Prioridade é retomar laços com vizinhos

Próximo governo deve normalizar relações deterioradas com Equador e Venezuela Santos. Criticado na região

Renata Miranda, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

Uma das tarefas mais difíceis do próximo governo colombiano será recuperar as relações de Bogotá com os governos dos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e do Equador, Rafael Correa.

Enquanto Antanas Mockus teria a chance de começar do zero com os colegas da região, o governista Juan Manuel Santos teria de superar o passado turbulento com os vizinhos, causado por ações comandadas por ele enquanto foi ministro da Defesa.

Foi Santos quem, em março de 2008, ordenou o ataque contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) no Equador. A ação, na qual foi morto o guerrilheiro Raúl Reyes, então número dois no comando do grupo, quase terminou em guerra com Quito, que foi prontamente apoiado por Caracas.

Nos últimos dias, porém, o candidato tem se mostrado disposto a entregar para Correa o computador de Reyes, no qual foram encontrados uma série de documentos que acusavam Equador e Venezuela de envolvimento com a guerrilha.

Correa afirmou que a entrega do material é a peça que falta para a normalização dos vínculos com Bogotá. "Se essa é a condição proposta pelo presidente Correa para restabelecer e as relações, eu daria esse computador sem nenhum problema", disse Santos em um recente debate.

"A Colômbia ficou isolada na região durante o governo de Uribe por causa da difícil relação do presidente com os países vizinhos", afirmou ao Estado Claudia Dangond Gibsone, especialista em Relações Internacionais da Universidade Javeriana. "No entanto, acredito que, com um novo governo, os laços devem ser retomados porque tanto o Equador quanto a Colômbia estão cientes da importância das relações entre os dois países."

De acordo com ela, apesar do histórico entre Santos e Correa, o governista é o candidato que está mais preparado e apto para melhorar as relações com os países da região. A maior dificuldade estaria em lidar com Chávez. Santos disse que ele e o venezuelano são como "óleo e água" e Chávez afirmou que o governista é uma "ameaça" para a região.

Quando era ministro da Defesa, Santos assinou um pacto com os EUA que permitia um maior acesso às bases colombianas, medida que foi encarada por Chávez como uma provocação. Em retaliação ao acordo, o líder venezuelano afirmou que colocaria em prática uma série de normas para que as exportações para a Colômbia chegassem a zero.

Caracas é o segundo maior parceiro comercial de Bogotá depois de Washington e o congelamento das relações fez as exportações da Colômbia para este país caírem de US$ 7 bilhões para US$ 3,5 bilhões em um ano. Esse seria um dos fatores que limitaria o crescimento do PIB colombiano, que este ano deve ser de 2,5%, contra 4% da média esperada para a América Latina.

Mesmo assim, Santos insiste que os dois poderiam tentar superar as diferenças e trabalhar juntos. "Buscar a cooperação por vias diplomáticas e ter boas relações com todos os vizinhos são prioridades para mim", disse o governista na quinta-feira, durante o último debate antes da eleição. "É do interesse de todos termos boas relações."

Nova aliança política. Para o cientista político Manuel Salamanca, o novo governo deverá aproveitar o início do mandato para melhorar o relacionamento na região. "Durante a transição, as tensões estarão mais baixas, então é o momento perfeito para retomar os laços", disse Salamanca, ressaltando a importância que deve ser dada ao Brasil pelo próximo líder colombiano. "O Brasil é um país em que devemos ficar de olho porque é a principal potência da região."

De acordo com o analista, uma vitória de Santos poderia ser traduzida em uma aproximação da Colômbia com o Chile, governado desde o começo do ano por Sebastián Piñera, também de direita. "Colômbia e Chile seguem atualmente uma linha política mais à direita e, após a vitória de Piñera no início do ano, existe a possibilidade de uma nova aliança ideológica surgir na região."

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