Prisão de opositor antecipa processo de eleição para Legislativo venezuelano

A prisão do prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, antecipou a disputa eleitoral para renovar o Parlamento venezuelano. No dia da detenção, o presidente Nicolás Maduro disse que as eleições poderiam ser antecipadas para julho. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) ainda não marcou data exata, mas a previsão original do governo era para o fim do ano.

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2015 | 02h02

Ontem, o advogado de Ledezma, Omar Estacio, afirmou que recorrerá da decisão judicial, que indiciou o prefeito por conspiração, e deve apresentar a primeira apelação no início da semana. "Me sinto muito confiante de que a Justiça venezuelana corrigirá isso."

Na sexta-feira, a coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) protocolou a inscrição para as primárias que definirão seus candidatos na eleição, fixando a data em 3 de maio.

Segundo analistas consultados pelo Estado, a decisão de Maduro de prender um opositor democraticamente eleito é ao mesmo tempo uma demonstração de força do chavista e uma maneira de tentar assustar e dividir a MUD, além de desviar o foco dos graves problemas econômicos da Venezuela.

Com baixa popularidade - de acordo com a última pesquisa do instituto Datanálisis, 22,5% dos venezuelanos aprovam o governo -, Maduro é visto por muitos dentro e fora do chavismo como um presidente frágil.

A cientista política Margarita López Maya, da Universidade Central da Venezuela (UCV), vê na detenção de Ledezma uma oportunidade de Maduro se fortalecer perante sua base de apoio. "A prisão do prefeito está inserida em uma estratégia de Maduro que busca manter coesas as bases chavistas com vistas à eleição parlamentar. Ele precisa mostrar uma prova de força e de que ainda está no controle. O chavismo está sempre de olho nas eleições", disse Margarita ao Estado. "Maduro é um presidente frágil politicamente e sua popularidade tem se deteriorado bastante em razão da crise econômica. A operação toda foi teatral, para ganhar apoio."

Ledezma, ao lado da ex-deputada María Corina Machado e do ex-prefeito de Chacao Leopoldo López, idealizou no ano passado o movimento "A Saída", que deu início a protestos de rua que em 100 dias deixaram 43 mortos no país. Desde então, López foi preso e María Corina perdeu o mandato. Até a semana passada, o prefeito de Caracas, no cargo desde 2008, tinha ficado à margem do radar chavista.

Estratégia. A prisão, na opinião do presidente do Datanálisis, Luis Vicente León, representa uma mudança de tom do presidente em relação a seus opositores.

"Maduro cruzou uma fronteira importante na direção da radicalização. Só que isso deve ter o efeito também de unificar os moderados e radicais da oposição", disse à reportagem. "Por um lado, é uma tentativa de neutralizar um agente que poderia tentar convocar novos protestos. Por outro, desvia o debate do cenário econômico e o transfere para o político, onde o chavismo tem maior margem de manobra."

Movimentação. "Em 3 de maio, definiremos quem integrará a nova maioria qualificada da Assembleia Nacional", disse o secretário executivo da MUD, Jesus "Chuo" Torrealba. "Essa decisão mostra que temos o mesmo plano: uma estratégia pacífica, democrática e constitucional de mudar o governo e o modelo político", afirmou.

Na avaliação da cientista política da UCV, um dos fatores que preocupa o chavismo é o avanço do Primero Justicia, partido do candidato derrotado nas últimas duas eleições, Henrique Capriles. "Se o Primero Justicia começar a fazer frente ao PSUV será um problema grande para o chavismo", disse.

Acusações. Ao anunciar a prisão de Ledezma, Maduro o acusou de "cometer crimes contra a paz" na Venezuela. "Ele pretende usar os cargos públicos que ocupa para buscar a violência, o atentado golpista e a desestabilização."

Durante seu pronunciamento, Maduro mostrou um documento assinado por Ledezma, María Corina e Leopoldo López, no qual defendem mudanças na economia, a renúncia de Maduro e a criação de um governo de transição no país.

Para o sociólogo Oscar Reyes, comentarista político do canal estatal TVES, o presidente dificilmente agiria sem estar apoiado por um conjunto de provas concretas. "Acredito que o presidente deva ter alguma gravação que sustente essa prisão. Ele não é louco", afirmou. "E Ledezma tem um histórico de conspirações contra o governo. No entanto, acredito que dificilmente esse episódio provoque uma nova onda de grandes protestos na Venezuela", acrescentou.

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