REUTERS/Alexander Bibik
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Prisão de executiva chinesa a pedido dos EUA amplia crise entre potências

Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei, foi presa no Canadá na mesma noite em que Donald Trump e Xi Jinping concordaram com trégua comercial; empresa teria violado as sanções comerciais impostas ao Irã

O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2018 | 19h55

VANCOUVER, CANADÁ - Uma executiva e filha do fundador da gigante tecnológica da China Huawei foi presa no sábado no Canadá a pedido dos EUA, em um movimento que pode aumentar as tensões entre os dois países que vivem um momento delicado. A empresa teria violado as sanções comerciais impostas ao Irã, mas analistas acreditam que suspeitas de espionagem também tenham pesado na decisão.

Há pelo menos dois anos a Huawei enfrenta o escrutínio dos EUA, que consideram a empresa uma ameaça à segurança do país. Alguns meses atrás, Washington expressou preocupação com o uso de produtos da Huawei por funcionários americanos de alto escalão, alegando risco de espionagem em razão dos laços estreitos da empresa com o governo chinês. Os EUA também tentaram persuadir outros países a restringir negócios com a Huawei. 

A prisão de Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei, ocorreu na mesma noite em que os presidentes Donald Trump, dos EUA, e Xi Jinping, da China, concordaram com uma trégua comercial de 90 dias. O assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, disse nesta quinta-feira, 6, que sabia da prisão de Meng, mas não tinha certeza se o presidente Trump havia sido informado.

Meng, que está na Huawei desde 1993, e é vice-presidente da empresa, foi levada sob custódia em Vancouver, no sábado, segundo Ian McLeod, porta-voz do Departamento de Justiça do Canadá. Ele disse que Meng é “procurada” pelos EUA, que haviam feito aos canadenses um pedido de extradição. No entanto, McLeod não deu uma razão para a prisão. Uma audiência de fiança foi marcada para esta sexta-feira, 7.

A Huawei, maior fabricante de equipamentos de telecomunicações da China, está sendo investigada pelo Departamento de Justiça dos EUA por suposta violação de controles comerciais americanos em países como Cuba, Irã, Sudão e Síria. Este ano, o Departamento do Tesouro dos EUA também pediu ao Departamento de Justiça que investigasse a Huawei por violar as sanções econômicas contra o Irã.

Julian Ku, professor da Hofstra University Law School, escreveu no Twitter que a prisão era justificável. “A lei dos EUA proíbe as exportações de certas tecnologias de origem americana para certos países”, afirmou. “Quando a Huawei paga para licenciar certa tecnologia dos EUA, promete não exportá-la para lugares como o Irã. Portanto, não é descabido para os EUA punir a Huawei.”

Além da guerra comercial travada desde que Trump assumiu a presidência, os EUA e a China competem pela supremacia no setor de alta tecnologia. Embora os americanos tenham uma vantagem, as empresas chinesas de internet, fabricantes de semicondutores e de equipamentos de telecomunicações, crescem com rapidez.

Recentemente, Trump vinculou a segurança nacional dos EUA ao avanço em tecnologias. Em março, Trump bloqueou uma oferta de US$ 117 bilhões da Broadcom pela fabricante de chips Qualcomm, citando preocupações ligadas à segurança do país. Um mês depois, o Departamento de Comércio proibiu a ZTE, segunda maior fabricante de equipamentos de telecomunicações da China, de usar componentes fabricados nos EUA. As autoridades federais americanas disseram que a ZTE havia violado sanções impostas pelos EUA

“A prisão de um membro da família ligado ao fundador da Huawei indica como a tensão entre os dois lados está aumentando rapidamente”, disse T.J. Pempel, professor de ciências políticas da Universidade Berkeley, especializado em Leste Asiático.

Evolução. Na última década, a Huawei se tornou uma potência. Fundada em 1987 por Ren Zhengfei, ex-engenheiro do Exército Popular de Libertação e com laços estreitos com o Partido Comunista, a empresa obteve mais de US$ 90 bilhões em receita em 2017. 

Seus equipamentos são a espinha dorsal das redes móveis em todo o mundo e seus smartphones são populares na Europa e na China – o que tornou a empresa um símbolo da evolução tecnológica chinesa no mundo. / NYT e W.POST

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