Prisões viram centro de recrutamento de radicais na França

Afetados pela pobreza, jovens muçulmanos entram na cadeia por crimes menores e saem prontos para a jihad

ALEXANDRIA SAGE, VILLEPINTE, FRANÇA, REUTERS , O Estado de S.Paulo

02 Junho 2013 | 02h03

Na França, o caminho que leva ao Islã radical começa com um crime menor. Um jovem é enviado para uma cadeia violenta, superlotada, de onde sai convertido, pronto para a jihad. Com o país em alerta desde a intervenção no Mali, o governo está cada vez mais preocupado com os militantes que saem das cadeias.

As condições atrás das grades tornam os jovens muçulmanos presa fácil de jihadistas à procura de recrutas, segundo afirmam guardas, diretores das prisões, ex-detentos, capelães e especialistas em criminalidade. "Alguns pais me contam que o filho foi para a prisão como traficante e saiu fundamentalista", disse Hassen Chalghoumi, imã da mesquita de Drancy, subúrbio violento de Paris,

Mohamed Merah, que no ano passado matou quatro judeus e três soldados em Toulouse, passou muito tempo na cadeia por assalto à mão armada. Em março, um muçulmano foi preso acusado de preparar um ataque a bomba em solo francês. Ele passara cinco meses na prisão, depois de ser condenado por tráfico de drogas e roubo. "Eles começam como pequenos delinquentes. Ficam presos por algum tempo e se convertem ao Islã radical", disse o ministro do Interior Manuel Valls.

Barulhenta e fétida, a prisão de Villepinte é a mais superlotada da região de Paris. É chamada a "selva" pelos guardas. As brigas são semanais e os funcionários vivem com medo de ataques. Em janeiro, um oftalmologista foi ferido no olho com uma tesoura.

"A radicalização islâmica é um verdadeiro castigo na maioria das nossas prisões", disse o guarda Blaise Gangbazo. "Mas, em prisões violentas como a nossa, ela é ainda mais fácil. É uma excelente escola."

A população prisional da França cresceu 30% nos últimos dez anos, em parte em razão da política de governos conservadores de aplicar penas pesadas a menores reincidentes. O sociólogo Farhad Khosrokhavar diz que metade dos 67 mil detentos é de muçulmanos, subindo para 70% em áreas urbanas. Os jovens vulneráveis que chegam à prisão ficam isolados da família e dos amigos em um momento de crise e se tornam presa fácil.

Um desses casos é o de Karim Mokhtari, condenado aos 18 anos a 6 anos por roubo. Quando estava na cadeia, conheceu um preso mais velho, que o consolou e o convidou à oração. "Quando você chega à prisão, sente-se abandonado. Então, precisa encontrar forças", disse Mokhtari. "Você procura uma esperança e, quando alguém lhe estende a mão, você se agarra."

Em um encontro posterior, o novo amigo pediu que ele matasse todo o infiel que encontrasse. "O objetivo era me treinar para me tornar um jihadista violento", disse Mokhtari, que resistiu à pressão e hoje, aos 35 anos, trabalha com jovens para mantê-los afastados da cadeia. "São os jovens que nos preocupam mais. Lá dentro, eles conhecem os chefões e as consequências são péssimas", disse o guarda Gangbazo.

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