Problemas na Austrália depois de anos prósperos

Após crescimento, país precisa tomar decisões difíceis

PHILIP BOWRING / THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

A péssima qualidade do debate entre os maiores partidos políticos da Austrália talvez seja a razão pela qual nenhum deles obteve maioria na última eleição. O eleitorado parece ter reconhecido, embora de modo incoerente, que depois de uma década de crescimento e prosperidade quase ininterrupta, o país precisa tomar algumas decisões difíceis. E a mais importante delas gira em torno de uma palavra: população.

Diversos aspectos do problema ficaram ressaltados na eleição. O mais flagrante, e politicamente o mais contundente, é a taxa de imigração, que aumentou muito recentemente mesmo para os padrões de uma nação que se desenvolveu com a ajuda do trabalhador estrangeiro. O segundo aspecto é o envelhecimento da população. A idade média deve aumentar de 35 anos, em 2000, para 40 em 2020, enquanto que o número de pessoas com 65 anos ou mais vai saltar de 12% para 17% no final da década. O terceiro fator é a divisão que existe entre uma Austrália confortável e urbana e o vasto interior rural, cada vez mais despovoado que clama por apoio governamental.

Desde 1945, a população da Austrália cresceu de 7 milhões para 22 milhões, graças às políticas adotadas para aumentar o número de habitantes e povoar o continente. Os números mudaram de ano a ano, dependendo das condições econômicas, com demandas esporádicas por parte de uma minoria pregando um crescimento zero da população. Mas a crença de que a população da Austrália pode e deve crescer entre 1,5% a 2,5% ao ano persistiu.

Agora, porém, ambos os partidos comprometeram-se em reduzir o número de imigrantes de 270 mil em 2009 para 170 mil ou menos. Parte da mudança de atitude pode ser simplesmente cíclica.

A economia da Austrália tem crescido graças à demanda chinesa pelas riquezas minerais do país, mas ela não cria empregos diretamente nas grandes cidades. As pressões, no entanto, não são apenas econômicas.

Existe um desconforto com a diversidade cultural. Os investimentos públicos inadequados nas áreas de transporte, água e hospitais, além dos fortes aumentos nos preços das habitações aumentam mais ainda as dúvidas da população no tocante ao alto número de imigrantes no país.

Os ambientalistas estão preocupados com as demandas resultantes do crescimento da população. E essas inquietações devem aumentar agora que os dois principais partidos políticos abandonaram efetivamente a ideia de taxar as emissões de carbono, apesar de a Austrália ser um dos países com a maior taxa per capita de emissões.

O país sobreviveu à recessão global muito bem, graças principalmente à vigorosa demanda da China por minérios, o que sustentou a imigração continuada. Mas é provável que a demanda por trabalho imigrante caia drasticamente se o setor de mineração, que deverá ser mais taxado para sustentar as necessidades de uma sociedade que envelhece, enfrentar tempos mais difíceis. Embora seja provável, esse novo imposto talvez não seja suficiente se os preços dos minérios despencarem. No momento, com a dívida pública em apenas 6% do Produto Interno Bruto, a Austrália é invejada por muitas nações desenvolvidas. Apesar da boa sorte, a dívida externa subiu para 50% da renda nacional e a dívida interna para 112%.

A prosperidade observada no setor de mineração contrasta enormemente com a renda, cada vez menor, de muitos australianos que vivem nas zonas rurais e dependem da agricultura.

Acabar com essa divisão entre a zona rural e urbana é uma proposta cara. Por exemplo, o Partido Trabalhista propôs criar uma rede de fibra ótica que chegaria a 97% da população, atendendo, assim, às demandas dos habitantes do interior para terem igual acesso às comunicações modernas. O projeto, porém, custará US$ 37 bilhões e seria financiado especialmente pelos contribuintes.

O desânimo que toma conta das zonas rurais é consequência da escassez de água e da degradação da terra, mas as queixas também têm um lado político e emocional. Os agricultores invariavelmente pressionam por mais ajuda do governo. E agora conseguiram defensores em três membros independentes do Parlamento que podem ter nas mãos o equilíbrio do poder. Os três são de distritos rurais e todos eles favoráveis a políticas econômicas mais nacionalistas do que as adotadas nos últimos anos.

É improvável que qualquer um dos dois principais partidos consiga conceber políticas que abranjam os problemas de populações tão diversas. No entanto, aquele que assumir o governo terá de resolver todas essas questões, numa fase em que a mineração poderá não ser mais a fonte mágica de riqueza, a idade começará a se tornar um problema maior do que a Austrália e o boom global dos preços das commodities. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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