninguém pode passar uma noite fora de casa sem um bom motivo. 

Os poucos moradores de Londres que apareceram o fizeram porque apreciam a lealdade que o príncipe tinha pela rainha. Outros disseram que admiram o trabalho feito por ele no exército britânico. Mais um tanto foi ao palácio para registrar o momento e dividi-lo com quem não estava presencialmente.

Sem a multidão que costumava ser vista no local quando o país estava aberto ao turismo, o palácio estava mais quieto e os guardas escalados para organizar os visitantes quase não tiveram trabalho. O céu cinza, com jeito de chuva, completou o cenário fúnebre.

Wendy Keelen foi uma das londrinas que saiu de casa mesmo em meio à pandemia de coronavírus e ao lockdown para prestar as últimas homenagens ao príncipe. O plano de confinamento ainda está em vigor na Inglaterra, mas as pessoas já podem sair de casa por motivos não essenciais.

Wendy se diz grande fã da família real e está triste com os últimos acontecimentos envolvendo Harry e Megan. "Acho que esse é um ótimo momento para que eles fiquem juntos", disse. Ela admirava o príncipe pela sua autenticidade. "Ele era um homem muito controverso, mas falava o que vinha à mente."

Esta não é a primeira vez que ela presta homenagens a um membro da família real que morreu. Há 24 anos, quando Lady Di morreu, ela conta que ficou horas esperando na fila para prestar condolências - desta vez, esperou por menos de um minuto para depositar flores em frente ao Palácio de Buckingham.

Mãe e filha, Fay e Lauren Knight também sentiram a necessidade de homenagear príncipe Philip. "Admiro o que ele fez pelo nosso país. Ele esteve ao lado da rainha o tempo todo, era leal", disse Lauren. "Nós amamos a família real. Eles são a história do nosso país", completa.

Gus Wiseman também levou flores para homenagear Philip. Ele diz que o príncipe foi uma figura muito inspiradora. "Um grande homem. Ele tinha uma carreira militar e sacrificou tudo isso para ficar ao lado da rainha", falou. Wiseman está certo de que, se não fosse o coronavírus, a ocasião teria reunido muito mais gente. "É incrível que mesmo assim tenha centenas de flores aqui."

A britânica Frances House destacou a caridade e a lealdade como pontos fortes do príncipe. Entre um compromisso e outro, mesmo apressada, não deixou de comprar flores para depositar em frente ao palácio.

Londres é conhecida por ser uma cidade multicultural e, mesmo com as fronteiras fechadas, era possível ouvir pessoas falando diferentes idiomas. As italianas Francesca Quartana e Claudia Tapowto eram algumas delas. "Viemos porque a família real é muito importante. Eles cuidam do povo e não vemos isso na Itália", diz Francesca.

Já os brasileiros Anna Luiza Martins e Rimonny Neves foram até o palácio para registrar este "momento histórico", como definiram. "A gente veio prestar homenagem e ver o que iria acontecer", disse Anna Luiza. "Não é a morte de qualquer um. E é interessante ver o respeito que os britânicos têm com a realeza", definiu Rimonny.

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Príncipe Philip não era chamado de rei e sua morte não altera sucessão ao trono britânico

Segundo as leis do Reino Unido, apenas herdeiros recebem o mais alto título da monarquia, para evitar que a linhagem real passe para a família do homem

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 11h24

A morte, nesta sexta-feira, 9, do Príncipe Philip, aos 99 anos, depois de 74 anos de casamento com a rainha Elizabeth II, de 94, não altera a linha de sucessão ao trono britânico.

Mesmo casado com a rainha, Philip ocupava o cargo de consorte. Isso porque, segundo as leis do Reino Unido, apenas herdeiros recebem o mais alto título da monarquia, para evitar que a linhagem real passe para a família do homem. 

Para se casar, em 20 de novembro de 1947, Philip teve que renunciar aos títulos de nobreza anteriores e à sua religião ortodoxa, convertendo-se à Igreja Anglicana

A lei de sucessão britânica atualmente em vigor deriva das leis de sucessão na Inglaterra e Escócia. Tradicionalmente, a coroa é sucedida pelos filhos de um indivíduo e pela sua linha colateral mais próxima quando o indivíduo não tiver filhos.

A linha de sucessão ao trono é sempre determinada por descendência, legitimidade e religião. Anteriormente, casar-se com um católico excluía um indivíduo da sucessão, mas esse banimento foi abolido após 2015.

A última vez que houve uma mudança abrupta na linha de sucessão ocorreu em 1936, quando o rei Edward VIII, que queria se casar com a americana Wallis Simpson, divorciada, abdicou alguns meses em favor de seu irmão George VI, pai da atual rainha.

Quem encabeça a lista é o filho mais velho de Philip com a rainha Elizabeth II, o príncipe Charles, de 72 anos, seguido do filho mais velho de Charles com a princesa Diana, o príncipe William, de 38.

Depois deles, em terceiro lugar na linha de sucessão, vem o príncipe George, de 7 anos, filho de William com Kate Middleton. George é sucedido por sua irmã, Charlotte, de 5 anos. Em quinto e sexto lugar, respectivamente, estão o príncipe Louis, de 3 anos, terceiro filho de William e Kate, e o príncipe Andrew, de 61 anos, irmão de Charles e terceiro filho de Philip e Elizabeth.

 

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Príncipe Philip: o rei das declarações inoportunas e gafes reais

Marido da rainha Elizabeth, morto nesta sexta, rendeu manchetes para gerações de jornalistas britânicos com suas tiradas controversas e politicamente incorretas

Stephen Castle, The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 11h03

LONDRES — O príncipe Philip, consorte da rainha Elizabeth II, que morreu nesta sexta, aos 99 anos, construiu uma longa fama baseada em gafes causadas por sua língua afiada.

Considerado um produto da era do “stiff upper lip”, uma expressão idiomática do inglês que indica aquele se mantém firme e não demonstra as emoções, produziu, ao longo dos anos,  uma coleção notável de frases politicamente incorretas e às vezes ultrajantes.

Como ele mesmo descreveu, "a ciência de abrir a boca e falar coisas inadvertidamente é uma que eu pratico há muitos anos". Ele batizou, nos anos 1960, sua propensão a escandalizar os outros como "dontopodologia" — uma referência à expressão em inglês to put one's foot in one's mouth, que significa dizer algo inoportuno na hora errada.

Compilamos alguns exemplos aqui:

  • "Eu declaro que essa coisa está aberta, o que quer que ela seja"

(Em um visita oficial ao Canadá, em 1969)

  • "Todos estavam dizendo que nós devemos ter mais atividades de lazer. Agora estão reclamando que estão desempregados"

(Durante a recessão de 1981)

  • "Parece que foi construído por um indiano"

(Em 1999, sobre uma antiga caixa com fusíveis em uma fábrica na região de Edimburgo, na Escócia)

  • "Você é uma mulher, não é?"

(Ao receber um figurino de presente de uma mulher durante visita ao Quênia, em 1984)

  • "Surdos? Se vocês estão perto deles, não me surpreende que sejam surdos"

(A um grupo de jovens com deficiência auditiva em Cardiff, no País de Gales, referindo-se a uma banda escolar que tocava nas proximidades em 1999)

  • "Se vocês ficarem aqui por muito mais tempo, ficarão todos com os olhos puxados"

(Usando uma expressão considerada racista e xenofóbica na língua inglesa (slitty-eyed) durante uma conversa com estudantes britânicos que visitavam a China em 1986)

  • "Você conseguiu não ser comido, então?"

(Sugerindo, em 1998, a um estudante britânico que fazia trilhas na Papua Nova-Guiné que os povos locais eram canibais)

  • "Parece que você está pronto para dormir!

(Ao presidente da Nigéria, que estava vestido com trajes tradicionais de seu país)

  • "Então quem aqui está sob o efeito de drogas? Ele parece está sob o efeito de drogas"

(Em 2002 para um jovem de 14 anos que participava de um clube juvenil em Bangladesh)

  • "Ah, então essa aqui é a esquina feminista"

(A um grupo de deputadas do Partido Trabalhista durante uma festa no Palácio de Buckingham, em 2000)

  • "Vamos entrar no vermelho ano que vem. Eu provavelmente vou precisar parar de jogar pólo"

(Em 1969, referindo-se à fragilidade dal economia britânica na ocasião)

  • "Nós não viajamos para cá pela nossa saúde. Podemos pensar em outras maneiras de nos entreter"

 (Durante uma visita ao Canadá, um país da Commonwealth, em 1976)

  • "Como você mantém esses nativos longe da bebida por tempo suficiente para serem aprovados?

(Pergunta a um instrutor de direção na cidade de Oban, na Escócia, em 1995)

  • "Vocês ainda jogam flechas uns contra os outros?"

(Pergunta feita a aborígenes durante uma visita à Austrália)

  • "As Filipinas devem estar praticamente vazias. Vocês estão todos aqui fazendo o NHS funcionar"

(Comentário feito em conversa com uma enfermeira filipina durante visita a um hospital em Luton, referindo-se ao sistema de saúde público britânico).

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The Economist: A rainha fica sem o seu vassalo mais fiel

De origem alemã e nascido na Grécia, Philip abdicou de sua carreira militar para ser coadjuvante de Elizabeth

The Economist, The Economist

10 de abril de 2021 | 05h00

Suas mãos enormes e avermelhadas eram as primeiras coisas que você via. Nos pulsos, o relógio simples de pulseira de couro marrom e a pulseira de cobre que usava para aliviar o reumatismo que tanto atormentava seus últimos anos.  Moldadas pelos genes e pela vida, aquelas mãos, imensas feito patas de leão, por sua vez moldaram as pessoas ao seu redor: sua mulher, seus filhos, seus súditos.

Se Philip fosse o afável aristocrata inglês que o rei e a rainha teriam preferido para sua filha mais velha, Elizabeth, tudo teria sido diferente. Mas ele era um outsider. Quando se casou com sua prima de segundo grau, aos 26 anos, ele havia perdido praticamente todas as suas raízes: seu pai estava morto; sua mãe, depois de ter sofrido um colapso mental, havia se retirado para o seio de uma ordem religiosa. Vestiu um hábito cinza até o fim da vida. Três de suas quatro irmãs se casaram com nazistas, nenhuma foi bem-vinda ao casamento real na Abadia de Westminster, logo após o fim da guerra.

Nessa época, Philip também tinha perdido seu direito de primogenitura, sua casa, seu nome, sua nacionalidade, sua igreja. Até mesmo seu aniversário – fixado primeiro no calendário juliano e, depois, no gregoriano – não era mais o mesmo. O século 20 desafiaria a monarquia britânica com divórcio, democracia e desdém. Mas o homem que segurava seu futuro nas mãos tinha o gosto de um imigrante pela tradição.

Ele foi para o Reino Unido por acidente. Nascera em 1921 na Ilha de Corfu. Seu pai, filho do rei da Grécia, tinha origem dinamarquesa e russa. Seu avô materno crescera na Áustria e na Alemanha e se tornara britânico. Ainda criança, Philip foi carregado a bordo de um navio dentro de uma caixa de laranjas quando sua família foi banida da Grécia. Até seus 10 anos de idade, viveram no exílio em St. Cloud, um frondoso subúrbio de Paris.

Sua família alemã queria que ele fosse criado na Alemanha e o mandou para a escola que haviam fundado em Schloss Salem, em Baden-Württemberg. Mas a ascensão de Hitler ao poder acabou com esses planos: o diretor judeu, Kurt Hahn, foi forçado a fugir para a Escócia, onde fundou uma nova escola, a Gordonstoun, com uma filosofia franca e o lema: “Há mais em você (do que você pensa)”. Quando menino, Philip costumava ser travesso, ainda que nunca desagradável. Desenvolveu um forte senso de dever público, além do gosto pela velocidade. Logo aprendeu a velejar, muitas vezes recebendo o trabalho de cozinheiro, pois parecia imune ao enjoo.

Aos 18 anos, seguiu para o Dartmouth Naval College, no sul da Inglaterra, onde foi eleito o melhor cadete. Quando a 2.ª Guerra estourou, naquele mesmo ano, navegou para Colombo, no Sri Lanka, e se juntou a um pesado navio de guerra que escoltava comboios australianos com destino ao Egito. A bordo, Philip passava algum tempo preenchendo os Formulários do Almirantado 519 e o diário para uso de oficiais juniores, um volume de encadernação robusta com contracapas de papel marmorizado. 

As entradas revelam uma paixão pelas tecnicalidades e certa rebeldia na ortografia. Os aliados de Hitler no Eixo são consistentemente chamados de “italienos”; boias viram “buóias”; há também muitos “errros” e “excessões”. No frontispício, ele assinou seu nome, Philip, Príncipe da Grécia. Os homens o chamavam de Pog. À noite, era o “Cachorrinho do Capitão” e uma de suas funções era fazer o chocolate quente.

Somente após a invasão da Grécia pela Itália, em junho de 1940, Philip começou a ver um pouco de ação. E quando aconteceu, foi dramático. Seu navio, o HMS Valiant, esteve no centro da batalha que destruiu a Marinha italiana. Philip foi mencionado nos despachos e saiu da guerra como um dos mais jovens primeiros-tenentes. No Palácio de Buckingham, Elizabeth, a princesa adolescente, tinha em sua penteadeira uma fotografia do jovem oficial barbudo que servia na marinha de seu pai e era seu primo. Lembrava muito o avô dela, o Rei George V.

Tempos depois, sua equipe muitas vezes o descreveu como um “muro de arrimo”. Quando questionado por uma jornalista sobre rumores de uma agitada vida privada, nos anos 60, ele rosnou: “Meu Deus, mulher! Não sei com que tipo de companhia você anda.” Mas ele era bom de resolver as coisas: seu Duke of Edinburgh Award Scheme, programa de atividades para adolescentes, agora opera em mais de 130 países.

Na vida pública, sua função era andar dois passos atrás da mulher, tentando, nem sempre com sucesso, entrar nas conversas triviais. Na vida particular, tomava a iniciativa e instava a rainha a abrir as asas com as palavras: “Vamos lá, Lilibet”. Seu passaporte o apresentava como “Príncipe da Casa Real”, mas ele se via como um modernizador. Poucos dias depois de se mudar para o Palácio de Buckingham, deu início a uma “Revisão da Organização e Métodos”. Visitou cada uma das cerca de 600 salas e quartos do palácio e perguntou a cada membro do pessoal o que eles faziam lá e por quê.

Mais tarde, expandiu sua pesquisa. Seu gabinete no primeiro andar oferecia uma visão panorâmica para seus interesses. Em uma longa parede forrada de estantes de livros, via-se sua coleção de modelos de navios em caixas de vidro. Entre eles estavam os livros que haviam chamado sua atenção: sobre vida selvagem, antropologia, história, estratégia naval, navegação. Em um canto, as biografias que haviam sido escritas sobre ele.

E, em uma mesa perto da janela, uma série de fotos de família em preto e branco. Muitos parentes, mas nenhum filho, a não ser um grande retrato colorido da princesa Anne, tirado nos anos 70. Era a sua favorita dos quatro filhos, a que mais se parecia com ele. Seus filhos o exasperavam, sobretudo o sensível Charles, que ele mandou para Gordonstoun, mesmo sabendo que ele sofreria bullying.

O casamento deu ao jovem príncipe desenraizado uma casa, um país, um passaporte, uma nova religião e a primeira estabilidade de fato na vida. Em troca, o menino imigrante ofereceu todo o seu apoio. Philip foi o primeiro dos nobres a prestar homenagem após a coroação da rainha na Abadia de Westminster, onde haviam se casado pouco mais de cinco anos antes. 

“Eu, Philip, duque de Edimburgo, me torno seu vassalo de vida e na lida, com integridade e adoração terrena”, jurou ele, ajoelhando-se e colocando suas mãos imensas entre as dela. “Fé e verdade eu lhe trarei, para viver e morrer contra todo o tipo de gente. Que Deus me ajude.” Pondo-se de pé, ele tocou sua coroa com os dedos e beijou-lhe no rosto. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Príncipe Philip: cinco fatos pouco conhecidos sobre o duque de Edimburgo

Consorte fez sacrifícios pela rainha, era conhecido pelo seu amor por cavalos e pilotava aviões

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 17h37

LONDRES - O príncipe Philip, duque de Edimburgo, que passou 73 anos junto à rainha Elizabeth II da Inglaterra, era conhecido principalmente por declarações inoportunas, mas também era um fã da pintura e das corridas de carruagem de cavalos.

A seguir, cinco coisas pouco conhecidas sobre o príncipe consorte, que morreu nesta sexta-feira, 9, aos 99 anos.  

Sacrifícios pela rainha 

Philip teve que fazer vários sacrifícios para poder se casar em 1947 com a então princesa Elizabeth.

Ele renunciou ao seu título de príncipe da Grécia e Dinamarca para tomar a nacionalidade britânica e se transformar no duque de Edimburgo pouco antes de seu casamento, e para se tornar príncipe do Reino Unido em 1957.

Era de religião ortodoxa, mas aceitou abandoná-la para tornar-se anglicano e, para agradar sua companheira, parou de fumar. 

Após a morte do rei George VI, que levou sua jovem esposa ao trono em 1952, Philip teve que renunciar à sua promissora carreira como oficial da Royal Navy.

Ele teve que aceitar que a família real - portanto, os filhos do casal - não usasse seu sobrenome e sim o de sua esposa. Embora também desejasse ser visto como monarca, teve que se resignar a um eterno papel secundário, atrás de uma das mulheres mais famosas do mundo.

Sem modos?

Elizabeth II sempre o descreveu como sua "rocha" e seu "apoio", mas a família Windsor estava longe da satisfação quando a jovem princesa anunciou que queria se casar com ele.

Segundo o diplomata e escritor Sir Harold Nicolson, o rei George VI e sua esposa o achavam "grosseiro, mal educado e sem modos" e consideravam "que seria provavelmente infiel". Tentaram apresentar outros candidatos à filha, mais de acordo com o perfil que deseajavam. 

Nesse período após a Segunda Guerra, a aristocracia britânica sentia-se incomodada com os familiares alemães do príncipe. Suas quatro irmãs mais velhas, casadas com príncipes alemães próximos ao Reich, não foram convidadas ao seu casamento com Elizabeth. 

"Meu repolho"

O apelido carinhoso com o qual o príncipe se dirigia à sua esposa se tornou público em 2006 com o filme The Queen (A Rainha), de Stephen Frears, no qual, quando deita-se na cama, o príncipe diz a ela "mova-se, repolho".

"Perguntei nos círculos reais e me disseram de boa fonte que é assim que o duque às vezes chama a rainha", explicou o roteirista do filme, Peter Morgan, ao jornal The Times.

Este apelido carinhoso poderia vir de uma tradução literal da expressão francesa "mon petit chou" ("meu pequeno repolho", em tradução livre), já que Philip viveu sete anos na França durante sua infância.

Frio com Charles

As relações com seu filho mais velho, o príncipe Charles, "nunca foram especialmente calorosas" e chegaram ao seu nível mais baixo em 1995, segundo o jornal The Mail. 

Os dois homens declararam "guerra" após a decisão do duque de cortar 63 árvores de carvalho antigas no parque do castelo de Windsor. O príncipe Charles, ambientalista convencido, teria acusado seu pai de vandalismo, de acordo com o jornal.

Frequentemente descrito como um pai duro e frio, quando Charles era um menino jovem e sensível, ele decidiu enviá-lo ao rígido internato escocês de Gordonstoun, cujos rigores teriam endurecido o atlético Philip, mas acabaram sendo um verdadeiro inferno para seu filho. 

Cavaleiro, piloto e pintor

O duque de Edimburgo era conhecido pelo seu amor pelos cavalos e pelas atividades equestres como polo e as corridas de carruagem, um esporte no qual competiu para o Reino Unido. Também gostava de escrever, pilotar aviões e era um grande fã dos automóveis.

Já a paixão do príncipe pela pintura era menos conhecida. Colecionador de obras de arte, ele mesmo também pintava: sua obra mais famosa é um quadro de 1965 que retrata sua esposa lendo o jornal matinal e é intitulado A rainha no café da manhã, castelo de Windsor/AFP

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Monarquias e líderes mundiais homenageiam príncipe Philip; Bolsonaro envia condolências

Uma das primeiras monarquias a reagir foi a belga: 'A morte de sua Alteza Real, o príncipe Philip, Duque de Edimburgo, nos entristece profundamente', comunicaram o rei Philip e sua mulher, Mathilde

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 17h26
Atualizado 09 de abril de 2021 | 18h53

LONDRES - As monarquias e os principais líderes do mundo homenagearam nesta sexta-feira, 9, o príncipe Philip, duque de Edimburgo e marido da rainha Elizabeth II, que morreu  aos 99 anos. O Ministério das Relações Exteriores divulgou uma nota na noite desta sexta-feira afirmando que o presidente Jair Bolsonaro enviou mensagem de condolências à rainha. " O governo e o povo brasileiros solidarizam-se com a rainha Elizabeth II e o povo do Reino Unido neste momento de luto dos britânicos pela perda do Duque de Edimburgo."

Após o anúncio da morte, uma das primeiras monarquias a reagir foi a belga. "A morte de sua Alteza Real, o príncipe Philip, Duque de Edimburgo, nos entristece profundamente", comunicaram o rei Philip e sua mulher, Mathilde, que estenderam seu pêsames a toda família real e ao povo britânico.

Nos Estados Unidos, o presidente Joe Biden lembrou-se do príncipe Philip como um servo dedicado ao Reino Unido e seu povo. Falando com repórteres na Casa Branca, Biden disse que ele e sua mulher, Jill Biden, enviaram condolências à rainha Elizabeth II.

Três ex-presidentes americanos também prestaram suas homenagens. No Facebook, o ex-presidente Barack Obama o elogiou como alguém que assumiu com abnegação seu papel de marido da rainha. "Ao lado da rainha ou a seguindo nos habituais dois passos atrás, o Príncipe Philip mostrou ao mundo o que significa ser um marido que apoia uma mulher poderosa", afirmou.

Ao enviar sua mensagem, George W. Bush afirmou que Philip representou o Reino Unido "com dignidade" e Donald Trump disse que sua morte foi uma perda "insubstituível" para o Reino Unido. "Esta é uma perda insubstituível para o Reino Unido e para todos aqueles que prezam nossa civilização", disse ele.

O duque de Edimburgo prestou uma "longa vida de serviço ao seu país", afirmou o ministro das Relações Exteriores alemão, Heiko Maas

Philip de Edimburgo "era um homem de convicções e princípios", expressou o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau.Outro líder da Commonwealth britânica, o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, homenageou um homem que "encarnou uma geração que não voltaremos a ver".

O presidente russo, Vladimir Putin, desejou à rainha Elizabeth II "coragem e força mental diante desta perda dolorosa e irreparável". Putin enviou um telegrama à rainha, informou o Kremlin, no qual lembrou que "muitos acontecimentos importantes na história moderna de seu país estão associados ao nome de sua Alteza Real".

O duque de Edimburgo foi o consorte real que ficou por mais tempo na história da coroa britânica e uma presença constante à sombra da rainha Elizabeth II. "Por mais de setenta anos, ele ofereceu seus serviços à Coroa (...) com dedicação exemplar", lembrou o presidente italiano, Sergio Mattarella.

O ministro das Relações Exteriores checo, Tomas Petricek, optou por ressaltar a grande projeção da monarquia britânica em todo o mundo, herança de seu passado imperial. "Incluindo uma tribo do arquipélago de Vanuatu o adora como um deus. Um dos símbolos da monarquia britânica moderna se foi. Descanse em paz", afirmou.

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, enviou suas condolências ao primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. "Nossos pensamentos e simpatia vão para a Família Real britânica", considerou. 

"O príncipe Philip fará muita falta em Israel e no mundo", disse o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu.

Na América Latina, antes da nota do governo brasileiro, um dos primeiros a reagir foi o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador. "Meus pêsames aos parentes, amigos e ao Reino Unido pela morte do príncipe Philip", desejou.

Em Cuba, o chanceler Bruno Rodríguez também comunicou suas "muito sentidas condolências à Sua Majestade Elizabeth II, Sua Alteza o príncipe Charles, à família real e ao povo e governo britânicos"./Com AFP

 

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‘Morte de Philip retoma a discussão sobre uma geração que está saindo do poder’; leia a entrevista

Para professora de relações internacionais Carolina Pavese, o impacto da morte do marido da rainha é mais simbólico e funções dele já eram divididas entre integrantes da família real

Entrevista com

Carolina Pavese, professora de relações internacionais da ESPM

Fernanda Simas , O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 15h24

A morte do príncipe Philip nesta sexta-feira, 9, levantou dúvidas sobre como ficará a estabilidade da família real em meio ao mais recente escândalo da entrevista do príncipe Harry e sua mulher, Meghan Markle, à apresentadora americana Oprah Winfrey e num momento de oscilação do apoio da população britânica à monarquia. 

Para a professora de relações internacionais da ESPM Carolina Pavese, o impacto é mais simbólico do que prático, já que a função de construir o apoio à monarquia com outros países já vinha sendo desempenhada por outros integrantes da família, como o príncipe Charles e o príncipe William. Além disso, segundo Pavese, a rainha Elizabeth II continua detendo o papel principal de sustentação da família. 

Qual é o principal impacto da morte do príncipe Philip para o equilíbrio da família real nesse momento?

Ele já estava fora de atuação há alguns anos, quando abdicou de tarefas públicas em 2017, e tinha a saúde mais debilitada, então ele já não estava sendo esse pilar da família nesses últimos anos. Ele não tinha a mesma lucidez da rainha nesses últimos anos. Continuou sendo uma figura respeitada na família para manter a união, mas as interferências diretas dele já eram poucas, pelo menos do que se sabe. Esse papel é muito desempenhado pela rainha, ela continua sendo o elo da família real com a monarquia britânica. Há um grande respeito da sociedade britânica pela figura da rainha por tudo que ela representa.

Philip tinha um papel importante de apoio à rainha. Como fica esse ponto? 

Essa é uma questão simbólica de gêneros. Uma mulher que assumiu o cargo mais importante dentre as monarquias que ainda existem ainda muito jovem e que vai ter o Philip como braço direito, mas que está atrás dela, literalmente. Quando ela assume o trono é solicitado que ele caminhe sempre atrás dela, o que causou um desconforto para ele na época. Mas é simbólico, para mostrar que quem está no comando é ela e para não ofuscar esse destaque enquanto mulher no poder e imagine isso nos anos 40.

Se ele estivesse ao lado dela, figurativamente falando, muito provavelmente iriam dizer que ele também estava na liderança máxima. E isso é interessante, a história da realeza britânica é marcada pela presença de mulheres muito fortes. A rainha ainda é uma figura de capacidade diplomática boa, uma interlocutora boa, carismática, é bem vista pela sociedade britânica. A morte do Philip retoma a discussão sobre uma geração que está saindo do poder e como será a monarquia na próxima geração e quais desafios vai enfrentar. Em breve, vamos ver o príncipe Charles como figura máxima dessa monarquia e ele não dispõe do mesmo carisma, do mesmo apoio popular.

Essa questão justifica o fato de Philip nunca ter tido o título de rei?

Sim, ele sempre foi o consorte. Ele nunca iria substituir a rainha, nem se ela morresse antes. Ele tinha o papel de marido que vem atrás da mulher na função pública. No núcleo familiar era uma relação mais tradicional. O suplente é o sangue. Ele era o 'outsider'.

E é possível medir o impacto de sua morte nesse núcleo?

Acho que não. É o impacto de se perder o patriarca, mas ele já tinha a saúde muito debilitada, então a participação dele mesmo no eixo familiar era mais pontual, restrita e simbólica nesse final. No começo foi diferente, ele até foi uma pessoa que não tinha muitos freios morais, falava tudo que pensava mesmo que fosse um escândalo. Para o eixo familiar é a perda de um patriarca importante, que mantinha a imagem de família grande.

Charles deve ter mais protagonismo agora?

O príncipe Philip cumpria todas as funções protocolares, de cerimonial, de relações públicas da coroa com a sociedade britânica e com outros países. Ele auxiliou muito a rainha em manter firme as relações internacionais. A legitimidade da família real é também encontrada em outros países, então eles precisam do reconhecimento externo para reforçar a importância de, no século 21, ainda termos uma monarquia em uma das principais democracias do mundo, das principais economias do mundo. O Charles também executa esse papel, por isso há tantas viagens. 

Esse papel de fortalecer a monarquia externamente passa a ser do Charles ou dividido entre integrantes da família real?

Tem sido dividido. Temos o Charles que assumia vários desses compromissos, o príncipe William também assumiu essa agenda e, pelo pouco tempo em que estiveram na realeza, o príncipe Harry e a Meghan também. Sempre que há uma viagem real há essa intenção por trás, de fortalecer os vínculos da Coroa com outros países. A escala de quem vai para esses compromissos é alternada. Agora, o Charles sempre foi visto como o filho e não o líder, sempre ficou em segundo plano e cumpriu esse papel de filho numa relação bem hierárquica. Vai ser interessante acompanhar como as pessoas vão se relacionar com uma pessoa que se colocou em segundo plano e agora começa a assumir protagonismo. Ele não é visto como uma figura forte o suficiente. 

E como fica a imagem do príncipe William nesse contexto?

William é mais popular. E aí você entra numa questão importante quando se fala da estabilidade da monarquia que é a geracional. A maioria da população britânica, mais ou menos 62%, é a favor da monarquia. Entre as pessoas com mais de 65 anos, esse número sobe para 85% e entre o grupo mais jovem, cai para 42%. Isso significa que as gerações que estão vindo são muito mais céticas sobre a monarquia, não é um apoio incondicional. Essa renovação exije que a Coroa se inove também. Há uma crise geracional e aí entra o papel importante de William e Kate, são jovens, são populares, e falam com essas novas gerações. Desde o casamento do William, ele vem sendo colocado mais à frente desses papéis, mais do que o pai. As pessoas acompanham a vida dele e dos filhos e o que garante parte desse apoio à família real é a sensação de pertencimento, de manter a identidade britânica.

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