Problemas 'padrão Fifa' para o Catar

Pressões sobre sede da Copa de 2022 estão modificando relações de trabalho no emirado

CHRISTA , CASE BRYANT , , CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2014 | 02h08

O empenho do Catar para se tornar um player global recebeu um grande impulso em 2012 quando o país foi escolhido sede da Copa do Mundo de 2022. Os estimados US$ 220 bilhões de investimento envolvem não apenas cinco novos estádios, mas também um novo aeroporto, extensas obras rodoviárias, uma rede ferroviária de alta velocidade de US$ 24 bilhões e incontáveis hotéis.

Mas tudo isso se tornou um grande desafio na medida em que ativistas de direitos humanos, legisladores europeus e a mídia internacional têm criticado o emirado pelo tratamento a mais de 1,3 milhão de trabalhadores migrantes. O Catar, consciente de que seu poder se baseia mais na persuasão do que na força física, esforça-se para salvar sua reputação.

O país deu nesta semana um grande passo para responder às críticas ao anunciar a abolição de seu sistema kefala, ou de patrocínio. Por esse sistema, trabalhadores estrangeiros são patrocinados por seus empregadores que com frequência confiscavam seus passaportes e impediam que eles mudassem de emprego ou fizessem queixas contra condições de trabalho. Agora, o sistema será substituído por contratos de emprego regulados pelo Estado, e punirá empregadores com multas equivalentes a cerca de US$ 14 mil por passaporte que confiscar. O anúncio ocorre após várias iniciativas dos últimos meses. O Catar introduziu novas diretrizes sobre o bem-estar do trabalhador, aumentou em 25% o número de fiscais trabalhistas e mudou os trabalhadores em estádios para novas e modernas acomodações.

Alguns ativistas em direitos humanos descrevem as mudanças apenas como pequenos passos na direção certa, pois não há garantia de que serão aplicadas, e dizem que as normas de segurança continuam defasadas.

"Grandes projetos, seja a Copa do Mundo ou a Expo Mundial (em Dubai, em 2020), vão pôr os Estados do Golfo na berlinda", diz Abdullah Baabood, diretor do Programa de Estudos do Golfo na Universidade do Catar. "Creio que isso é positivo porque os tomadores de decisões dos Estados do Golfo agora precisam acordar e perceber que, se não fizerem nada, perderão aquilo a que aspiraram - seja a Copa do Mundo, a Expo Mundial ou a Fórmula 1 (no Bahrein)."

Pressão contraproducente? O Catar é governado por um grupo restrito de tomadores de decisão, o que lhe dá uma agilidade considerável para instituir reformas radicais.

O governo precisa pesar o risco de sublevações sociais e as cobranças internacionais por uma rápida reforma trabalhista, diz Zahra Babar, uma especialista em mão de obra migrante na Universidade de Georgetown, no Catar.

"Uma mudança ou melhora genuína com frequência só ocorre quando há um compromisso local", diz Babar, que já trabalhou na Organização Internacional do Trabalho. "A existência de uma grande campanha internacional de descrédito, no mínimo corrói o compromisso local porque as pessoas se sentem sitiadas." Ela descreve uma mentalidade de bunker em todo o país, incluindo em ministérios do governo. "As portas que estavam abertas, as pessoas com quem você poderia falar neste momento não estão se engajando."

Uma pessoa disposta a falar sobre o tema é Nasser Fahad al- Khater, diretor de comunicações e marketing do Comitê Supremo para Entrega e Legado da agência governamental encarregada de construir os estádios e a infraestrutura para a Copa do Mundo.

Na condição de cidadão educado em Boston, ele tenta expor a escala do desafio em termos americanos. "Se vocês tivessem 10 Big Digs ocorrendo simultaneamente, o que ocorreria?", ele pergunta, referindo-se ao projeto de obras viárias de 15 anos em Boston, a reforma mais cara da história americana.

Depois, imagine cerca de 1,7 bilhão de pessoas - mais do que as populações da China e dos EUA juntas - vindo para os EUA para ajudar a construir esses projetos. Essa seria a proporção aproximada de catarianos para estrangeiros hoje.

"Para muitos de nós (os holofotes da Copa do Mundo) ajudam a nos motivar para continuar a enfrentar essas questões", diz ele. "Mas isso é uma faca de dois gumes. As críticas incessantes sem o reconhecimento de sinais de progresso podem ser desmoralizantes.

A maioria dos operários parte para seu trabalho por volta das 5 horas e só volta de 12 a 13 horas mais tarde - tudo por um salário mensal de US$ 220 a US$ 360. Muitos levam anos pagando dívidas para agências de recrutamento e empregadores, que com frequência repassam tarifas de vistos e custos de viagens a trabalhadores enquanto pagam salários muito mais baixos do que os prometidos.

"As coisas pioraram", diz Ram Suramat, um carpinteiro nepalês que está trabalhando no país há 17 anos. Ele geralmente trabalha em alturas de até oito andares sem equipamentos de segurança, mas diz que assume o risco para sustentar a mulher e sete filhos em casa. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE NO

ORIENTE MÉDIO

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.