EFE
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Processo de diálogo na Venezuela segue ameaçado

Insultos e acusações de descumprimento dos acordos entre governo e oposição pioraram nesta semana

O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2016 | 11h03

CARACAS - O diálogo que busca resolver a grave crise da Venezuela não está seguindo pelo caminho desejado. A oposição ameaça deixar a mesa de negociações caso o governo insista em rejeitar a consideração de uma saída eleitoral no dia 6 de dezembro, quando as partes voltarão a se encontrar sob os auspícios do Vaticano.

Os insultos e as acusações mútuas de descumprimento dos acordos pioraram nesta semana, quando foi registrado um incidente - ainda não reconhecido pelo governo - que, segundo a oposição, esteve a ponto de fazer o processo, iniciado em 30 de outubro, ser interrompido.

"De maneira unilateral, o governo não só havia congelado o diálogo no nível das mesas de trabalho, às quais não compareceu na terça-feira, como colocou em 'veremos' a reunião plenária de dezembro", afirmou na quinta-feira o secretário-executivo da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), Jesús Torrealba.

Dirigentes opositores, como o ex-candidato à presidência Henrique Capriles, sustentam que a causa do "congelamento" foi a discussão - na terça-feira, no Parlamento de maioria opositora - do caso de dois sobrinhos da mulher de Maduro, Cilia Flores, declarados culpados por tráfico de drogas nos EUA.

Contudo, pouco depois de diversas declarações da MUD nesse sentido, Maduro apareceu na televisão com o ex-governante espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, um dos facilitadores do processo, para negar que tivesse se retirado. "A mesa de diálogo segue avançando", destacou.

O analista Luis Vicente León disse que os tropeços são parte de um "jogo desequilibrado e cheio de manipulação", no qual o governo conseguiu diminuir a pressão internacional e popular contra si, diante de uma oposição quebrada e "provavelmente não poderá conseguir o que realmente é pedido pelas maiorias".

Segundo uma pesquisa realizada em outubro pela empresa Datanálisis, 78,5% dos venezuelanos rejeita a gestão de Maduro, diante da profunda crise econômica, que se reflete na dura escassez de alimentos e remédios e em uma inflação que, segundo o FMI, alcançará, 475% em 2016.

Tensão. Um dos 15 partidos da MUD, que rechaça o diálogo, iniciou um processo para pedir que se investigue Maduro por suposta cumplicidade com os sobrinhos de sua mulher, condenados nos EUA por tráfico de drogas. Segundo setores da oposição, foi Zapatero que os informou sobre o mal-estar no governo pelo debate parlamentar sobre o caso dos sobrinhos, mas ninguém do governo falou sobre essa versão.

O fato é que ambas as partes se acusam mutuamente de descumprir os acordos combinados na segunda etapa de conversas em 12 de novembro: convivência pacífica, medidas paliativas para a crise de alimentos e remédios, e superação das diferenças em torno dos poderes públicos.

Mas os acordos são ambíguos e gerais, o que continua dando espaço a interpretações distintas para um lado e outro. "Se não há resultados, de que vale o processo? Até agora o governo não cumpriu nada e a oposição, tudo. Em 6 de dezembro teremos de ir pela saída eleitoral. Queremos a data. Se não, não contem comigo nessa festa", advertiu Capriles.

A MUD, dividida - já que metade dos partidos que a integram acredita que não vale à pena negociar com o chavismo -, insiste que o objetivo dos contatos deve ser a reativação de um referendo revogatório contra Maduro (suspenso em 20 de outubro) ou um adiantamento das eleições previstas para dezembro de 2018. "Para onde isso vai? Este governo quer nos condenar à violência política", advertiu Torrealba, ao reiterar que a única saída para a crise é eleitoral.

O governo descartou que isso esteja em discussão. Maduro se vê terminando seu mandato em janeiro de 2019 e dialogando por um bom momento. "Receberemos janeiro, fevereiro, março com uma mesa fortalecida", assegurou na quarta-feira.

Porém o número dois do chavismo, Diosdado Cabello, sentenciou: "A direita não cumpriu com os acordos e enquanto não cumprirem, nós não temos nada a falar com eles", manifestou na noite de quarta-feira. / AFP

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