Brennan Linsley/AP
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Prisão em Cuba é um dos legados do terror

Detenção de Guantánamo ainda pode ser extinta por Obama, mas desafio é grande

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo

11 de setembro de 2016 | 06h00

A prisão de Guantánamo, uma das consequências dos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, ainda divide a opinião da população americana, mas, segundo analistas, pode ser fechada, até mesmo no pouco tempo de governo que resta a Barack Obama. 

“É mais um desafio político do que um desafio jurídico”, afirma o diretor do programa de direitos humanos da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), Jamil Dakwar. “Republicanos no Congresso ajudam a liderar uma campanha calcada no falso argumento de que fechar Guantánamo deixará os EUA mais vulneráveis e colocará vidas americanas em risco. Acreditamos que há uma forma de o governo proteger seu povo sem ferir as leis americanas e internacionais e sem continuar defendendo, e tendo, um sistema de detenção, entre outras coisas, muito caro.”

Segundo o fundador da ONG Reprieve, que atua na defesa de presos de Guantánamo, Clive Stafford Smith, o custo dos EUA com cada prisioneiro é de cerca de U$ 3 milhões por ano atualmente, “o que é um enorme desperdício de dinheiro”. Smith afirma que além da oposição de deputados e senadores, “falta vontade política” ao presidente Obama, que “tem os poderes necessários para fechar a prisão amanhã, se quiser”.

O cárcere, que já chegou a ter 779 presos, hoje abriga 61, sendo que 20 são considerados aptos a deixar o local e esperam apenas que algum país se disponha a recebê-los. A polêmica começa com aqueles que não são aceitos por outros países ou não são liberados para transferência, ou seja, considerados culpados. A ideia de Obama é enviá-los para prisões nos EUA.

“Isso é muito difícil pelas restrições que o Congresso impõe à transferência de presos para os EUA. Por isso, é essencial que países estejam dispostos a aceitar as pessoas liberadas para serem transferidas. Nos últimos meses, diversos prisioneiros foram transferidos de forma muito mais rápida que nos últimos anos”, afirma a diretora da ONG Escritório de Washington para a América Latina (WOLA), Joy Olson. 

Dakwar lembra que o desafio de Obama, além de tentar convencer o Congresso em seu último ano na presidência, é fazer isso em um ano eleitoral. “Candidatos usam a eleição presidencial – e ouvimos muito isso do republicano Donald Trump – para propor políticas de Segurança Nacional mais abusivas e restritivas, como manter Guantánamo aberta.”

O diretor da ACLU defende o contrário. “Guantánamo estar aberta esses anos todos tornou muito mais difícil para os EUA defender seus interesses em Segurança Nacional porque a prisão se tornou um símbolo de recrutamento por organizações como o Daesh (sigla em árabe para o grupo Estado Islâmico). Ficou mais difícil para os EUA trocar informações com aliados porque eles se preocupam com as operações americanas em Guantánamo”, diz Dakwar, acrescentado temer que o próximo presidente envie mais prisioneiros para o local caso não seja fechado.

Medo. Muitos americanos hoje veem a prisão localizada em Cuba como uma violação de direitos humanos, mas os ataques de 2001 tornaram a sensação de insegurança grande e as pessoas acreditavam que Guantánamo evitaria novos atentados. 

“É importante lembrar que havia muito medo nos EUA após o 11 de Setembro e não havia muita informação sobre o que ocorria”, avalia Olson. A diretora do WOLA acrescenta que a prisão foi montada em Cuba justamente para ficar fora da jurisdição americana.

O fundador da Reprieve diz que a falta de informação ajudou a prolongar a existência de Guantánamo. “No começo, nós sabíamos tão pouco sobre os prisioneiros que muitos americanos acreditaram nas alegações de Donald Rumsfeld (secretário de Defesa em 2002, quando Guantánamo foi aberta) de que naquela prisão estavam ‘os piores dos piores’. Só soubemos que a maioria dos presos nunca deveria ter sido detida após anos de trabalhos judiciais”, explica Smith.

Enquanto Obama não consegue a aprovação necessária do Congresso para enviar presos aos EUA, seu governo continua tomando medidas para pressionar os deputados e senadores. Nessa semana, os militares fecharam o Campo 5 de Guantánamo, inaugurado em 2004.

Os analistas que trabalham com presos de Guantánamo explicam que muitos têm problemas de saúde e psicológicos em razão da tortura que sofreram e dos diversos anos incomunicáveis na prisão. Para os que saem da prisão, a reinserção na sociedade é um desafio. 

 

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