Processos de adoção foram suspensos

O abandono e falta de documentação tem outra agravante: sem possibilidade de comprovar se são ou não órfãos, elas não podem ser adotadas. Pela lei internacional, no caso de desastres naturais, as adoções devem ser suspensas até que se consiga identificar todas as crianças. Mesmo os processos de adoção internacional que já estavam em andamento antes do terremoto foram interrompidos.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2010 | 00h00

Após a tragédia, dez missionários americanos tentaram atravessar a fronteira do Haiti para a República Dominicana com 33 crianças, supostamente órfãs. Foram presos - um deles, acusado de tráfico de menores, continua atrás das grades. E as crianças devolvidas às famílias.

Todas elas tinham pelo menos um dos pais vivos. Parte deles teria entregue os filhos aos missionários por acreditar que teriam melhores condições de vida nos EUA. Para motivá-los a receber os filhos de volta, as famílias receberam comida, cobertores e U$ 260. Sob condições parecidas de apoio, a SOS conseguiu entregar apenas 82 crianças às suas famílias desde o terremoto.

Embora muitas crianças do orfanato vivam em improvisadas barracas no quintal e funcionem sob racionamento de água e comida, a situação ali é infinitamente melhor do que nas ruas de Porto Príncipe, onde a reconstrução ainda não começou.

Além da falta de serviços básicos, entidades como a Action Aid, que trabalham nos campos de refugiados, têm denunciado casos de estupro de mulheres desacompanhadas e crianças. "Não temos ainda como fazer um levantamento, mas em todos os acampamentos há relatos de abuso sexual durante a noite", declarou Jean Claude Fignoli, da Action Aid. A informação foi confirmada ao Estado por um oficial de alto escalão da área de inteligência da ONU.

A violência é uma das razões pelas quais Angelo Amaty Foubert, de 14 anos, não quer voltar para a mãe e os quatro irmãos, em Cité Soleil, onde mais de 200 mil vivem em condições extremamente precárias. A maior favela do Haiti também foi, por muito tempo, esconderijo de criminosos e milicianos partidários do ex-presidente Jean-Bertrand Aristides. O local foi controlado pelo 6.º contingente brasileiro das forças da ONU, em 2007.

Mas, o símbolo da pacificação local, a Casa Azul, foi destruído pelo terremoto, assim como a cadeia. Entre os 4 mil fugitivos, estão 600 condenados, alguns deles, líderes das antigas facções, que tentam se reorganizar em locais como Cité Soleil e Bel Air, as duas áreas vermelhas (consideradas mais perigosas pelos militares) de Porto Príncipe. A família de Angelo e ele próprio temem que os bandidos possam tentar recrutá-lo. "Os bandidos faziam coisas muito ruins com as crianças, então, não quero mais voltar", diz ele, hoje abrigado pela SOS. Ele foi levado para a organização pelo coronel Roberto Batista, médico do batalhão brasileiro, a quem Angelo "adotou" como pai.

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