Processo desigual abate militância anti-Chávez

Oposição reclama das mudanças dos distritos eleitorais do país, que devem beneficiar o governo, e do uso dos veículos públicos

Roberto Lameirinhas ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

Um certo enfado toma conta da oposição venezuelana às vésperas da eleição de domingo para renovar totalmente a Assembleia Nacional, a câmara única do Legislativo do país desde a entrada em vigor da Constituição de 1999.

Embora os líderes da frente opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD) esforcem-se para demonstrar entusiasmo, os militantes que entram e saem freneticamente da sede da campanha em Miranda, região contígua a Caracas, lamentam estar diante do rolo compressor político pilotado pelo presidente Hugo Chávez.

"É como estar num jogo de futebol no qual o árbitro decide regras e critérios de acordo com a conveniência do time adversário", afirmou ao Estado Gabriel Valdéz, cabo eleitoral da MUD. "Resta-nos fazer o melhor possível, mostrar dignidade e perder de pouco."

Valdéz refere-se, principalmente, às normas aprovadas no ano passado pela Assembleia - amplamente dominada pela bancada chavista -, que redesenhou os distritos eleitorais do país. Sob o pretexto de "aproximar o local de votação do domicílio do eleitor", circunscrições onde o chavismo foi mal nas últimas eleições foram divididas ou acabaram incorporadas a redutos governistas.

A mudança deve causar uma impressionante distorção eleitoral. Embora a oposição trabalhe com o cenário apresentado pelas últimas pesquisas, que indicam um equilíbrio de forças com os governistas em termos de votação nacional, sua aspiração mais realista é a de evitar que o chavista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) obtenha a maioria de dois terços dos 165 deputados da Assembleia.

A disputa desigual, porém, não se encerra na nova divisão de circunscrições. Durante a campanha, Chávez fez-se onipresente nas cadeias de rádio e TV obrigatórias, nas quais apresentava os candidatos do PSUV em meio a atos oficiais.

Na quarta-feira, anunciou o programa "Minha casa bem equipada", pelo qual oferecerá 300 mil itens - entre geladeiras, fogões e eletrodomésticos chineses - para a população mais pobre a preços subsidiados, financiados em longo prazo e juros perto de zero.

Os primeiros bens foram entregues por Chávez a moradores do bairro do Petare, um dos mais pobres e perigosos do país, que nas eleições regionais de 2008 votou em massa nos candidatos a governador e prefeito da oposição.

Na entrevista que concedeu na sede de campanha da MUD, o secretário da frente, Ramón Guillermo Aveledo, denunciou a falta de igualdade, mas convocou seus partidários a fiscalizar "100%" os locais de votação no domingo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.