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Príncipe saudita usa coerção para obter bilhões

Empresários e membros da família real presos em operação anticorrupção deram bens e dinheiro para serem libertados

O Estado de S.Paulo

13 Março 2018 | 05h00

Empresários que antes eram considerados os gigantes da economia saudita têm agora seus movimentos controlados por tornozeleiras. Príncipes que comandaram forças militares estão agora sendo monitorados por guardas sobre os quais não têm controle. Famílias que viajavam em jatinhos particulares já não têm acesso a suas contas bancárias.

Tudo isso é resultado da ampla “operação anticorrupção” lançada em novembro pelo governo saudita, que deteve centenas de empresários influentes – muitos deles membros da família real – no Hotel Ritz-Carlton, em Riad. Muitos acabaram sendo libertados, mas só após pagar grandes somas em dinheiro ou em bens – a título de “multa”. Por isso, os empresários e príncipes sauditas vivem um clima de medo.

O arquiteto da operação foi o príncipe Mohamed bin Salman, que se prepara para ir aos EUA este mês em busca de investidores e se apresenta como um reformista: prometeu liberdades às mulheres, entre elas o direito de dirigir, quer expandir as oportunidades de entretenimento no reino e está encorajando investimento externos. 

No entanto, durante os meses de cativeiro, muitos foram alvo de coerção e violência física, disseram testemunhas. Nos primeiros dias da operação, pelo menos 17 detidos foram hospitalizados por abusos. Um deles, o general Ali al-Qhatani, da Guarda Nacional, morreu enquanto estava preso. Uma pessoa que viu o corpo disse que seu pescoço estava virado de um jeito incomum, como se tivesse sido quebrado, e seu corpo apresentava sinais de tortura. Um médico disse, sob condição de anonimato, que Qhatani tinha marcas de queimaduras que pareciam choques elétricos. O governo nega a acusação.

O general não era uma pessoa rica, por isso sua prisão é questionável. No entanto, ele era o principal assessor do príncipe Turki bin Abdullah, filho do rei Abdullah, morto em 2015, e ex-governador de Riad. Aparentemente, ele teria sido pressionado a revelar alguma informação sobre o chefe.

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De forma geral, os principais alvos da operação foram os príncipes ligados ao rei Abdullah, vistos como potenciais rivais do rei Salman, que assumiu o trono em 2015.

Após sua morte, Abdullah deixou bilhões de dólares para sua fundação e seus 30 filhos – US$ 340 milhões para cada filho e US$ 200 milhões para cada filha. E o príncipe Salman está tentando recuperar esse dinheiro, que acredita ter sido desviado, de acordo com fontes.

Autoridades disseram, em janeiro, que 56 pessoas ainda estavam presas. Os que foram libertados não estão realmente livres, pois não podem sair do país e aguardam o momento em que o governo tomará seus bens, cujos direitos cederam quando estavam presos no Ritz. / NYT

 

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