Prisão de Abu Salim abrigava radicais islâmicos anti-Kadafi

Ex-prisioneiros relatam massacre de 1.269 companheiros, além de abusos e contaminação proposital com doenças

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI

A prisão de Abu Salim é o símbolo máximo do pavor imposto pelo regime de Muamar Kadafi. Lá eram trancafiados, torturados e mortos os críticos do regime. Um dos seus pátios foi o cenário do massacre de 1.269 presos numa só manhã, em 1996. Seus ex-prisioneiros, alguns soltos há cinco dias, depois da tomada de Trípoli pelos insurgentes, têm voltado para mostrar suas celas aos parentes. O Estado passou um dia com eles e constatou que o perfil do prisioneiro político líbio, nos últimos anos, era marcadamente islâmico.

Mustafa Dahmani conta que foi preso em 27 de julho de 1993, assim que voltou de sua peregrinação a Meca, na Arábia Saudita, quando tinha 28 anos. Um dos cinco deveres de todo muçulmano, a peregrinação era uma das muitas proibições de Kadafi, aparentemente por encarar a Arábia Saudita como rival regional. O ditador chegou a impor um novo calendário à Líbia, tendo como ano zero o nascimento de Maomé em vez da conquista de Meca. Dahmani ficou preso até agosto de 2001.

Em 1996, houve uma rebelião na prisão por melhores condições, como comida e tratamento médico para os doentes. Dois guardas foram feitos reféns. Um acabou morto. Funcionários do governo vieram negociar. Prometeram atender às reivindicações. Os presos amotinados concordaram em voltar para suas celas. Quando saíram para o pátio, na manhã seguinte, o complexo havia sido cercado por peças de artilharia. O pátio é coberto por um alambrado. Os guardas, incluindo Atiyah, um dos agentes que haviam sido tomados como reféns, subiram no alambrado e abriram fogo.

Dahmani estava numa ala com 270 presos que não se haviam rebelado. Ele conta que ouviram as rajadas e os gritos entre as 10 horas e as 12h30. "Eu não podia acreditar que estavam matando todo mundo", recorda. "Os guardas daqui não eram humanos."

Ele diz que em torno de 20 presos eram amontoados nas celas maiores, de 5 por 3 metros. Ele conta que, durante dois anos, ficou confinado, sem sair da cela. Recebia comida pela pequena janela na porta.

Hoje, Dahmani é professor de sharia, a lei islâmica, numa madrassa, ou escola religiosa. Sua profissão, sua barba e robe marrom indicam sua inclinação islâmica, mas ele diz gostar de Mustafa Abdel Jalil, o presidente do Conselho Nacional de Transição (CNT), considerado liberal demais pelos conservadores religiosos. O ex-preso afirma que não conhece o líder islâmico Abdel Hakim Belhadj, recém-nomeado chefe do Conselho Militar de Trípoli, por imposição dos fundamentalistas.

Militância. Já o caso de Tareq al-Fatah, solto de Abu Salim só depois da tomada de Trípoli pelos rebeldes, na semana passada, é diferente. Al-Fatah, que estava preso desde 1997, reconhece ter pertencido ao Movimento Combatente Islâmico, liderado por Belhadj. Considerado pela ONU uma organização terrorista e acusado de ligação com a Al-Qaeda, o grupo mudou de nome no início da rebelião, há seis meses, para Movimento Islâmico Líbio, e aliou-se ao CNT. Seus membros negam ligação com a Al-Qaeda.

Al-Fatah conta que havia cinco pessoas em sua cela, sem espaço para se mexerem. Eles fizeram um furo na parede, que dava para uma sala dos guardas. Com isso, podiam ouvir a televisão. O ex-dissidente relata que lhe inocularam na enfermaria da prisão hepatite C, doença sem cura.

Foi removido para uma outra prisão de Trípoli, Al-Nasser, e lá ficou seis meses sem luz e banheiro. "Foi o pior momento", lembra. Al-Fatah diz também que seus parentes foram atacados por kadafistas e "sofreram muito". O militante continua apoiando Belhadj e garante que seu grupo não tentará impor o Islã à força na Líbia: "Ele tem uma mente aberta em relação aos cidadãos de seu país. É um homem bom".

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