Pró-guerra, Lieberman perde indicação ao Senado dos EUA

Conhecedores dos corredores de Washington há tempos vêm sugerindo que o Partido Republicano, do presidente George W. Bush, vai perder espaço nas eleições para o Congresso em novembro. A única questão, eles avaliam, é saber quanto espaço será perdido. Será o suficiente para perder o controle de uma ou das duas casas do Congresso?Eles podem ter tido o início de uma resposta na noite da terça-feira, mas a cabeça que rolou não era a de um republicano, mas a do senador democrata Joe Lieberman.Senador por 18 anos e candidato a vice-presidente na chapa de Al Gore em 2000, Lieberman perdeu as primárias para a indicação do candidato democrata ao Senado pelo Estado de Connecticut para o novato Ned Lamont.Segundo os analistas, o apoio de Lieberman à guerra no Iraque foi um dos principais fatores para sua derrota. Lamont, totalmente desconhecido até 6 meses atrás, fez uma campanha com uma forte plataforma antiguerra e se tornou o primeiro pré-candidato em décadas a derrotar um senador em exercício em eleições primárias.Apesar de a margem de vitória de Lamont ter sido pequena, foi uma derrota surpreendente para Lieberman, que disse que concorrerá como candidato independente nas eleições de novembro.´Democrata preferido de Bush´ Um aliado de longa data de Lieberman que apoiou Lamont desta vez disse que o apoio do senador à guerra ao Iraque e ao governo Bush foi o que levou à sua derrota na noite de terça-feira.?Connecticut se opõe a esta guerra?, disse Irving Stolberg, importante membro do Partido Democrata no Estado por mais de 35 anos. ?Você não pode concorrer em Connecticut como o democrata favorito de Bush e de Cheney (o vice-presidente Dick Cheney).?Mas uma análise publicada pelo jornal The New York Times mostrou que Lieberman votou com os democratas no Senado na grande maioria das vezes durante seus 18 anos de mandato.Os jornais de Connecticut o haviam apoiado, assim como os sindicatos e outros grupos tradicionalmente ligados ao Partido Democrata.O ex-presidente Bill Clinton liderou a lista de personalidades do partido que visitou o Estado para fazer campanha por ele.Beijo de Bush Mas a campanha de Lamont recentemente o ligou à guerra contra o Iraque, da qual ele tem sido um inabalável apoiador, e ao presidente Bush.A propaganda de TV de Lamont mostrou Bush aparentemente beijando Lieberman no rosto após seu discurso do Estado da União no ano passado.Tom Matzzie, do grupo ativista liberal MoveOn.org, que apoiou Lamont, disse que o resultado reflete uma percepção do eleitorado de que o senador democrata era muito próximo ao presidente republicano.?Se você é alguém que assina embaixo de tudo o que George W. Bush faz, vai ter problemas no dia da eleição?, disse. Segundo ele, os eleitores ?estão dizendo que querem líderes que vão resistir e lutar contra o governo Bush, especialmente contra a guerra no Iraque?.Connecticut está entre os Estados mais ligados aos democratas nos Estados Unidos, segundo o cientista político Larry Sabato, observando que Bush perdeu a eleição no Estado por uma grande margem tanto em 2000 como em 2004.Para ele, a derrota de Lieberman reflete o sentimento dentro do partido, com muitos democratas centristas que antes tinham posições semelhantes às de Lieberman adotando posições mais esquerdistas antes mesmo da contagem dos votos das primárias.?Hillary Clinton já entendeu a mensagem da disputa entre Lieberman e Lamont?, diz Sabato, observando que na semana passada a senadora e ex-primeira-dama, pré-candidata à Presidência em 2008, pediu a renúncia do secretário da Defesa de Bush, Donald Rumsfeld.Muitos importantes estrategistas republicanos podem ter um prazer momentâneo com a humilhação de Lieberman, esperando que isso possa permitir a eles continuar classificando os democratas de fracos na área de Defesa.Mas Sabato diz que são os próprios republicanos quem têm mais a temer da impopularidade do presidente e da guerra. ?A questão é o que acontecerá com Bush e o Iraque até novembro. Se a guerra de alguma forma parar de ser o desastre que tem sido, e se Bush de alguma maneira conseguir chegar a algo próximo de 50% de aprovação, então isso poder se reverter contra os democratas?, avalia.?Mas enquanto Bush e a guerra continuarem tão impopulares, isso não será um problema para os democratas nas eleições deste ano?, prevê.Interesse nacional Sabato, porém, adverte contra tentar tirar muitas conclusões sobre os resultados de uma eleição primária em um pequeno Estado liberal do nordeste do país.?Os americanos estarão interessados neste resultado, mas isso não vai determinar como as pessoas votarão fora de Connecticut?, diz.Porém Matzzie, da MoveOn.org, disse que qualquer político muito próximo a Bush teria o mesmo destino de Lieberman. ?Há milhões de republicanos e independentes insatisfeitos em todo o país. Por que isso não ocorreu com outros políticos no país que tinham a mesma posição de Lieberman sobre a guerra? Porque foram mais críticos em relação ao presidente?, avalia.

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