Luke MacGregor / Bloomberg
Luke MacGregor / Bloomberg

Príncipe saudita disse a Trump por telefone que jornalista assassinado era ‘islamista perigoso’

Segundo o ‘Washington Post’, ligação aconteceu depois do desaparecimento de Jamal Khashoggi e antes de Riad reconhecer seu assassinato; para assessor da presidência turca, o corpo dele foi desmembrado para ser ‘dissolvido’ com mais facilidade

O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2018 | 09h36

ANCARA - O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohamed bin Salman, afirmou ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que Jamal Khashoggi era um "islamista perigoso", dias depois do seu desaparecimento. O corpo do jornalista saudita, segundo um assessor da presidência turca, foi desmembrado para ser "dissolvido" com mais facilidade.

No telefonema entre Trump e o príncipe também participaram o assessor de segurança nacional dos EUA, John Bolton, e o genro de Trump, Jared Kushner, segundo informou nesta quinta-feira, 1.º, o jornal The Washington Post.

De acordo com a publicação, que cita fontes que sabiam da ligação, esta aconteceu depois do desaparecimento do jornalista no dia 2 de outubro e antes que a Arábia Saudita reconhecesse seu assassinato no dia 20.

Nela, Bin Salman tentou justificar a seus interlocutores que Khashoggi pertencia à Irmandade Muçulmana, e pediu a Kushner e a Bolton que Washington mantivesse sua forte aliança com Riad. Um funcionário saudita negou ao Washington Post que o príncipe saudita tenha feito estes comentários.

A família do jornalista, por sua vez, rejeitou a suposta tese do príncipe herdeiro. "Jamal Khashoggi não pertencia à Irmandade Muçulmana. Ele negou estas acusações repetidamente ao longo dos últimos anos”, disse em comunicado. "Jamal Khashoggi não era de nenhuma maneira uma pessoa perigosa. Afirmar o contrário seria ridículo.”

Corpo desmembrado e dissolvido

O corpo de Khashoggi foi desmembrado para ser "dissolvido" com mais facilidade, afirmou Yasin Aktay, assessor do presidente turco Recep Tayyip Erdogan, em entrevista ao jornal Hürriyet.

"Não se conformaram em desmembrá-lo, eles se livraram do corpo dissolvendo-o ", disse ele. "Segundo as últimas informações que temos, a razão pela qual desmembraram o corpo foi para dissolvê-lo mais facilmente.”

O jornalista Jamal Khashoggi, que era colaborador do Washington Post, foi assassinado no consulado da Arábia Saudita em Istambul, onde compareceu para obter uma certidão necessária para seu casamento.

Depois de afirmar em um primeiro momento que Khashoggi havia deixado o consulado pouco depois de entrar no local, Riad anunciou que ele morreu durante uma briga, antes de finalmente reconhecer que o ato foi uma "operação não autorizada" pelo regime saudita.

A Procuradoria de Istambul afirmou em um comunicado publicado na quarta-feira que a vítima foi esquartejada e que os executores se livraram do corpo. Uma fonte do governo turco afirmou ao Washington Post que as autoridades examinam a hipótese de dissolução do corpo com ácido no consulado ou na residência do cônsul.

"Queriam assegurar que não ficaria nenhum rastro do corpo", disse Aktay, que tinha boas relações com Khashoggi. "Todos os locais para os quais nos levam as câmeras de segurança foram examinados e não encontramos o cadáver”, ressaltou ele. "Matar uma pessoa inocente é um crime. O que fizeram com o corpo é outro crime e uma vergonha.” / EFE e AFP

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