Prisão expõe laço da ETA com Chávez

Organização basca teria célula em Caracas desde 1959 e atualmente seria liderada por Cubillas, funcionário do governo venezuelano

Simon Romero, Andrés Cala, O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2010 | 00h00

THE NEW YORK TIMES / CARACAS

O sombrio submundo dos imigrantes bascos em Caracas passa por agudo escrutínio após recentes detenções na Europa e da acusação feita este mês por um juiz espanhol afirmando que agentes do serviço secreto venezuelano estariam envolvidos no treinamento de separatistas bascos e guerrilheiros colombianos na Venezuela.

A Venezuela atraiu milhares de imigrantes bascos desde a década de 30, quando alguns deles começaram a fugir da perseguição na Espanha de Franco. Especialistas do serviço secreto espanhol dizem que a organização separatista basca ETA mantém uma célula nesta comunidade desde 1959, formada poucos meses após a criação da ETA na Espanha. A acusação feita no dia 1.º pelo juiz Eloy Velasco, da Corte Nacional espanhola, abriu uma rara janela para as atividades da ETA na Venezuela, indicando Arturo Cubillas, exilado basco de 45 anos, como principal suspeito de liderar a ETA na Venezuela.

A acusação afirma também que Cubillas recebeu assistência da agência de espionagem militar venezuelana, chefiada pelo general Hugo Carvajal. Em 2008, o Departamento do Tesouro americano identificou Carvajal como partidário das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) depois que relatórios detalharam casos em que ele forneceu armamento ao grupo rebelde colombiano.

Muitos da pequena comunidade basca local discordam das táticas da ETA. Os bascos também se dividem entre aqueles que apoiam o presidente Hugo Chávez e aqueles que se opõem a ele.

Cubillas fazia parte de um grupo de agentes da ETA deportado para a Argélia depois do fracasso nas negociações de paz entre o grupo e o governo espanhol. Um acordo informal entre os presidentes da Espanha e da Venezuela permitiu que os exilados buscassem refúgio em Caracas.

Apesar de estar associado a três assassinatos realizados pela ETA na Espanha na década de 80, Cubillas foi nomeado diretor de segurança do Instituto Nacional de Terras, em 2007, órgão que supervisiona a expropriação de terras na Venezuela. Sua mulher trabalha como assessora sênior do vice-presidente Elías Jaua.

A acusação feita pelo juiz Velasco, que solicita a detenção de 13 militantes membros da ETA e das Farc, levou a novos pedidos nos EUA pela inclusão da Venezuela na lista de Estados patrocinadores do terrorismo. Tal designação parece improvável, pois poderia afetar o elástico comércio da Venezuela com os EUA e a Espanha. O governo venezuelano negou as acusações de colaboração com a ETA.

Em seus 50 anos de campanha por uma pátria autônoma para o povo basco da Espanha e da França, a ETA matou mais de 800 pessoas. Nos últimos anos, autoridades francesas e espanholas revelaram as raízes do grupo na Venezuela.

Apesar da tensão atual, o fascínio exercido por Caracas sobre os militantes da ETA está alicerçado no histórico de negociações favoráveis entre Venezuela e o Partido Socialista da Espanha, que governou o país durante a maior parte de sua história democrática desde a morte de Francisco Franco, em 1975.

Outras cidades latino-americanas, em especial a Cidade do México, absorveram certo número de membros da ETA. Mas as preocupações espanholas estão concentradas nos que residem na Venezuela.

"Não é a maior colônia da ETA, mas é a mais importante em termos qualitativos", disse Óscar Elía, especialista em ETA e membro do Grupo de Estudos Estratégicos, de Madri. "É na Venezuela que eles gozam de maior liberdade." /

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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